Tornando-se nosso gênero: a menina e os afazeres domésticos

Os trabalhos domésticos, argumenta a escritora e feminista francesa Simone de Beauvoir em seu O segundo sexo, podem ser realizados por uma menina muita crianças e, geralmente, deles os meninos estão dispensados. A autora considera que desde criança, pede-se a menina que varra a casa, tire o pó, limpe os legumes, cuide de um recém-nascido, tome conta de alguma comida, e dessa forma, a menina (principalmente, a irmã mais velha) é associada aos mundo das tarefas maternas. A mãe, ela destaca, por comodidade, hostilidade ou sadismo, descarrega na filha boa parte das suas funções e a criança é precocemente integrada no universo da seriedade, o que a ajuda a assumir sua feminilidade. A gratuidade feliz, a despreocupação infantil, são lhe recusadas, a menina se torna mulher antes da idade e conhece desde cedo os limites que essa especificação impõe ao ser humano, assim toda essa seriedade que é obrigada a passar, a sua história adquire um caráter singular.

Pede-se a menina que, desde pequena, varra a casa, tire o pó, limpe os legumes, cuide de um recém-nascido, tome conta de alguma comida, e dessa forma, a menina (principalmente, a irmã mais velha) é associada aos mundo das tarefas maternas. A mãe, por comodidade, hostilidade ou sadismo, descarrega na filha boa parte das suas funções e a criança é precocemente integrada no universo da seriedade, o que a ajuda a assumir sua feminilidade.

“A menina sobrecarregada de tarefas”, escreve Beauvoir (1980, p. 27), “pode ser prematuramente escrava, condenada a uma existência sem alegria”, entretanto, essa servidão, na qual só são exigidos esforços que estão ao seu alcance, fazem com que a menina se sinta orgulhosa porque é eficiente como um adulto e regozija-se de ser solidária com as pessoas grandes. Essa solidariedade, coloca a autora, só é possível graças ao fato de não haver entre a menina e a dona de casa uma “distancia” considerável. Já entre um menino e as atividades paternas, existe essa “distância”, ela sugere que pensemos em um homem especializado em seu oficio que se acha separado da fase infantil por anos de aprendizado, além disso, a paternidade é um mistério para o menino, nela, mal se esboça no menino o que ele será mais tarde.

Nesse sentido, como as atividades da mãe são destinadas e acessíveis a menina, os pais dizem que ela “já é uma mulherzinha” e lhe julgam mais precoce que o menino, na verdade, o fato de ser considerada como mais próxima da fase adulta, argumenta Beauvoir (1980), é porque esta fase permanece mais infantil na maioria das mulheres. Mas, para a autora, o fato é que a menina se sente lisonjeada por desempenhar o papel de “mãezinha” junto aos irmãos mais novos, ela dá ordens, fala sensatamente, assume ar de superioridade, fala com a mãe em pé de igualdade. Entretanto, a menina inveja a virilidade dos rapazes, percebe que os pais e avós escondem mal que teriam preferido um homem a uma mulher, falam com os meninos com mais gravidade, mais estima, dão-lhe mais direitos e os próprios meninos as tratam com desprezo, não permitem meninas em seus bandos, insultam-nas.

A menina percebe que se a autoridade do pai não é a que se faz sentir mais quotidianamente, é a mais soberana e mesmo quando a mulher “reina” em casa, ela põe a frente a vontade do pai.

Assim, quanto mais a menina cresce, mais ela percebe que a superioridade masculina se consolida e a afirmação com a mãe já não é mais uma solução satisfatória para esse problema. Aliás, segundo a autora, a menina aceita sua vocação feminina que lhe é imposta, para reinar, ela quer ser uma matrona porque lhe parece privilegiado a sociedade das matronas, porém, quando “suas freqüentações, estudos, jogos e leitura a arrancam do círculo materno, ela compreende que não são as mulheres e sim os homens os senhores do mundo” (BEAUVOIR, 1980, p. 28). E assim, a hierarquia dos sexos é manifestado primeiro na experiência familiar, a menina percebe que se a autoridade do pai não é a que se faz sentir mais quotidianamente, é a mais soberana e mesmo quando a mulher “reina” em casa, ela põe a frente a vontade do pai.

Em síntese, vimos que para Beauvoir os afazeres domésticos direcionam a menina a uma superioridade inicial, pela qual ela se sente desde cedo “uma mulherzinha”, a autora tentou compreender como a seriedade que é adquirida nesse processo molda a feminilidade da mulher, além disso, a autora assinalou que a menina se prepara desde sempre para a maternidade, como se essa fosse sua verdadeira profissão, enquanto o menino não é colocado no universo de ser pai, a paternidade é misteriosa, não é uma profissão, uma vez que, pelo pensamento da autora, os homens se acham em cargos no espaço público e seus ofícios não se vinculam com a fase infantil. Em certo sentido, Beauvoir retomou seu argumento de um círculo de repetição e imanência que explicaria as desigualdades sociais entre os sexos, dizendo que a maternidade e as tarefas a elas associadas não possibilitam a transcendência da mulher. Além disso, Beauvoir destacou ainda que embora o universo em que a menina (toda menina?) está inserida lhe garanta superioridade, logo ela percebe que o mundo social pertence aos homens, a começar pela própria experiência familiar.

1 comentário
  1. Charô disse:

    Olá lucas tenho seguido e amado o blog de vocês. Chegou a hora de comentar. Tenho uma dúvida. Você acredita que tudo o que foi exposto nesse post, o modo como se cria uma menina, ainda é válido para os dias de hoje. Ou seja, as mães e pais ainda fazem as coisas dessa maneira? Algo mudou? Desde já agradeço sua resposta, um abraço!

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