arquivo

Arquivo mensal: abril 2012

Tenho me interessado fortemente pela questão da transexualidade. Pelo pouco que li (em comparação à extensa bibliografia sobre o assunto), percebi que há um embate muito grande hoje dentro da teoria social contemporânea: se por um lado temos teorias – como a queer – que questionam as identidades fixas, por outro se percebe a necessidade de um sujeito político para reivindicação de direitos, o que acarreta certo “essencialismo estratégico” por parte dos movimentos sociais. E é dentro desse amplo debate sobre identidades que se insere a questão da despatologização (ou não) das identidades transexuais, que é mais ou menos o que eu pretendo abordar aqui.

Transamerica (2006), excelente filme que tem como personagem principal uma transexual.

Por um lado, há um grupo que se posiciona de forma favorável a ela. Por outro, temos um grupo que exige a retirada da transexualidade e da travestilidade dos documentos que normatizam a patologização dessas identidades. Sobre isso, talvez seja interessante ler o post que o Lucas escreveu sobre o artigo 7 do Manifesto contra-sexual de Beatriz Preciado (clique aqui).  Essa corrente ganhou força com o movimento global de combate à patologização de identidades trans[1]. Segundo Berenice Bento (2011, p. 89), “desde que o gênero passou a ser uma categoria diagnóstica, no início dos anos 1980 (4ª. versão do DSM), é a primeira vez que ocorre um movimento globalizado pela retirada da transexualidade do rol das doenças identificáveis como transtornos mentais”.

Ainda segundo Berenice Bento (2011), as reivindicações desse movimento giram em torno de cinco pontos: retirada do TIG (Transtorno de Identidade de Gênero) do DSM-IV (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – 4ª edição) e CIE-11 (Cadastro Internacional de Enfermidades); retirada da menção de sexo dos documentos oficiais; abolição dos tratamentos de normalização binária para pessoas intersex; livre acesso aos tratamentos hormonais e às cirurgias (sem a tutela psiquiátrica); e luta contra a transfobia, propiciando a educação e a inserção social e laboral das pessoas transexuais. Para ela, “a patologização caminha de mãos dadas com a universalização. O desejo em produzir um diagnóstico diferenciado para transexuais, anunciado precariamente na década de 1960, ganhou concretude nos anos 1980. A sua inclusão no Código Internacional de Doenças, em 1980, foi um marco no processo de definição da transexualidade enquanto uma doença” (2011, p. 91).

Berenice Bento, professora da UFRN, é uma crítica apaixonada da patologização da transexualidade.

É nesse sentido que o movimento a favor da despatologização vai rebater alguns argumentos que justificam a permanência da transexualidade em códigos de doença. Esses contra-argumentos são também bastante detalhados por Bento. Os quatro principais são: (1) diferença natural entre os gêneros, que alega que as pessoas nascem ou homens ou mulheres; (2) a visão suicidógena, que justifica a obrigatoriedade de acompanhamento psicológico porque várias transexuais suicidaram após a cirurgia; (3) “concessões estratégicas” através das quais se alega que, se a transexualidade e a travestilidade não forem consideradas doenças, o Estado não vai custear transformações corporais; e (4) a autoridade científica, por meio da qual se afirma que: se a transexualidade está no DSM-IV e no CID (Cadastro Internacional de Doenças), significa que ela é de fato uma doença. Bento (2011) rebate todos esses argumentos, e conclui da seguinte forma: “Por que diagnosticar o gênero? Quem autoriza os psicólogos, psiquiatras, endocrinologistas e outras especialidades que fazem parte das equipes multidisciplinares a avaliarem as pessoas transexuais e travestis como ‘doentes’? Se não existe nenhum exame clínico que conduza a produção do diagnóstico, como determinar a ocorrência do ‘transtorno’? Quais são e como estabelecer os limites discerníveis entre “os transtornados de gênero” e ‘os normais de gênero’? O único mapa seguro que guia o olhar do médico e dos membros da equipe são as verdades estabelecidas socialmente para os gêneros, portanto, estamos no nível do discurso. Não existe um só átomo de neutralidade nestes códigos. Estamos diante de um poderoso discurso que tem como finalidade manter os gêneros e as práticas eróticas prisioneiras à diferença sexual” (p. 100).

Como conceber um corpo convencionalmente masculino dentro de nosso atual sistema normativo?

