Neoliberalismo, globalização e a questão de gênero

As corporações são a forma dominante de organização econômica da sociedade contemporânea, sendo peças-chave para o atual grau de desenvolvimento capitalista. Apenas para se ter uma ideia das suas dimensões, existem 5,7 milhões de corporações nos Estados Unidos, segundo dados de 2005. Sabe-se que a participação das mulheres nesse meio é baixa, sobretudo se tomarmos os cargos de liderança. Baseado nos estudos de Raewyn Connell (2009), nos questionamos: as hierarquias de gênero, seja na vida política ou econômica, são fruto apenas de uma infeliz tradição de exclusão das mulheres? Ou seriam ativamente defendidas e construídas no mundo da atualidade?

Fato é que o mundo de que o capitalismo neoliberal fala é retoricamente neutro em termos de gênero. Explicitamente, o neoliberalismo – que na escala macro se expressa pela intensificação do capital transnacional e formação de mercados globais – diz muito pouco sobre gênero. Ele fala uma linguagem neutra de “mercados”, “indivíduos” e “escolhas”.

A linguagem pretensamente neutra em gênero da ideologia de mercado neoliberal beneficiando, repetidamente, um mesmo grupo (já conhecido) de homens.

“Mas o mundo no qual o neoliberalismo domina é ainda um mundo generificado”, explica Connell (2000, p. 51, tradução minha), “e o neoliberalismo tem uma política implícita de gênero. O ‘indivíduo’ da teoria neoliberal possui os atributos e interesses do homem empresário”. Na opinião da autora, o ataque que o neoliberalismo faz contra o estado do bem-estar social (para saber mais, leia aqui) tem como um dos efeitos a queda na posição das mulheres, assim como a desregulação dos mercados concentra o poder nas mãos de um pequeno grupo de homens.

A autora faz essas afirmações porque, para ela, a discriminação e exclusão baseada no gênero (e que também pode ser estendido à raça) não devem ser vistas como acidentais, o que poderia ser alterado com uma ou outra mudança de atitude. Gênero figura como um aspecto estrutural da vida corporativa, relacionado também a outras esferas da sociedade, e molda as definições de empregos, os significados de mérito e promoção, as técnicas administrativas, o marketing e muito mais.

O caminho para as mulheres, dentro do mundo corporativo, costuma ser sempre maior que o dos homens. Apesar do discurso, existem oposições estruturais com efeitos visíveis.

Há toda uma oposição estrutural à presença das mulheres nas corporações, caracterizada por um teto de vidro (glass ceiling, do inglês). E a perspectiva de mudança se resume a quê? Mudanças de atitude, como se uma solicitação para os empresários prestarem atenção na “diversidade” fosse suficiente para desmontar algo dessa estrutura. Políticas mais ousadas, como as cotas para grupos minoritários, são rapidamente barradas.

E os sindicatos, que historicamente enfrentam os avanços desse modo de produção? Essas organizações sofreram intensos ataques com o crescimento do neoliberalismo. Além disso, os sindicatos usualmente são liderados por homens e representam principalmente os interesses desses. Com frequência, as mulheres conseguem pouca voz dentro dos próprios sindicatos, fruto do estilo combativo das masculinidades de classes trabalhadoras (CONNELL, 2009), as quais, amparadas na ideologia marxista ortodoxa, geralmente não têm um olhar tão preciso para a questão de gênero.

Ex-presidente Lula em comício no ABC Paulista: mesmo em sindicatos, as masculinidades ofuscam a voz e visibilidade de mulheres.

Apesar da associação entre a expansão do neoliberalismo e a piora na situação social e econômica de mulheres, Connell (2005) destaca que a ideologia neoliberal “é inconsistente com o patriarcado tradicional” (p. 255, tradução minha), isso porque mesmo dentro dos partidos de direita pode haver tensões entre uma ala conservadora, moralista em termos sociais, com uma ala liberal, racionalista em termos econômicos. Aliás, a própria aliança entre o conservadorismo e o neoliberalismo está entre os mais belos paradoxos do capitalismo global.

Assim, temos um reforço dos privilégios masculinos (bem como de questões raciais, de classe e nação), reatualizando o sexismo em moldes supostamente neutros em gênero. Tudo isso sem que haja uma política de masculinidade explícita na forma de mobilização de homens. Trata-se apenas do funcionamento do próprio sistema.

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