Tornando-se nosso gênero: a criança e seu duplo

No texto anterior falamos sobre as desmamas da infância e como estes processos vão moldando a feminilidade ou a masculinidade da criança, tornando seus destinos diferentes, suas condições no mundo, de forma distinta e assimétrica. Destrinchando o pensamento da filósofa e feminista francesa Simone de Beauvoir, dissemos que numa segunda desmama, quando os pais deixam de sentar as crianças nos joelhos, de aceitá-las na cama, é que as meninas vão, a princípio, aparecerem privilegiadas, porque ainda continuam a acariciá-la, viver nas saias da mãe, no colo do pai etc. Entretanto, com os meninos é completamente diferente, não lhe beijam mais, não sentam-lhes no colo, não os acariciam, proíbem seu coquetismo, e fazem com que aceitem esse abandono porque são superiores e por isso exigem mais deles, enchem-no do orgulho da virilidade e todo esse processo encarna-se no pênis, as atitudes dos que os cercam fazem com que eles sintam orgulho de seu sexo indolente.

A atenção que é outorgada ao sexo das crianças pelos adultos é completamente diferente, ao pênis dão-lhe um nome, tratam-lhe com uma complacência singular, já com as meninas, não fazem nenhuma reverência e ternura por suas partes genitais, elas são vergonhosas.

Nesse sentido, Beauvoir (1980) nos esclarece que o pênis é subjetivamente produzido pelos adultos como uma outra pessoa, o menino é a um tempo ele próprio e um outro, um outro mais esperto, mais inteligente e mais hábil do que ele próprio, e ao pênis dão-lhe um nome, tratam-lhe com uma complacência singular. Já com as meninas, não fazem nenhuma reverência e ternura por suas partes genitais, o sexo que só se vê o invólucro e não se pode pegar, é como se não tivessem um sexo. Mas, fato de que o pênis passa por um processo de subjetivação é que para as crianças ele se apresenta como um objeto até insignificante, irrisório, que se confunde com roupas ou penteado; para Beauvoir, muitas meninas permanecem absolutamente indiferentes com a descoberta do pênis de um irmãozinho. O pênis surge como uma compensação inventada pelos adultos e que os meninos aceitam ardorosamente frente às durezas da última desmama, assim, os meninos se acham defendidos contra o abandono, o que, posteriormente, encarnará em sexo sua transcendência e soberania orgulhosa.

Como, geralmente, os meninos urinam em pé e as meninas sentadas, essa diferenciação é mais significativa para as crianças, principalmente para as meninas. A autora coloca que a menina para urinar precisa agachar-se, despir-se e esconder-se, o que constitui uma servidão vergonhosa e incomoda, por outro lado, o pênis do menino é manipulável, a urina pode ser esguichada longe, o que lhe confere um sentimento de onipotência.  “O grande privilégio que o menino aufere disso”, escreve Beauvoir (1980, p. 19), “é o fato de que, dotado de um órgão que se mostra e pode ser pegado, tem a possibilidade de alienar-se nele ao menos parcialmente”. O que, significativamente quer dizer que todos os tabus, mistérios e ameaças do próprio corpo, o menino mantêm exterior a si, distantes, enquanto a menina se preocupa com tudo que ocorre dentro dela.

A boneca aparece para a menina como seu duplo e também como uma filha, é o objeto que ela embala e enfeita como deseja ser embalada e enfeitada, é mãe dela também, educa-a, veste-a, assim ela começa desde cedo a desempenhar seu papel de mãe.

Como o menino é o um e um outro ao mesmo tempo, a menina não, ela não pode encarna-se em nenhuma outra parte de seu corpo, mas adivinhem que objeto lhe põe na mão para que junto dela desempenhe o papel de alter ego? A boneca. Aquele objeto estranho com cara humana que substitui ou que faz o papel do outro, do pênis. Por isso, Beauvoir concluirá que a criança é sempre valorizada, valorizando-lhe o duplo. Por um lado, o pênis, objeto em que o menino se aliena, torna-se um símbolo de autonomia, de transcendência e poder, ele mede-o, compara a força urinaria com a dos colegas, e mais tarde, a ereção e ejaculação são fontes de satisfação e desafios, já por outro lado, a boneca pode representar um corpo em sua totalidade, mas é um objeto passivo, a menina é obrigada a aceitá-la como um dado inerte, a enfeitá-la e embalá-la como deseja ser enfeitada e embalada, assim, ela pensa a si mesma como uma boneca.Através de cumprimentos e censuras, de imagens e de palavras”, considera Beauvoir (1980, p. 20), “ela descobre o sentido das palavras ‘bonita’ e ‘feia’; sabe, desde logo, que para agradar é preciso ser ‘bonita como uma imagem’; ela procura assemelhar-se a uma imagem, fantasia-se, olha-se no espelho, compara-se às princesas e às fadas dos contos”. A menina é tratada como uma boneca viva, ensinam-lhe que é preciso fazer-se objeto, recusam-lhe a liberdade, e quanto menos ela exerce sua liberdade para compreender, apreender e descobrir o mundo, menos ela encontra recursos nele que a ajudarão a afirma-se como sujeito,  porém, mesmo quando masculinizadas, elas ainda sofrem com um pesado handicap, a maioria das pessoas na sua vida social se sentirão chocadas.

