O caso Sears, um exemplo emblemático dos debates feministas

Não há dúvida de que os embates entre diferentes concepções feministas transparecem em inúmeras discussões do cotidiano, sendo a recíproca verdadeira. Dessa forma, pretendo me aprofundar no emblemático caso Sears, como ficou conhecido, para discutir um dos mais prolíficos impasses da teoria feminista: o debate igualdade versus diferença. Neste texto, vou detalhar o que é este caso, apoiando-me especialmente em Antônio Flávio Pierucci (1999), para nos próximos desenvolver o conflito teórico que se descortinou.

Em 1979, a Equal Employment Opportunities Commission (EEOC, na tradução: “Comissão de Oportunidades Igualitárias no Emprego”), do governo norte-americano, entrou com um processo criminal contra a companhia estadunidense Sears, empresa gigante do ramo de vendas varejistas, acusando-a de praticar discriminação sexista contra as mulheres, por empregar homens em maior proporção nas seções mais bem remuneradas, a saber, as seções de vendas por comissão. O julgamento do processo ocorreu entre 1984-85, em Chicago.

O caso tornou-se polêmico não tanto pelo processo, mas pela argumentação desenvolvida durante o embate. De um lado, estavam os advogados da Sears, em defesa da companhia, atuando com a historiadora Rosalind Rosenberg. Do outro, os advogados da EEOC, acusando a empresa, contando com a colaboração da também historiadora Alice Kessler-Harris. Ambas as historiadoras possuíam experiência em história da divisão sexual do trabalho nos EUA.

A companhia norte-americana Sears, do ramo de vendas, sofreu um processo em 1979, acusando-a de praticar sexismo na contratação de mulheres e homens para os cargos mais bem remunerados.

A retórica da primeira se pautou pela noção da diferença, questionando a suposição de que homens e mulheres teriam as mesmas aspirações e interesses no mercado de trabalho. Rosenberg apontou que nem todas as mulheres almejam os maiores ganhos econômicos, ambição caracteristicamente masculina. Assim, diferenças culturais, relacionadas acima de tudo à socialização de gênero, desmontariam a ideia dessa “pretensão pela igualdade”, autorizando a empresa a contratar mulheres e homens para os cargos mais bem remunerados em proporções diferentes, até porque “diferença não significa sempre discriminação”, segundo a historiadora.

Para a segunda, restou a estratégia de enfatizar a igualdade. Kessler-Harris destacou que o que chamamos de “interesses das mulheres” muitas vezes não são moldados por supostas características femininas, e sim por oportunidades que lhes são dadas. Para ela, a presença das mulheres nos empregos tradicionais era consequência da preferência dos empregadores, o que poderia ser entendido como discriminação. Dessa forma, as mulheres seriam alocadas, em decorrência de preconceitos e pressupostos conservadores dos patrões, a empregos menos importantes, sendo que tal relação seria reificada pela retórica da “preferência feminina”.

A historiadora Rosalind Rosenberg (1946-) deu testemunho favorável à Sears, argumentando que mulheres e homens possuíam interesses distintos.

A grande manobra de Rosenberg, para trazer o debate para o seu lado, foi se aprofundar na obra de Kessler-Harris, e acusá-la de incoerência e oportunismo. Isso porque Kessler-Harris havia afirmado, em anos anteriores, que existiam diferenças socioculturais entre homens e mulheres que moldavam interesses distintos, de tal forma que a relação entre as mulheres e o mercado de trabalho poderia ser diferente. Rosenberg aproveitou dessa brecha para afirmar que, no fundo, Kessler-Harris reconhecia a “diferença”.

Essa estratégia acabou dando certo. Foi como se Kessler-Harris tivesse sido traída pela “diferença” que ela enfatizava nos seus estudos. “Usada como arma ideológica ou como divisa”, explica Pierucci (1999, p. 41), “é feito feitiço que pode virar contra o feiticeiro. Quando menos se espera, a diferença afirmada joga do outro lado. Faz gol contra.” Pois, em um tribunal, dificilmente há espaço para grandes formulações teóricas. Em artigo original de 1988, Joan Scott (2000) reforça que as explicações cuidadosamente detalhadas sobre a história do trabalho das mulheres tiveram que ser reduzidas a respostas simplistas que se adequassem a um “sim” ou “não”.

Alice Kessler-Harris (1941-), atuou contra a Sears, baseando seu argumento na busca pela igualdade no mercado de trabalho, embora tenha reconhecido diferenças de gênero.

Nesse caso, Rosenberg podia usar e abusar da “diferença”, não só por estar dialogando intensamente com o senso comum do juiz e outros, como por relatar, com ares de imparcialidade, “aquilo que simplesmente é” – o concreto empírico das diferenças entre homens e mulheres – em oposição “aquilo que não é, mas que está ou que deveria ser”. As forças conservadoras, nesse caso, sentem-se muito mais confortáveis, colocando o argumento da “diferença” em uma cilada.

Kessler-Harris não poderia insistir completamente na “igualdade” pois, como historiadora, sabia dos efeitos desse mundo altamente generificado sobre homens e mulheres. Porém, ao tentar usar a “diferença” para o seu propósito, acabou se colocando em um dilema, abrindo um flanco para Rosenberg. Ao término, como podemos prever, o juiz deu parecer favorável a empresa, inocentando-a das acusações de praticar o sexismo. Há outros pontos da discussão que infelizmente não poderei me aprofundar.

Nos próximos textos, vamos nos aprofundar no debate “igualdade versus diferença”, procurando dar uma resolução para aquilo que ficou aberto e que gerou o desconfortável resultado. Apenas para finalizar, o caso Sears deixa a lição de que “basta uma escorregadela”, destaca Pierucci (1999, p.43), “para que a diferença de natureza cultural se mude em diferença natural de cultura.”

4 comentários
  1. Adriano,

    Muito, muito bom o texto. Você mostrou um exemplo empírico fantástico desse debate sobre a igualdade x diferença. Adorei!

    Aguardo os próximos post. Parabéns!

    Abraço

    • Muito obrigado!

      Mas o caso ajuda. Esse processo contra a Sears é magnífico como um exemplo empírico de questões muito debatidas no âmbito da teoria feminista.

      Nos próximos textos, vou entrar mais a fundo. Compartilho do ponto de vista da Joan Scott, que pretendo desenvolver em seguida. Você já conhecia algo sobre esse coisa do “igualdade versus diferença”?

      Abraços!

  2. Adriano, estou lendo o original de 88 da Joan Scott, obrigada por contribuir também.
    Abraços,
    Vanessa

    • Oi Vanessa,

      Dê uma procurada na categoria “Conceituando” ou pela ferramenta de busca os textos sobre o caso Sears. Escrevi mais três textos que discutem a igualdade e a diferença, todos eles inspirados no trabalho da Scott de 1988.

      E conte-me mais sobre você. Como você descobriu o texto? Trabalha com gênero? Estudou/estuda algo?

      Abraços!

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