Mercado segmentado GLS: considerações iniciais

Para além dos debates conceituais sobre gênero, sexualidade, feminismo etc, acredito que seja interessante entender como esses exercícios teóricos são acionados na prática e como eles são importantes e úteis no âmbito da pesquisa. Se a produção acadêmica atual acerca das homossexualidades no Brasil é bastante consistente e diversa, abarcando temáticas que compreendem desde o movimento LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais) até questões como as conjugalidades e parentalidades homossexuais, além das investigações sobre as transexualidades, devemos considerar que todo esse escopo acadêmico se deve a (re)formulações teóricas que vêm sendo debatidas há décadas, especialmente após os estudos feministas terem ganhado força a partir dos anos 60.

Exemplos interessantes para se pensar de forma prática a relevância e a importância dos estudos de gênero e sexualidade são algumas pesquisas sócio-antropológicas realizadas no Brasil que tratam do surgimento, dos desdobramentos e dos efeitos do chamado mercado segmentado “GLS” (voltado a gays, lésbicas e simpatizantes) em grandes centros urbanos, especialmente no Rio de Janeiro e em São Paulo. É o caso, por exemplo, dos trabalhos da antropóloga Isadora Lins França (2006; 2007), que, para além da atuação política, leva em conta o surgimento de um mercado GLS na cidade de São Paulo dos anos 1990 para pensar nos processos de constituição de identidades LGBT. Tais estudos evidenciam a crescente importância do mercado, ao lado da atuação política, para um entendimento sócio-antropológico dos processos contemporâneos de constituição de identidades e subjetividades lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais em contextos metropolitanos.

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Parada Gay de São Paulo. Isadora Lins França acredita que o mercado GLS, para além do movimento social, colabora em processos de constituição de identidades LGBT.

A criação de um mercado comercial voltado para o público “homossexual” no Brasil remete aos anos 1960. É nessa década que são abertas, por exemplo, em São Paulo algumas boates declaradamente destinadas a um cliente “homossexual” de classe média, “que procurava locais de encontro onde houvesse maior segurança contra ataques policiais ou de bandidos” (MacRAE, 2005, p. 292). O número de estabelecimentos, tais como saunas e boates, cresce nas décadas seguintes. Depois da abertura política, nos anos 1980, aumenta o número de estabelecimentos desse mercado segmentado.

Esse movimento chegou até à realidade virtual. Surgiu, assim, a categoria GLS, propagada a partir do Festival MixBrasil de 1994, que incluía um site e um festival de cinema “alternativo”, voltados para esse público emergente (FRANÇA, 2006). Esse processo contribuiu para a diluição das fronteiras do que se poderia antes chamar de “guetos”, embora sua ênfase mercantil tenha levado a processos de diferenciação por parte de outros grupos, tais como os de militância, que em vez da sigla GLS, passam a usar outras formas para se denominar.

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Casa noturna GLS de São Paulo que atrai pessoas consideradas sofisticadas, chiques e esteticamente "agradáveis".

Existem, assim, pesquisas que tratam desse mercado. A aposta é que o mercado, além da atuação política, da mídia, da internet, entre outros, é uma instância importante de produção de identidades e subjetividades várias, uma vez que os sujeitos estão em constante relação com o mesmo. Por isso, é possível supor que a existência de um mercado de lazer e de sociabilidades para o público LGBT ajuda na construção da imagem que essas pessoas têm de si próprias.

Não é à toa que exista uma hierarquização entre “baladas” que são mais valorizadas do que outras e que, portanto, atraem pessoas que são mais ou menos “interessantes”. Em São Paulo, por exemplo, França (2006) vai mapear o mercado GLS e constatar que algumas baladas são frequentadas por pessoas que possuem gostos e estilos (Bourdieu, 1983) tidos como “sofisticados” e “caros”, como é o caso das casas noturnas que se encontram no eixo Paulista-Jardins, enquanto outras são frequentadas por sujeitos “quase bonitos, quase modernos”, ou puramente desinteressantes do ponto de vista da beleza hegemonicamente veiculada no contexto atual, que é o caso das casas noturnas as quais se encontram no Centro Antigo. O mais interessante disso tudo é perceber que tais classificações e hierarquizações são consequência dessa produção de identidades que acontece o tempo todo, seja partindo dos empresários e idealizadores de locais GLS, seja dos próprios frequentadores que se apropriam, reproduzem e também criam discursos sobre os sujeitos que fazem parte da rede existente dentro desse mercado.

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