Márcia Arán (2006) é outra boa referência para esse debate. Ela discute como o discurso sobre a transexualidade se dá no campo da psiquiatria e da psicanálise. Segundo ela, o que define o diagnóstico do transexualismo é uma concepção normativa dos sistemas de sexo-gênero e do dispositivo “diferença sexual”. Para ela, “os espectros de descontinuidade e incoerência que se transformam numa patologia são, desta forma, apenas concebíveis em função deste sistema normativo” (p. 50). A partir daí, ela faz uma análise amparada pela obra de Judith Butler. O debate está aberto e não pretendo aqui fechá-lo, responder a perguntas e/ou justificar uma posição ou outra. Entretanto, acredito que seja importante conhecer ambos os lados do debate a fim de que se tome posição. No próximo post (prometo que serão só esses dois!) apresentarei alguns dados coletados em uma pesquisa que realizei ano passado sobre políticas públicas para transexuais em Goiás e retomarei o que foi colocado na introdução do presente post: a questão do “essencialismo estratégico” e a necessidade de um sujeito político para reivindicação de direitos. Até lá!


[1] Para maiores informações, acesse o blog do movimento “Stop Trans Pathologization 2012”: <http://www.stp2012.info/old/it/noticias>. Acesso em: Mar/2012.

Anúncios

Não é preciso fazer uso de nenhuma análise sofisticada para concluir que há variadas formas de ser homem (e de ser mulher) e que essas podem ser mais ou menos valorizadas na sociedade, em determinados momentos ou contextos.

Pensemos nos homens executivos, nos atletas, nos gays, nos interioranos, nos transexuais, nos intelectuais, nos traficantes, nos modelos, nos deficientes, nos engajados, nos cristãos etc. E, dentro desses, podemos abrir outras abas e ilustrar, por exemplo, as diferenças entre os executivos de microempresas ou os detentores de monopólios internacionais. Estamos diante de uma imensa variedade de homens, que não só se diferenciam pelas suas peculiaridades, como também pela sua legitimidade, autoridade e poder na sociedade.

Raewyn Connell (1944-), o principal nome da atualidade nos estudos de homens e masculinidades.

Foi com o intuito de desenvolver uma teoria social sobre esse ponto de vista que a socióloga australiana Raewyn Connell (2005) trabalhou intensamente com o conceito de masculinidade desde as últimas décadas. Na sua conceituação, desenvolvida preliminarmente em 1987 com a obra Gender and Power, Connell desenvolve a ideia de que a multiplicidade de masculinidades está imbricada a relações de poder.

Alguns anos mais tarde, em 1995, Connell publica a primeira edição de sua principal obra, Masculinities, na qual se debruça sobre a construção social da masculinidade, bem como sua expressão na sociedade. Ainda, a socióloga desenvolve com mais detalhe o conceito de masculinidade hegemônica, bem como de outras masculinidades alternativas.

Na sua conceituação, a masculinidade hegemônica é um conjunto de práticas exercidas tanto por homens quanto mulheres que respondem ao problema da legitimação do patriarcado, isto é, que garante, tanto em nível local quanto global, a contínua subordinação das mulheres pelos homens.

O termo “hegemonia”, emprestado de Antonio Gramsci, não designa a masculinidade da maioria dos homens, e sim aquela soberana na sociedade. Diferencia-se da noção de dominação por não fazer uso, necessariamente, da força bruta. Uma hegemonia de fato efetiva depende de certo consenso ou participação dos grupos subalternos (CONNELL & MESSERSCHMIDT, 2005).

Os modelos como representações de formas hegemônicas de masculinidade.

Se estamos falando de uma masculinidade hegemônica, é necessário descrever as masculinidades não hegemônicas, ou seja, que não adquirem a rubrica da legitimação do patriarcado e que muitas vezes caminham à reboque da primeira. É o caso das masculinidades cúmplices, que não exercem uma hegemonia, mas também não a questionam, ou das masculinidades subordinadas, que são violadas ou marginalizadas em função da forma hegemônica de masculinidade.

Como exemplo dessas, podemos citar os homens gays, os quais confrontam os pressupostos heteronormativos da forma dominante de ser homem, ou dos excluídos, à margem da rede de produção-consumo da sociedade capitalista. Entretanto, mesmo esses não praticam uma forma unívoca de masculinidade: há sempre sobreposições e contradições.

