Tornando-se nosso gênero: as desmamas na infância

“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”, escreveu Simone de Beauvoir (1980, p. 9) em seu O Segundo sexo. A escritora e feminista francesa procurou entender que lugares sociais pertenciam aos homens e que lugares pertenciam as mulheres, quais mitos, destinos biológicos, condições do ser, posições sociais, circunscrevem a figura do homem e a figura da mulher. Entre vários aspectos, Beauvoir também procurou entender essas diferenças em termos de educação e infância, relação com os pais, etapas do ciclo vital do ser humano, etc.; alertando-se que a mulher era sempre tratada como o Outro, como secundário, daí o título “O Segundo sexo”, além disso, compreendeu que essas diferenças eram produzidas e mantidas no âmbito social e cultural. Dessa forma, ela afirma que a gente ou se torna mulher ou se torna homem, dado que uma série de significados culturais são inscritos num sexo dado (macho ou fêmea).

Para a escritora e feminista Simone de Beauvoir (1908 -1986), até os doze anos a menina é tão robusta quanto os irmãos, eles possuem as mesmas capacidades intelectuais e não existem impossibilidades de rivalização com eles. A apresentação sexual especificada da criança é feita por outrem, assim como sua masculinidade ou feminilidade.

O drama do nascimento e da desmama entre meninos e meninas, argumenta a autora, se desenvolvem da mesma maneira, eles e elas sentem ciúmes se nasce outra criança, seus interesses são praticamente os mesmos, assim como os prazeres, a sucção é a fonte de suas sensações mais agradáveis, depois vem uma fase anal, pela qual tiram, das funções excretórias que lhes são comum, o maior proveito possível. O corpo é a irradiação de uma subjetividade, o instrumento pelo qual efetua-se a compreensão do mundo, é através das mãos, dos olhos e não das partes sexuais que elas aprendem o universo, além disso, o desenvolvimento genital entre meninos e meninas é análogo e eles exploram o corpo com a mesma curiosidade e indiferença.

“Até os doze anos”, escreve Beauvoir (1980, p. 9-10), “a menina é tão robusta quanto os irmãos e manifesta as mesmas capacidades intelectuais; não há terreno em que lhe seja proibido rivalizar como eles.” Se antes da puberdade e desde a primeira infância, a menina já se apresenta como sexualmente especificada, continua a autora, “não é porque misteriosos instintos a destinem imediatamente à passividade, ao coquetismo, à maternidade: é porque a intervenção de outrem na vida da criança é tão quase original e desde seus primeiros anos sua vocação é imperiosamente insuflada.”

A perda da sua relação com o Outro através da desmama, coloca a criança em um mundo estranho, mas para compensar essa catástrofe, nos alerta Beauvoir, a criança aliena sua existência numa imagem que outrem justificará realidade e valor.

Seguindo o pensamento da autora, a criança aprende a perceber os objetos como distintos de si, distingue-se deles, desprende-se do corpo nutriz e reage a essa separação com uma crise violenta. Pela desmama, o drama original que é o drama de sua relação com o Outro, a criança sente seu abandono, solidão em um mundo estranho. Para compensar essa catástrofe ela aliena sua existência numa imagem que outrem justificará a realidade e o valor, ela percebe sua “imagem no espelho”, momento que coincide com o da desmama, e começa a afirmar sua identidade. Nesse momento, surge as mímicas, a compreensão que certas atitudes, palavras, sons, agradam os adultos, atos que se tornarão exibições, atos que seduzem outrem; é através desses atos que a criança, mediante esse outrem, justifica sua existência.

Nesse sentido, os adultos têm, diante das crianças, o poder de lhes conferir o ser, ora elas são um anjinho, ora são um monstro, mas é por meio da sedução em êxito que o sentimento de justificação encontra confirmação carnal nos beijos e carícias recebidos. “Não há, durante os três ou quatro primeiros anos”, escreve Beauvoir (1980, p. 11), “diferença entre a atitude das meninas e a dos meninos; tentam todos perpetuar o estado feliz que precedeu a desmama; neles como nelas deparamos com condutas de sedução e de parada: eles desejam tanto quanto elas agradar, provocar sorrisos, ser admirados”. Como a magia do olhar adulto é caprichosa, a criança tem medo de crescer, tem medo de que os pais deixem de sentá-las nos joelhos, de aceitá-las na cama. As meninas se apresentam, a princípio, como privilegiadas, não lhe negam os carinhos, fazem-lhe festam, vestem-nas como roupas macias, penteiam-nas com cuidado, enquanto aos meninos se recusam pouco a pouco beijos e carícias, coquetismo, suas comédias aborrecem aos pais. E dizem-lhe que “um homem não chora” e querem que ele seja “um homenzinho”; ele liberta-se dos adultos e conquista o sufrágio deles.

