Gayle Rubin e o “The Traffic in Women”: apontamentos iniciais

Dificilmente Rubin não é incluída em programas de disciplinas nessa área de estudos das ciências humanas, uma vez que ela é conhecida por ser uma das pioneiras nos estudos sobre gênero.

Gayle Rubin (1949-) é uma antropóloga norte-americana feminista que desenvolve trabalhos na área de gênero e sexualidade. Dificilmente Rubin não é incluída em programas de disciplinas nessa área de estudos das ciências humanas, uma vez que ela é conhecida por ser uma das pioneiras nos estudos sobre gênero. Seus dois principais trabalhos (ou pelo menos os dois mais lidos no Brasil) são, respectivamente, “The Traffic in Women – Notes of the ‘Political Economy’ of Sex” (1975) e “Thinking Sex: Notes for a Radical Theory of the Politics of Sexuality” (1984) (uma tradução livre para os títulos seria: “O Tráfico de Mulheres – Notas sobre a ‘Economia Política’ do Sexo” e “Pensando o Sexo: Notas para uma Teoria Radical das Políticas da Sexualidade”). Nessa análise, pretendo me concentrar mais detidamente na primeira obra por dois motivos: primeiro porque ela antecede a segunda em alguns anos – pretendo falar sobre o “Thinking Sex” com mais calma posteriormente, uma vez que nele Rubin reformula algumas questões contidas no The Traffic in Women – e segundo porque ela é estratégica para começar a se pensar no conceito de gênero, uma vez que é nela que o sistema sexo/gênero vai ser formulado, conceituado e trabalhado pela primeira vez em uma perspectiva antropológica (essa distinção já havia sido feito sob uma perspectiva psicanalítica e patologizante por Robert Stoller). Para tanto, dividirei a análise em dois posts. Para este primeiro, centrarei a discussão em aspectos mais históricos e descritivos sobre o contexto no qual a obra foi produzida e também falarei sobre algumas das inquietações que, acredito, tenham motivado Rubin a produzi-la.

Para ela, a quebra com o modo de produção vigente (o capitalismo) não seria suficiente para que houvesse a emancipação feminina e a equidade entre homens e mulheres.

Portanto, é nesse sentido que Rubin começa o texto falando sobre Marx e Engels. Ela critica especialmente a obra “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”, de Friedrich Engels, que era considerada a obra, dentro da teoria marxista, que mais fala sobre a subordinação da mulher. Devo ressaltar aqui que Rubin não desconsiderava o marxismo. De fato, “Há um imenso legado marxista no feminismo, e o pensamento feminista tem uma grande dívida com marxismo. Em certo sentido, o marxismo permitiu que as pessoas levantassem toda uma série de questões que o próprio marxismo não podia responder satisfatoriamente” (BUTLER & RUBIN, 2003, p. 158). Tais questões eram, por exemplo, o fato de o marxismo não conseguir lidar com as questões relacionadas à sexualidade ou ao gênero, uma vez que priorizavam temáticas como classe social, trabalho, relações e modos de produção. O gênero, nesse contexto, não era priorizado, e se era, tinha um cunho bastante essencialista. Tudo isso será melhor detalhado no próximo post sobre o texto.

Em certo sentido, o marxismo permitiu que as pessoas levantassem toda uma série de questões que o próprio marxismo não podia responder satisfatoriamente” (BUTLER & RUBIN, 2003, p. 158).

É nesse sentido que Rubin vai tentar, em The Traffic in Women, se distanciar da perspectiva marxista como paradigma para se explicar a gênese da subordinação universal da mulher e concentrar sua análise em teóricos que tratavam, cada um à sua maneira, dessa teḿatica: o antropólogo Claude Lévi-Strauss e os psicanalistas Sigmund Freud e Jacques Lacan (os dois primeiros em especial). Rubin, após fazer uma breve introdução discutindo já abordada problemática relacionada ao marxismo, dá início a uma crítica pesada ao tabu do incesto de Lévi-Strauss. Depois, vai para a psicanálise para tentar compreender como algumas normas sociais relacionadas à ordem do sexual são introjetadas no indivíduo. Para tanto, vai se deter na teoria do complexo de Édipo de Freud, entre outros temas.

O texto em si é relativamente denso porque abarca vários temas e perpassa pela obra de vários teóricos complexos. Entretanto, é uma leitura quase obrigatória para aqueles que têm afinidade pelas questões relacionadas às temáticas de gênero e sexualidade. Recomendo a leitura e convido a todxs a viajar pela análise de Gayle Rubin.

3 comentários
  1. Olá Matheus!

    Sem dúvida nenhuma, esse texto da Gayle Rubin é muito interessante e rico. O texto, até por conta da sua data, tem alguns problemas, que eu preferia deixar para comentar nos seus próximos posts.

    Mas, sim, a crítica que ela faz ao marxismo é muito válida. Na verdade, ela coloca o marxismo no seu lugar, embora reconheça a validez dele em explicar a opressão das mulheres em sociedades capitalistas. Para ela, o marxismo não iria além disso: explicar a “utilidade” das mulheres, e nunca a gênese.

    Só que, acho bom esclarecer, o marxismo foi lido nos EUA de uma forma bastante economicista, determinista. O marxismo é bem mais do que isso. A dialética marxista, por exemplo, passa longe dessa interpretação simplista que, nas palavras da Cláudia Vianna, “é a leitura do primeiro volume, ou melhor, do primeiro capítulo do primeiro volume do Capital”, rsrs. Assim, quando autoras/es norte-americanos como o Parsons, Rubin ou Scott, falam do marxismo, temos que ter um pé atrás, porque o marxismo ao qual eles se referem pode não ser tudo aquilo.

    Só isso… e aguardo os próximos textos!

    Abraços!

    OBS: você colocou o texto em duas categorias que se incluem. O “Conceituando” está dentro da “Teoria Feminista”, logo, não precisa ter posto na categoria mais ampla, só na específica. Fiz umas correções no texto porque você escreveu várias vezes “The traffic women”, sem o “in”, o que muda o sentido, rs.

  2. Adriano,

    Você está absolutamente certo. O marxismo lido nos EUA é bastante reduzido ao tal determinismo econômico que sempre jogam na cara do Marx quando se lê somente “o primeiro volume, ou melhor, o primeiro capítulo do primeiro volume do Capital”, rs.

    E devemos considerar também que essa crítica da Rubin ao marxismo é um “an passant” para o início do texto, que é a crítica ferrenha ao Leví-Strauss e Freud. É mais uma explicação de por que ela está se afastando daquele feminismo socialista do que uma crítica mais profunda da teoria marxista, ou até mesmo da teoria marxiana em si.

    E obrigado pelas correções!

    Abraço.

    • Concordo!

      É uma crítica “en passant” (aprende francês, bee, rsrs), mas é muito boa. Ela toca num ponto essencial que já dá para usar contra muitos marxistas ortodoxos que querem explicar TUDO pelo capítulo que ele leu xerocado para a faculdade. #aloka

      O texto se volta para outra questão, de fato.

      Abraços!

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