É muito importante deixar claro que esses não se tratam de padrões fixos e atemporais. Muito pelo contrário, o jogo entre masculinidades é absolutamente dinâmico. Masculinidades são práticas, e não identidades. Podem ser exercidos por quaisquer pessoas, em diferentes contextos, não havendo sentido nenhum em classificar cada homem dentro de um tipo específico de masculinidade. Esses conceitos são mais relevantes para se enxergar processos do que categorias bem constituídas e delimitadas.

Muito poderia ser falado sobre o conceito de masculinidade – e muito ainda se falará neste blog – mas termino esse texto indicando outro no qual desenvolvo a questão da hegemonia no âmbito da globalização e neoliberalismo, a partir dos estudos da Connell, que pode ser acessado clicando aqui.

Para Beatriz Preciado, a transformação de conceitos como psiquismo, masculinidade, feminilidade, heterossexualidade, homossexualidade, entre outros, em realidades tangíveis, em substâncias químicas, em moléculas comercializáveis, em bens de troca gestionados por multinacionais farmacêuticas, são processos que se constituíram durante a materialização da era farmacopornográfica.

No texto anterior, problematizamos, através da teoria pós-estruturalista e queer da filósofa Beatriz Preciado, as transformações da produção industrial do último século e percebendo uma mudança progressiva para o negócio do novo milênio: a gestão política e técnica do corpo, do sexo e da sexualidade. A autora argumenta que essa transição constitui um terceiro tipo de capitalismo, depois dos regimes escravistas e industrial, situando-se em torno dos anos 70 e estabelecendo um novo tipo de “governo dos vivos” (sentido foucaultiano), que emerge das ruínas urbanas, corporais, psíquicas e ecológicas da Segunda Guerra Mundial. Para, de fato, comprovar sua análise, Preciado traça uma cronologia sexopolítica da economia mundial, expondo uma série de fatos que encadearam essa era a qual a autora denomina como a era farmacopornográfica.

Fármaco, segundo Preciado (2008) em seu Testo Yonqui, faz referências aos processos de governo biomolecular e porno aos processos de governo semiótico-técnico da subjetividade sexual e dos processos dos quais a pílula anticoncepcional e a Playboy são paradigmáticos. A farmapornografia constitui, segundo a autora, um novo regime pós-industrial, global e mediátrico, no qual, durante sua materialização, no século XX, a psicologia, a sexologia e endocrinologia estabelecem sua autoridade material, transformando conceitos como o de psiquismo, de libido, de consciência, de feminilidade e masculinidade, heterossexualidade e homossexualidade em realidades tangíveis, em substâncias químicas, moléculas comercializáveis, corpos, biótipos humanos, em bens de troca de gestão por multinacionais farmacêuticas.

A tecnociência contemporânea, segundo Preciado, no âmbito do regime farmacopornográfico, transforma nossa depressão em Prozac, nossa masculinidade em testosterona, nossa ereção em Viagra, entre outros, graças ao que se chama "autoridade material".

Para Preciado (2008), autoridade material é um ponto imprescindível para compreender a organização da era farmacopornográfica, uma vez que é graças a autoridade material que a ciência ocupou o lugar hegemônico na nossa cultura, nos nossos discursos, pela sua capacidade para inventar e produzir artefatos vivos. “Por isso”, ela escreve na página 33, tradução nossa, “a ciência é a nova religião da modernidade. Porque tem a capacidade de criar, e não simplesmente de descrever, a realidade”. Assim, no êxito da tecnociência contemporânea, nossa depressão se transforma em Prozac, a masculinidade em testosterona, a ereção em Viagra, a fertilidade/esterilidade em pílula, a AIDS em triterapia, sem ser possível determinar quem vem antes, a depressão ou o Prozac? o Viagra ou a ereção? a masculinidade ou a testosterona? a pílula anticoncepcional ou a maternidade? a AIDS ou a triterapia?

