A educação para além do capital e do que mais?

Dentro de um regime capitalista, a educação tem um papel fundamental, tanto para sua manutenção, quanto para sua subversão. Da mesma forma que a educação pode ser utilizada para dar legitimidade ao capitalismo, é com ela que se pode, junto com outras agendas, romper a lógica do capital. A análise, de ares marxistas, é de István Mészáros, importante filósofo húngaro da atualidade, na sua obra A educação para além do capital (2008).

Capa de A educação para além do capital, de István Mészáros: uma crítica à educação a serviço da lógica do capital.

Para Mészáros, a educação formal, institucionalizada, tem cumprido duas funções essenciais no capitalismo: a produção de mão de obra para a expansão do capital e a transmissão de um quadro de valores que legitima os interesses das classes dominantes. Até aí, nenhuma novidade, visto que foi exatamente essa a situação denunciada pelas pedagogias críticas – entre elas as abordagens reprodutivistas – da metade final do século passado.

Apesar da semelhança, Mészáros não pode ser considerado reprodutivista. Se Bourdieu e Passeron (1978) cumpriam o papel de, em primeiro lugar, denunciar a função da escola na reprodução de desigualdades sociais, Mészáros – como todo bom marxista – faz uso da dialética para, aproveitando-se das tais brechas e contradições insuperáveis do capitalismo, procurar formas de ruptura, visando à transição para uma sociedade socialista.

O problema é que dialética, em si, é pouco trabalhada no texto mencionado, assim como as particularidades de uma “educação para além do capital”. Ao contrário, Mészáros repetidamente afirma que ocorre, por parte da educação e referindo-se não só à escola, a internalização de valores dominantes. “Internalizar” é um termo muito indigesto, pois reforça a ideia de que a educação é, em última instância, a mera transmissão e assimilação de conhecimentos.

István Mészáros (1930-), um dos filósofos marxistas mais importantes da atualidade, que revisitou a obra de Marx em seus escritos.

Para o rompimento com a lógica do capital, o filósofo é assertivo na sua crítica ao reformismo, ponto alto do livro. São revelados tanto o pensamento conservador de iluministas como John Locke, quanto são desconstruídas as estratégias superficiais de Adam Smith, cujas propostas eram moralistas e elitistas, ou Robert Owen, para quem a superação das desigualdades viria apenas quando a humanidade tomar consciência das opressões.

Porém, Mészáros repete erros – ou lacunas – clássicos do marxismo: ao tratar da educação, em si, é absolutamente inespecífico. É difícil imaginar, por exemplo, uma educação pública universalizada que seja “subversiva”, por uma razão óbvia: sendo financiada, mantida e organizada pelo Estado, a educação pública jamais implantaria um programa que não estivesse de acordo com as diretrizes estatais. A resposta é clara: o ato de romper com a lógica do capital só viria junto com mudanças maiores e mais estruturais. Esse adendo custa a surgir e não ajuda a esclarecer qual conteúdo, de fato, constituiria essa proposta de educação.

Outra crítica, ainda mais forte, é que, apesar da sua excelente denúncia ao reformismo, Mészáros (2008) obscurece sua teoria ao dizer que este tenta “desviar a atenção das determinações sistêmicas – que no final das contas definem o caráter de todas as questões vitais” (p. 64). Espere lá! É a volta de um marxismo determinista que ancora “todas as questões vitais” às determinações do sistema? Para que falar de dialética, então?

Escola itinerante do MST: um exemplo brasileiro de educação contra-hegemônica (Foto de Sebastião Salgado).

Para um livro que se propõe a discutir a educação visando superar o paradigma capitalista, fica a desejar o seu desenvolvimento sobre onde e como atuaria esse modelo educacional. Certamente, Mészáros enriqueceria sua obra se tivesse lido o pensamento de Paulo Freire, o qual trouxe contribuições do marxismo (mas não só!) para discutir particularidades da educação e da relação pedagógica, vide Pedagogia do oprimido (1994).

Por mais que seja uma obra interessante e fluida, Mészáros (2008) não vai muito além do que uma visão tipicamente marxista iria. O texto tem ares deterministas e até funcionalistas (falando de uma suposta “ordem social metabólica”) e não esclarece pontos essenciais relativos à educação. Resta a dúvida: se queremos que a educação vá para além do capital, do que mais ela também deve ir?

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