Ainda faz sentido ser feminista?

Hoje é o Dia Internacional da Mulher. Diante dessa data, há quem questione sua legitimidade, seja porque há oitenta anos as mulheres votam, seja porque temos uma presidenta, seja porque, enfim, “a mulher conquistou o mercado de trabalho”. Assim, nos perguntamos: ainda faz sentido ser feminista?

Em poucas palavras, eu diria que faz todo o sentido do mundo defender o feminismo. As reivindicações deste dia são completamente atuais. Não podemos cair no discurso de que, dentro do nosso sistema de ares democráticos, os avanços já estariam encaminhados. As desigualdades, injustiças e opressões não são como traumas que podem ser superados com o tempo. Diariamente, vivemos entre avanços e retrocessos. É isso que pretendo mostrar, utilizando dados compilados majoritariamente por Raewyn Connell (2009).

Parlamentares no Brasil: as mulheres conquistaram o direito ao voto em 1932, mas até hoje a maioria absoluta de homens como representantes persiste.

O sufrágio universal não concedeu, mesmo após quase um século, uma representação política digna para as mulheres. Se Hillary Clinton tivesse ganhado as primárias dos Democratas quando competiu com Obama, ela seria a primeira mulher a concorrer à presidência por um grande partido nos EUA. Em outros países, a situação não muda tanto: nunca foi eleita uma mulher na Rússia, China, França, Japão, Egito, Nigéria, África do Sul ou México. Tivemos apenas uma mulher na história da Inglaterra, Índia, Indonésia e Brasil.

Estatísticas de 2007 mostram que 82,5 dos parlamentares, no mundo, são homens. Entre ministro, as porcentagens são maiores, com exceção de Suécia e Espanha que já conseguiram meio a meio, vemos apenas 14% de mulheres nos EUA e Equador, 10% na Argélia, 8% na Itália e Argentina, 6% na China e 0% na Arábia Saudita ou Rússia, para citar alguns exemplos. No senado brasileiro, temos 13,5% de mulheres e, entre os deputados, 8,9%. Pouco, não? Ainda mais se considerarmos que as mulheres são mais da metade das brasileiras (sim, usei no feminino).

No mundo do trabalho, as mulheres geralmente ficam encarregadas por cargos menos valorizados. Ou, quando estão no mesmo patamar dos homens, sofrem com menores salários.

No mundo do trabalho, o qual teoricamente as mulheres “tomaram” ou “conquistaram”, a situação não muda tanto. Frequentemente as mulheres estão associadas a profissões menos valorizadas. A título de exemplo: na educação infantil (menos remunerada e com profissionais de baixa formação), temos uma maioria absoluta de 97% de mulheres. Já no ensino superior, mais bem pago e com formação em pós-graduação, cai para 45%.

Pensando globalmente, entre as 500 maiores corporações do mundo, apenas 2% são chefiadas por mulheres. Não que seja um grande avanço ter uma mulher à frente de uma corporação que, entre outras, desrespeite leis trabalhistas, prejudique o meio ambiente ou crie oligopólios. Porém, é sintomático constatar que a situação histórica das mulheres não as colocou nos mesmos patamares de poder e oportunidade com homens de mesmo estrato social.

Poderíamos ficar páginas e mais páginas enumerando as diversas pautas que ainda estão jogo (SCHOLZ, 2010): a questão dos altos índices de violência doméstica, os padrões de beleza, o assédio sexual. Sem falar nos tópicos relacionados aos homens, que também são problematizados pelo feminismo: a maior propensão à violência e criminalidade, o pior desempenho escolar etc.

Marcha Mundial das Mulheres: o feminismo é um movimento amplo e inclusivo. Suas pautas são muitas e seus sujeitos, diversos.

O feminismo ainda vai mais além e relaciona-se intensamente com o movimento LGBT, assim como com as questões raciais e de classe, pois todos estão lidando com pontos em comum: normatizações, exclusões e dificuldades que certos grupos enfrentam diariamente. São lutas integradas.

Com base em tudo que foi mostrado – e que discutimos constantemente desde que esse blog foi criado – fica a seguinte conclusão: diante da pergunta “ainda faz sentido ser feminista?”, só podemos dizer: ainda faz sentido fazer essa pergunta?

Se você tem algum receio do feminismo, convido-te a conhecê-lo melhor. Navegar pelas suas ondas, visitar suas escolas e descortinar um universo novo quando nos deparamos com um conceito aparentemente simples como gênero, pode ser uma experiência irreversível. E sempre prazerosa!

3 comentários
  1. Luanda Ferraz disse:

    Adriano te descobri na última segunda feira por acaso, não costumo deixar comentários em blogs, mas eu precisava te dizer o quanto estou encantada com seu textos, desde segunda venho devorando todos seus textos.
    Sei que é piegas mas: Parabéns!!!! Parabéns pela sua visão de “mundo”, parabéns por sua visão sobre educação, parabéns pela maneira como consegue expressar suas ideias através da palavra , e de forma brilhante, parabéns pelo seu português, parabéns, parabéns……Parabéns!

    • Oi Luanda,

      Muito obrigado pelo seu comentário. Fiquei lisonjeado, mesmo. Obrigado!

      Espero te ver mais vezes no blog. E se puder deixar sua contribuição pelo seu comentário, ficarei ainda mais grato.

      Um abraço,

      Adriano

  2. Luanda Ferraz disse:

    Oi Adriano,

    Não tenha dúvidas que estarei diariamente no blog, pode contar comigo sempre!!!!
    Como te disse anteriormente estou encantada com seus textos.
    Um abraço, Luanda.

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