Homens, executivos e empreendedores: tradição ou modernidade?

A globalização econômica, as privatizações oriundas das reformas neoliberais, o domínio do capital especulativo e outros fenômenos das últimas décadas trouxeram mudanças que afetam, entre outras, as próprias relações humanas, incluindo as relações de gênero. Entender esses efeitos do estágio atual do capitalismo é um esforço necessário, embora não seja simples. Neste texto, pretendo me aprofundar nas pesquisas da australiana Raewyn Connell, autora que, nos últimos anos, tem se dedicado aos estudos de gênero no contexto da globalização e do neoliberalismo (para saber mais sobre este, clique aqui).

Em primeiro lugar, é importante questionarmos quem são as pessoas por trás desse sistema: aqueles que ocupam cargos de liderança, operando corporações, meios de comunicação e bancos. O primeiro impulso, sobretudo se adotarmos uma perspectiva marxista acrítica, seria classificá-los como os velhos burgueses de sempre: homens brancos, de países centrais, e tradicionais em todos os sentidos possíveis.

Imperador romano Marco Aurélio: não se pode entender as masculinidades hegemônicas como uma eterna conservação dos grupos dominantes do passado.

É verdade que as formas hegemônicas de masculinidade da modernidade derivaram, ao longo dos anos, do crescimento do capitalismo industrial e do imperialismo. Reforçavam-se padrões burgueses de masculinidades com pequenas variações globais. Eram masculinidades, de um modo geral, socialmente conservadoras, heterossexuais, nacionalistas, detentoras de autoridade social e com demarcações de gênero bem claras (CONNELL & WOOD, 2005).

Cabe a nós questionarmos, atualmente, se os homens das posições hegemônicas atuais conservam exatamente as mesmas características da classe dominante do passado, ou se sinalizam para mudanças. Afinal, os homens executivos apontam para a tradição ou para a modernidade?

Connell (2005) afirmará que parte do legado burguês historicamente construído é retida, enquanto outra parte se modifica. Para a autora, o neoliberalismo levou não só à reconstrução das masculinidades burguesas, como também a alterações maiores nas relações de gênero mundiais. Para muitos homens e mulheres, suas posições sociais e econômicas pioraram, haja vista o desmonte dos sindicatos e a piora do status feminino em todos os países no qual o neoliberalismo se instalou.

Quem são os homens que ocupam os cargos de liderança da atualidade? Como poderíamos descrevê-los: modernos ou conservadores?

Outros, entretanto, o capitalismo neoliberal muito beneficiou: os empresários (entrepreneur). A quantidade de dinheiro, assim como de poder, circulando pelos mercados desregulados é enorme. Se, ao falarmos em pessoas, estamos nos referindo ao conjunto da sociedade, quando escrevemos sobre os empresários, temos nome e endereço: ainda estamos falando de homens brancos, sobretudo de países centrais (Europa, EUA e China), fonte de uma boa fatia das maiores redes e corporações do mundo.

Porém, os homens dominantes do mundo globalizado já não compartilham todas as características com os burgueses do passado. Hoje, aspectos religiosos, nacionalistas ou heterossexuais já não entram tanto na equação. Da mesma forma, não se tratam de empresários com grandes comprometimentos pessoais, como o casamento. Seu maior compromisso, relata Connell (2000), é com o seu próprio enriquecimento.

Raewyn Connell (1944-), professora australiana expoente nos estudos sobre masculinidades: hoje, seu maior interesse reside sobre globalização, neoliberalismo e gênero.

Curioso é notar a associação entre as corporações e o mundo do esporte e da estética. Os homens à frente das grandes fatias de mercado não são atletas ou modelos, mas usualmente se associam a este mercado, visando à promoção do seu negócio. O patrocínio estampado em cada metro quadrado do esporte televisionado é um exemplo claro. A indústria da moda e dos esportes, por sua vez, reforça estereótipos e padrões de beleza sobre mulheres e homens do mundo inteiro, financiados pelas grandes corporações.

A todo esse padrão descrito de masculinidade hegemônica atual, Connell chamou de masculinidade de negócios transnacionais.
Para ela, trata-se de um exemplo de como as tendências políticas e econômicas levam à reconfiguração das relações sociais, produzindo modelos ou padrões de novos homens ou mulheres.

Não significa, entretanto, que essa repaginação sempre aponte para melhorias: muitas vezes, é apenas a atualização de uma relação opressora, a qual mantém a concentração de renda e as desigualdades. De fato, ainda que os “novos homens” sejam mais progressistas, a estrutura que os mantém no poder deve continuar sendo alvo de lutas, enquanto os avanços reais para todas e todos continuarem sendo nossa meta.