Beauvoir entende que diante da segunda desmama, a menina é, a princípio, privilegiada, pois lhe enchem de beijos, fazem-lhe festas, compram-lhe roupas macias, sentam-nas no colo, enquanto que aos meninos são negado-lhes até o coquetismo.

Entretanto, alerta a autora, se nessa segunda desmama os meninos se apresentam como menos privilegiados, é somente aparência, uma vez que lhe são reservados maiores desígnios, submetidos a exigências recebem imediatamente uma valorização, persuadem-nos de que é superior a menina e por isso exigem mais dele, insuflam-lhe o orgulho da virilidade diante desse caminho difícil e essa noção abstrata, depois de concretizada, encarna-se no pênis. Não por causa da percepção de ter um pênis, mas pela percepção das atitudes que o cercam.

Por fim, compreendemos que para Beauvoir duas desmamas são importantes para compreender a generificação do sujeito na infância: a desmama da nutriz, do Todo, pela qual o sujeito se acha abandonado no mundo e procura justificar sua existência; e a outra desmama, pela qual a sedução da criança é reprimida. Porém, Beauvoir percebe que nessa segunda desmama, as meninas são, inicialmente, privilegiadas, pois continuam a aceitar que elas sentem nos colos dos pais, seu universo é outro, enquanto que o menino, ao negar-lhe as carícias, ele se torna mais rude. Claramente, esses processos vão moldando a feminilidade ou a masculinidade da criança, tornando-os distintos, assimétricos.

2 comentários
  1. Fernandes de Magreth Joaquim Sitoe disse:

    Em primeiro lugar quero parabenizar os autrores deste artigo pelo pensamento engajado em prol de um dos temas que tem enformado as dinamicas investigativas na área das ciencias sociais através daquilo a que a Joan Scott chamou de “ruptura epistemológica” no seio das ciencias do homem.
    Em segundo quero tecer algumas consideraçoes sobre artigo e contribuir com o parecer sobre o tema proposto.

    De facto a leitura e desleitura do “Segundo Sexo” da feminista Simon de Beauvoir, remete-nos à uma introspecçao profunda sobre o papel que a figura dos pais tem no processo de moldagem da consciencia do ser masculino e feminino no período da infancia de um indivíduo.

    Olhando objectivamente para as duas desmamas, notamos que na primeira gera-se na criança um sentimento de abandono mediante o qual esta começa procurar uma justificaçao da sua existencia recorrendo às referencias mais próximas de si que lhe serve espelho para para encontrar o seu eu. Neste momento a criança começa a moldar a sua consciencia através do “modus vivendi” e do “modus operandi” dos membros mais velhos do seu meio social.

    É nesse que a segunda desmama se constitui como complementar a primeira, na medida que se constitui na atitude que os pais tomam face a esta criança e estas atitudes vao ser apreendidas pela criaança e assim formando a sua consciencia do eu.

    Ora vejamos, na segunda desmama a menina é paparicada, sempre tratada com delicadeza, o menino é repreendido sempre chamado a ser forte. estas atitudes sao gradualmente apreendidas pela criança que em funçao da primeira desmama busca pela justificaçao da sua existencia ou seja do seu eu, e é nessas atitudes onde ele encontra as referencias que justifiquem sua existencia através da interiorizaçao das atitudes do pai como sendo proprias dos homens e das atitudes da mae como sendo proprias das mulheres, e adjacente a isso o facto da menina ser tratada com delicadeza e privilegios no inicialmente e o menino ser tratado com rigidez a elaa confere-lhe uum sentido de fragilidade e a ele o sentido de fortaleza, começando assim a cronstruçao de todo preconceito social em prol da diferenciaçao do sexo.

    • Olá Fernandes, agradeço pelo seu comentário que é tão contribuinte.

      Realmente, a infância é um lócus importante para compreender a generificação do indivíduo, os processos de “tornar-se” homem e “tornar-se mulher”, tanto é que no livro usado nesse artigo, “O Segundo sexo: a experiência vivida”, Beauvoir dedicou o primeiro capítulo à infância, passando, no capítulo dois, para juventude da mulher. Nós percebemos que Beauvoir utiliza basicamente da psicanálise freudiana para compreender os efeitos das desmamas que envolvem prazeres orais, anais, genitais, representação, narcisismo, a fase fálica, etc.

      Ao lado disso, sua complementação sociológica nos permite compreender claramente essas fases, reforçando as conclusões de Beauvoir sobre a interligação dessas desmamas e como agem pais e crianças nesse processo. Fico muito grato pelas suas contribuições, volte sempre ao nosso blog!

      Abraços,

      Lucas.

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