Assim, segundo a autora, a sociedade contemporânea está habitada por subjetividades tóxico-pornográficas, aquelas subjetividades que são definidas pela substância (ou substâncias) que dominam os metabolismos, pelas próteses cibernéticas, pelos desejos farmacopornográficos que orientam nossas ações, e no âmbito dessas subjetividades tóxico-pornográficas estão os sujeitos Prozac, sujeitos cortisona, sujeitos silicone, sujeitos ritalina, sujeitos heterovagináveis (heterovaginables), sujeitos doblepenetración, sujeitos Viagra, etc. Preciado (2008) conclui que não existe nada o que desvendar na natureza, não existe um secreto escondido, já que nós vivemos na hipermodernidade punk e a questão não é revelar a verdade oculta na natureza, senão explicitar os processos culturais, políticos e técnicos através dos quais o corpo como artefato adquire um estatuto natural. Não existe o que desvendar, argumenta a autora, no sexo nem na identidade sexual, porque a verdade do sexo não é um desvendamento, é um sex design.

Por mais datado que o ensaio "The Traffic In Women" esteja, ele continuará sendo, por muito tempo, uma referência ao se falar em gênero.

Finalizando a série que trata do ensaio de Gayle Rubin intitulado “The Traffic In Women: notes of the ‘political economy’ of Sex” (os outros posts podem ser acessados clicando aqui, aqui e aqui), eu gostaria de ressaltar algumas conclusões de Rubin e expor algumas críticas atribuídas a esse ensaio.

Rubin coloca, ao final do texto, que ela tentou ali construir uma teoria da opressão das mulheres tendo como base conceitos da antropologia estrutural e da psicanálise, mas observa que o perigo desse empreendimento é o de justamente trazer consigo o sexismo dentro da tradição das quais os teóricos analisados fazem parte. Por isso, ela expõe argumentos para justificar a assimilação de Freud e Lévi-Strauss dentro da teoria feminista. O primeiro é que nenhum dos dois questionam o “sexismo endêmico” presente na obra de ambos, e por isso as questões colocadas por ela em seu ensaio são extremamente óbvias e necessárias. O segundo é que “seus trabalhos nos permitem isolar sexo e gênero de ‘modos de produção’, e contrapor-nos a uma certa tendência a explicar a opressão de sexo como refletindo forças econômicas” (RUBIN, 1993, p. 22). Para ela, é preciso uma mudança no contexto social) que seja mais profunda do que as feministas socialistas estavam propondo.

Outra conclusão de Rubin é que se faz necessária uma análise marxiana dos sistemas de sexo/gênero, pois eles “não são emanações a-hitóricas da mente humana; eles são produtos da atividade humana histórica” (RUBIN, 1993, p. 23). Segundo ela, há uma economia política dentro dos sistemas de sexo/gênero nas entrelinhas do conceito de “troca de mulheres”, e que, portanto, existem várias outras questões sobre um sistema de casamento e parentesco além de saber se ele troca ou não as mulheres.

Para pensar: de que forma "The Traffic In Women" colaborou com a teoria feminista?

Pois bem. A publicação do ensaio “The Traffic In Women” foi, sem dúvida alguma, um marco nos estudos sobre o conceito de gênero. Entretanto, existem algumas limitações nesse texto, especialmente por causa do contexto em que Gayle Rubin o escreveu. Em uma entrevista realizada pela filósofa Judith Butler (1956-), Rubin deixa isso bem claro. Ao ser questionada pela visão utópica do ensaio, a antropóloga estadunidense diz: “Bem, éramos todas bastante utópicas naquela época. Isso foi entre 1969 e 1974. Eu era jovem e otimista quanto à mudança social. Naquela época havia uma expectativa comum de que a utopia estava bem próxima” (BUTLER & RUBIN, 2003). Entretanto, além do fato de o ensaio ser, de certa forma, “utópico”, outras críticas foram feitas a ele. Outro exemplo pode ser colocado através da obra de Linda Nicholson. A autora, em Interpretando o Gênero (2000), empenhada em criticar as teorizações sobre gênero que sempre evocavam o sexo para tratar do mesmo, diz que “(…) o conceito de ‘gênero’ foi introduzido para suplementar o de ‘sexo’, não para substituí-lo. Mais do que isso, não só o ‘gênero’ não era visto como substituto de ‘sexo’, como também ‘sexo’ parecia essencial à elaboração do próprio conceito de ‘gênero’” (p. 11). Logo em seguida, ela exemplifica isso com o conceito de gênero segundo Rubin.