O menino, nos exemplifica Beauvoir, aprende sua existência como livre movimento para o mundo, ele rivaliza em rudeza e independência com outros meninos, despreza meninas, sobe em árvores, briga com colegas, participa de jogos violentos, o corpo se torna um meio de dominar a natureza, um instrumento de luta, ele se orgulha de seus músculos como de seu sexo, da sua virilidade, conhece lições severas de violência, aprende a apanhar, a desdenhar a dor, a não chorar.

O narcisismo da mulher parece algo inato, um misterioso instinto feminino, mas como vimos, graças à autora, não é nenhum destino anatômico, tão pouco a feminilidade, tudo é um destino que é imposto pelos educadores e pela sociedade, o que claramente está em sua frase “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”. O menino, ela nos exemplifica, aprende sua existência como livre movimento para o mundo, ele rivaliza em rudeza e independência com outros meninos, despreza meninas, sobe em árvores, briga com colegas, participa de jogos violentos, o corpo se torna um meio de dominar a natureza, um instrumento de luta, ele se orgulha de seus músculos como de seu sexo, da sua virilidade, conhece lições severas de violência, aprende a apanhar, a desdenhar a dor, a não chorar. A menina, esclarece Beauvoir, é ao mesmo tempo um duplo e uma outra, ela adora-a, mas também lhe é hostil, os cuidados de uma filha envolvem um zelo em que arrogância e rancor se misturam, e a mãe procura transformar a menina como semelhante a si própria, impõe-lhe seu destino, fazem-lhe uma “mulher de verdade”, e prepara-a para como a sociedade acolherá mais facilmente.

As meninas, pelo contrário, ensinam-lhe a cozinhar, a costurar, a cuidar da casa, a arte de seduzir, o pudor, impõe-lhe regras de comportamentos, virtudes femininas, vestem-lhe roupas incomodas, fazem-lhe penteados complicados. Para ser graciosa, continua Beauvoir (1980, p. 23), “ela deverá reprimir seus movimentos espontâneos; pedem-lhe que não tome atitudes de menino, proíbem-lhe exercícios violentos, brigas: em suma incitam-na a tornar-se, como as mais velhas, uma serva e um ídolo”. Retornando a relação entre a boneca e a menina, a autora nos adverte que a boneca também é um filho para a menina e ela desempenha seu papel de mãe, educa a boneca, afirma sobre ela sua autoridade, assim como sua mãe a faz, ela bate-a, tortura-a, ela aprende que o cuidado das crianças é responsabilidade da mãe e aprendem isso desde cedo, como também colocam em prática através de suas bonecas.

1 comentário
  1. Oi, Lucas!

    Muito legal o post. A Simone de Beauvoir vai, mesmo daqui a 300 anos (rs), ser considerada pioneira dos estudos feministas. Sem dúvida. Acho ela uma teórica fantástica que inspirou toda uma geração de novas pensadoras e teóricas.

    E acho a iniciativa de “destrinchar” (como você mesmo colocou) o pensamento dela é louvável. É muito legal que aqui no blog a gente possa ter contato com abordagens teóricas que pertencem a paradigmas tão diferentes, pois fica notável que não estamos fechados a uma única teoria ou uma única corrente epistemológica, ignorando todas as outras.

    Mas, infelizmente, preciso dizer: o pensamento dela é muito, mas muito… (respira fundo) essencialista. É claro que não poderia ser de outra forma: estamos falando de uma obra da década de 50. De qualquer maneira, sei que você sabe de tudo isso, então nem vou me estender muito.

    Eu só vim aqui pra dizer que eu acharia super interessante se você falasse de forma mais posicionada teoricamente (caso você não adote essa perspectiva da Beauvoir) aqui nos comentários sobre esses processos que moldam as feminilidades e masculinidades. Como você vê essas construções e toda essa coisa do “duplo” da criança?

    Abraço!

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