2 comentários
  1. Bruno Miller Theodosio disse:

    Primeiro, obrigado pelo elogio, fico muito honrado, de verdade!

    Após isso, preciso dizer que concordo e discordo de ti.
    Concordo na necessidade de se debater e aprofundar este tema em específico e discordo de algo que, implicitamente, você adota, mas não percebe. Os homens e as mulheres são segmentados em grandes grupos, dada uma perspectiva marxista ortodoxa, de detentores dos meios de produção ou somente de sua força de trabalho. Sendo que os segundos vendem sua força de trabalho e, quando conscientes de sua tarefa histórica, afinal foram colocados, pela história, no seio da contradição entre Trabalho e Propriedade do trabalho, têm por objeto de análise suas próprias condições materiais, contrastadas com o processo de produção de riqueza na sociedade.
    Em momentos específicos de necessidade de desenvolvimento das forças produtivas, para tentar manter uma taxa composta de acumulação de 3% (o necessário para que o Capitalismo, historicamente, tenha se desenvolvido sem problemas e que não cabe explicações aqui) este sistema se utilizou de manobras para fazer o que chamo de “Modernização Conservadora” – a saber, (1) tecnologias e formas de organização (2) relações sociais (3) arranjos institucionais e administrativos (4) processos de produção e de trabalho (5) relações com a natureza (6) reprodução da vida cotidiana e da espécie (7) “concepções mentais do mundo” (interpretação do David Harvey). Consiste basicamente em se utilizar dessas “esferas de atividade” da vida humana, desenvolvendo-as em formas e direções distintas, mas sem perpetrar cisões no processo de movimento dialético delas, ou seja, superação das formas existentes por novas formas – e também novas contradições. Resumindo em palavras simples: o capitalismo tomou direções para resolver sempre um problema, o de manutenção de seu crescimento, pra isso, interveio na atualização dessas esferas que citei acima, modificando-as em forma e conteúdo e, nenhuma delas é determinante, senão seu conjunto, para entender o desenvolvimento do capitalismo mundial. Queres exemplos? Desregulamentação na Economia, Reformas Neoliberais, Financeirização da Economia, desindustrialização – todas essas coisas que falei foram manobras que o capitalismo se utilizou para que se desenvolvesse e, cada uma delas, precisou atualizar aquelas esferas; quando digo que se desregulamentou a economia, precisamos de arranjos institucionais novos, quando falo da desindustrialização, novas formas de produção no trabalho, reprodução da vida; quando digo do Neoliberalismo, novas formas de consciência foram engendradas na sociedade.
    O que eu quero dizer com isso? Entender a forma de produção e reprodução da vida social necessita, urgentemente, de associação com todas essas esferas para que possamos entender a completude do processo de desenvolvimento desta sociedade, e os tipos sociais, os atores neste processo.
    Quando falo da atualização do capitalismo, muito se foi feito com as mulheres. Colocá-las em posições subalternas significa forçá-las a uma luta afirmativa de gênero, pagar menores salários retarda seu engajamento “luta de classes” clássica, a qual elas poderiam, eventualmente entrar. Ou seja, para que as classes dirigentes pudessem continuar perpetuando o sistema, toda uma sociabilidade teve de ser artificialmente encaixada. Colocar a mulher num patamar inferior significa, em forma e conteúdo, tomar uma atitude para que ela não se visse engajada num processo maior e não fortalecesse a teoria de subversão da ordem vigente – alteração em várias daquelas esferas, percebe? E isso vem acompanhado de um processo de teorização complicado, afinal, quem é o Agente Econômico? A Teoria Econômica pressupõe a Atomização dos seres humanos ao que podemos comparar aos átomos, como uma forma de melhor estudar os reflexos de atitudes, afinal, como átomos, reagimos todos de uma mesma forma aos incentivos externos – vulgo Individualismo Metodológico. E quem é esse átomo? Ele é, no fundo, um homem branco, de 40 anos, católico…
    No fim, encerro minhas provocações dizendo que a clássica perspectiva marxista é a única que tem, para mim, um real e substancial posicionamento acerca da mulher, reproduzo abaixo um trecho de O Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels:

    “O palavreado burguês acerca da família e da educação, acerca da relação íntima de pais e filhos, torna-se tanto mais repugnante quanto mais, em consequência da grande indústria, todos os laços de família dos proletários são rasgados e os seus filhos transformados em simples artigos de comércio e instrumentos de trabalho.
    Mas vós, comunistas, quereis introduzir a comunidade das mulheres, grita-nos toda a burguesia em coro.