Por ter sido um marco na teoria feminista ao utilizar, pela primeira vez, o conceito de gênero para tentar explicar a subordinação das mulheres, o ensaio de Rubin, de certa forma, se “desatualizou”. Digo isso relacionado à conceituação de gênero e aos paradigmas e metodologias empregados na análise da autora. Várias outras formulações de gênero vieram depois (para aprofundar nesse aspecto, acompanhe a série do Adriano sobre conceituações de gênero clicando aqui), e a própria Rubin, na década seguinte, mudou sua visão sobre o gênero. Essa mudança foi causada, especialmente, pela sua leitura da História da Sexualidade de Michel Foucault (1926-1984), que causou um impacto muito grande nos estudos sobre gênero, sexualidade e o próprio feminismo. Em conseqüência disso, Rubin publicou, na década de 80, um outro artigo emblemático intitulado “Thinking Sex: Notes for a Radical Theory of the Politics of Sexuality” (1984), que poderá ser tema de análise em um momento futuro.

O ensaio "Thinking Sex" foi uma interessante publicação de Rubin, inspirada fortemente nas ideias de Michel Foucault na "História da Sexualidade".

Enfim, o objetivo desse último post não é, de forma alguma, encerrar o debate sobre as conclusões de Rubin em “Traffic In Women”, e muito menos dar conta de todas as críticas direcionadas a esse ensaio. Muito pelo contrário: convido a todas e a todos a comentarem nesse post, para que o debate fique mais interessante e possa ter mais vozes e se torne ainda mais rico. Obrigado!

Até a década de 80, sobrevivia com força a dualidade entre sexo e gênero, sendo o primeiro para a natureza e o segundo, para cultura. Uma das feministas que mais abalou essa concepção, trazendo novas perspectivas para os estudos de gênero, foi a historiadora estadunidense Joan Scott, quando da escrita de seu célebre artigo Gênero: uma categoria útil de análise histórica (1995), publicado originalmente em 1986.

Seu artigo tornou-se um clássico já quando publicado, sendo indiscutível sua influência não só nos Estados Unidos. Scott inicia o texto chamando atenção para o que ela considera os usos descritivos de gênero: quando apenas se olham para questões envolvendo mulheres e homens sem que se vá muito além.

Joan Scott (1941-), historiadora estadunidense, escreveu um célebre artigo que demarca uma leitura pós-estruturalista a respeito do gênero, explorando seus potenciais analíticos de desconstrução e ressignificação.

A historiadora, assumidamente pós-estruturalista, retoma o método de desconstrução do francês Jacques Derrida e busca, de fato, desconstruir vícios do pensamento ocidental, como a oposição tida como universal e atemporal entre homem e mulher (PISCITELLI, 2002). Scott, também influenciada por Michel Foucault, entende o gênero como um saber sobre as diferenças sexuais. E, havendo uma relação inseparável entre saber e poder, gênero estaria imbricado a relações de poder, sendo, nas suas palavras, uma primeira forma de dar sentido a estas relações.

Juntando esses referenciais, Scott conclui que gênero é uma percepção sobre as diferenças sexuais, hierarquizando essas diferenças dentro de uma maneira de pensar engessada e dual. Scott não nega que existem diferenças entre os corpos sexuados. O que interessa a ela são as formas como se constroem significados culturais para essas diferenças, dando sentido para essas e, consequentemente, posicionando-as dentro de relações hierárquicas.

São símbolos e significados construídos sobre a base da percepção da diferença sexual, utilizados para a compreensão de todo o universo observado, incluindo as relações sociais e, mais precisamente, as relações entre homens e mulheres (CARVALHO, 2011). Temos, portanto, a tal utilidade analítica de gênero: a possibilidade de nos aprofundar nos sentidos construídos sobre os gêneros masculino e feminino, transformando “homens” e “mulheres” em perguntas, e não em categorias fixas, dadas de antemão.

Na conceituação de Scott, é necessário desconstruir os vícios do pensamento ocidental e relativizar as definições de masculino e feminino, buscando principalmente um novo olhar sobre os símbolos e as linguagens.

O reconhecimento das diferenças entre os corpos não leva, contudo, à manutenção da dicotomia sexo x gênero. Pois, se o corpo é sempre entendido a partir de um ponto de vista social, o conceito de sexo estaria subsumido no conceito de gênero (NICHOLSON, 2000). Logo, não faria sentido pensar o sexo como pertencente à natureza, esta inquestionável, porque a própria separação entre natureza e cultura já seria um produto cultural.

E, na opinião da historiadora, como se daria essa construção? Talvez esse seja justamente o seu ponto fraco – até porque é exatamente onde mais recaem as críticas –, mas Scott deixa a cargo principalmente da linguagem e do discurso. Para ela, é um universo simbólico que organiza socialmente aquilo que podemos enxergar nos corpos, nas relações sociais etc. Fico devendo, nesse momento, um aprofundamento nesta questão por motivo de espaço.

Para saber mais sobre o pensamento de Joan Scott, temos um texto que elucida suas críticas aos usos descritivos de gênero (clique aqui) e outro que apresenta melhor sua utilidade analítica (clique aqui). Para entender mais sobre a dicotomia sexo x gênero, acesse aqui. Por fim, caso queira ler sobre o conceito de gênero por outras autoras, clique aqui para voltar ao texto inicial da série.

Rubin (1949-) analisa os esquemas teóricos de Freud e Lacan para entender (e depois criticar) como se dá a introjeção do sistema sexo/gênero no indivíduo.

Dando continuidade à série dedicada à análise do ensaio “The Traffic in Women: notes of the ‘political economy’ of Sex”, de Gayle Rubin (os outros posts podem ser acessados clicando aqui e aqui), vamos agora tentar entender, segundo Rubin (1993, p. 13), quais os “mecanismos pelos quais as crianças são impregnadas com as convenções de sexo e de gênero”. Para tanto, ela analisa algumas das teorizações dos psicanalistas Sigmund Freud (1835-1930) e Jacques Lacan (1901-1981). Para a autora, a psicanálise é uma teoria sobre a reprodução das normas e regras do parentesco.

Rubin inicia o texto falando sobre como se deu a inserção das teorizações dentro da psicanálise sobre o “desenvolvimento feminino”. Segundo ela, até os anos 20, o movimento psicanalítico não havia problematizado uma teoria diferente daquela do Complexo de Electra – no qual a “feminilidade” era encarada como um espelho do Complexo de Édipo para os homens, ou seja, a menina amava o pai, mas desistia dele por medo de uma vingança materna. Entretanto, após a “descoberta” da fase pré-edipiana nas mulheres, Freud (dentro de um debate mais amplo envolvendo vários outros psicanalistas) teve a possibilidade de formular a teoria psicanalítica clássica da feminilidade. Na fase pré-edipiana, as crianças dos dois sexos eram descritas como bissexuais, tinham o “completo espectro de atitudes libidinais, ativas e passivas” (RUBIN, 1993, p. 14), e encaravam a mãe como o objeto de desejo.

Em linhas gerais, Jacques Lacan entende que o phallus é o sistema de significação que se dá em torno do órgão genital masculino, o pênis.

Nesse sentido, o desenvolvimento da mulher não poderia mais ser visto como um simples reflexo da biologia. Isso trouxe uma série de consequências, afinal tornava-se necessário explicar como a “criança mulher” deixava de desejar a mãe e passava a “adequar” seu desejo heterossexual. Diz Rubin (1993): “É na sua explicação da aquisição da ‘feminilidade’ que Freud emprega os conceitos de inveja do pênis e de castração que enfureceram as feministas desde que ele os introduziu. A menina afasta-se da mãe e reprime os elementos ‘masculinos’ da sua libido como resultado do seu reconhecimento de que ela é castrada. Ela compara seu pequeno clitóris ao pênis maior, e diante da evidente capacidade superior deste para satisfazer a mãe, se enreda na inveja do pênis, e num sentimento de inferioridade ela desiste da sua luta pela mãe e assume uma posição feminina passiva frente ao pai” (p. 15). Isso se torna ainda mais complicado quando pensamos que se impõe, nesse sistema, a obrigação da heterossexualidade. A mulher não pode possuir outra mulher, afinal não possui os “códigos” sociais para tanto. Lacan será um dos teóricos que vai problematizar a questão dos significados sociais e culturais impostos sobre o pênis, que vão legitimar, no limite, o homem como sujeito da troca e a mulher como objeto da troca no sistema de parentesco.