    O burguês vê na mulher um mero instrumento de produção. Ouve dizer que os instrumentos de produção devem ser explorados comunitariamente, e naturalmente não pode pensar senão que a comunidade virá igualmente a ser o destino das mulheres.

    Não suspeita que se trata precisamente de suprimir a posição das mulheres como meros instrumentos de produção.

    De resto, não há nada mais ridículo do que a moralíssima indignação dos nossos burgueses acerca da pretensa comunidade oficial de mulheres dos comunistas. Os comunistas não precisam de introduzir a comunidade de mulheres; ela existiu quase sempre.
    Os nossos burgueses, não contentes com o facto de que as mulheres e as filhas dos seus proletários estão à sua disposição, para nem sequer falar da prostituição oficial, acham um prazer capital em seduzir as esposas uns dos outros.

    O casamento burguês é na realidade a comunidade das esposas. Quando muito poder-se-ia censurar aos comunistas quererem introduzir uma comunidade de mulheres franca, oficial, onde há uma hipocritamente escondida. É de resto evidente que com a supressão das relações de produção actuais desaparece também a comunidade de mulheres que dela decorre, ou seja, a prostituição oficial e não oficial.”

    • Oi Bruno,

      Agradeço o seu comentário e sua visita ao blog.

      Achei interessante a contextualização macro que você fez, inserindo as transformações do sistema – como a que eu descrevi nesse texto ao falar dos homens empresários – no conjunto maior da manutenção do capitalismo. Porém, a despeito disso, tenho muito receios com relação a outros pontos que você levantou.

      Não sei se você pensa assim, ou se apenas invocou para o debate, mas essa pespectiva marxista ortodoxa me parece retomar um determinismo econômico brutal. Eu tenho medo dessa Estrutura, onde tudo, inclusive o campo institucional e das relações sociais, parece estar submetido a uma ordem maior que se divide, de forma bipolar, nos detentores dos meios de produção e naqueles que vendem sua força de trabalho.

      Essa perspectiva marxista, sobre os estudos de gênero, foi historicamente custosa. O que se fez, em busca da coerência da teoria macro-estrutural, foi passar por cima do gênero. Tanto o sexo quanto o gênero foram pouco historicizados ou, se tinham sido, era apenas para recontar a história da luta de classes. Gênero se transforma na divisão sexual do trabalho e todas as configurações que vemos entre homens e mulheres na sociedade passam a ser entendidas como a dicotomia entre trabalho produtivo x reprodutivo, público x privado etc. Como bem escreve Joan Scott: “no marxismo, o conceito de gênero foi por muito tempo tratado como sub-produto de estruturas econômicas mutantes; o gênero não tem tido o seu próprio estatuto de análise.”

      Você colocou: “quando conscientes de sua tarefa histórica, afinal foram colocados, pela história, no seio da contradição entre Trabalho e Propriedade do trabalho, têm por objeto de análise suas próprias condições materiais”. Será? Acho que hoje está cada vez mais claro que os interesses e as identidades coletivas não são inerentes às posições estruturais dos atores. Se a gente adota tal postura, não faz sentido falar em sentidos, significados, símbolos. E não estou nem falando isso para defender o pós-estruturalismo, porque não me considero pós-estruturalista, mas uma análise estritamente macro-econômica, de longe, para mim não é a saída.

      É quando falo que tenho medo dessa Estrutura – assim como tenho medo do Discurso de que os foucaultianos tanto falam -, falo por conta disso: “para que as classes dirigentes pudessem continuar perpetuando o sistema, toda uma sociabilidade teve de ser artificialmente encaixada”. Uma sociabilidade artificial? Em nome da opressão das classes dominantes? E tudo isso foi criado como? A mídia que foi injetando esse átomo masculino, branco? Não acha um pouco forçado, digo, coerente demais dentro de uma “estrutura” das relações sociais? Parece a volta do funcionalismo.

      Por fim, apenas queria chamar a atenção que citar Manifesto Comunista para um debate de gênero da atualidade me parece um pouco antiquado, Bruno. Os estudos de gênero evoluíram tanto que uma perspectiva estritamente à la Simone de Beauvoir já parece descabida. Hoje, novas questões são colocadas. Ainda há espaço para o marxismo, claro, mas não para uma abordagem ortodoxo que não traz reflexões sobre uma série de outros pontos. Convido-te a conhecer mais sobre os estudos de gênero nas seguintes sugestões:

      PISCITELLI, Adriana. Recriando a (categoria) mulher?
      HARAWAY, Donna. “Gênero” para um dicionário marxista: a política sexual de uma palavra.

      Posso te enviar esses textos, se você preferir.

      Um grande abraço,

      Adriano

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