Uma das conclusões de Freud é que a mulher tem três caminhos possíveis paraa definição de sua sexualidade: se torna ou assexuada (louca e reprimida), ou lésbica (revoltada e narcisista), ou submissa (atingindo a normalidade).

Lacan vai colocar, então, que a psicanálise é o “estudo dos rastros fincados na psique dos indivíduos como resultado de sua conscrição dentro dos sistemas de parentesco” (RUBIN, 1993, p. 15). Antes da fase edipiana, cada criança possui todas as possibilidades sexuais, pois sua sexualidade está ainda incompleta e desestruturada. Segundo Lacan, a crise edipiana se inicia quando a criança aprende quais são as regras sexuais da sociedade que estão latentes na linguagem, designando a família e os parentes, e especialmente quando ela compreende o seu lugar dentro desse sistema. A crise se resolve quando a criança aceita esse lugar, mas, mesmo quando ela o recusa, ela ou ele não pode escapar do conhecimento do mesmo. Para Lacan, a ausência ou a presença do phallus exarceba as diferenças entre os dois status sexuais, que são o “homem” e a “mulher”. Em tempo, é preciso definir o conceito de phallus segundo este autor. Para ele, o phallus é o conjunto de significados que são conferidos ao pênis. “A diferenciação entre phallus e pênis, na terminologia psicanalítica francesa contemporânea, enfatiza a idéia de que o pênis não poderia e tampouco desempenha o papel que lhe é atribuído na terminologia clássica do complexo de castração” (RUBIN, 1993, p. 16). A “alternativa” (mil aspas) apresentada para a criança, portanto, é a alternativa entre ter ou não ter o phallus. E essa presença ou não traz um significado de poder, de dominação dos homens sobre as mulheres, e a “inveja do pênis” por parte das mulheres é o reconhecimento disso.

Entretanto, Rubin vai além. Ela diz que enquanto os homens tiverem direito sobre as mulheres que elas não têm sobre si mesmas, o phallus será o divisor de águas entre o sujeito da troca e o objeto da troca. Por isso, o phallus seria mais do que uma simples diferenciação entre os sexos, mas sim a personificação do status de “macho”, ao qual os homens têm o direito, entre outras coisas, a uma mulher. Seguindo a linha de pensamento de Rubin, é preciso mencionar que Freud diz que existem três caminhos para a mulher sair do complexo edipiano: ou ela enlouquece, reprime sua sexualidade e torna-se assexuada; ou pode protestar, apegando-se ao seu desejo, e tornar-se homossexual; ou ela pode aceitar o contrato sexual e atingir a “normalidade”.

Como "revolucionar as regras do parentesco"? De que forma "libertaremos a pessoa humana da camisa de força do gênero"?

Por fim, é preciso entender qual a crítica que Rubin faz dessas teorizações. Ela diz que “A precisão com a qual Freud e Lévi-Strauss se combinam é tocante. Os sistemas de parentesco requerem uma divisão dos sexos. A fase edipiada divide os sexos. Os sistemas de parentesco incluem conjuntos de regras governando a sexualidade. A crise edipiana é a assimilação dessas regras e tabus. A heterossexualidade obrigatória é o produto do parentesco. A fase edipiana constitui o desejo heterossexual. O parentesco baseia-se numa diferença radical entre os direitos dos homens e das mulheres. O complexo edipiano confere direitos masculinos ao menino, e obriga a menina a contentar-se com seus direitos diminuídos” (RUBIN, 1993, p. 20). Segundo ela, nosso sistema sexo/gênero ainda tem como base os princípios que Leví-Strauss levantou em sua obra, que por sua vez sugere, indiretamente, que o movimento feminista deve tentar resolver a crise edipiana dentro desse nosso sistema de sexo/gênero. Por isso, segundo Rubin, é preciso que se faça uma revolução nas regras de parentesco e, consequentemente, no nosso sistema de sexo/gênero. Para ela, “uma revolução profunda libertaria mais do que as mulheres. Ela libertaria formas de expressão sexual, e libertaria a personalidade humana da camisa de força do gênero” (RUBIN, 1993, p. 21). As conclusões da autora, bem como algumas de minhas considerações finais serão abordadas no próximo e último post da série sobre o “The Traffic In Women”. Até lá!

“Nasci em 1970, momento em que a economia automobilística, que até então parecia estar no seu ponto máximo de auge, começava a declinar”. Assim, Beatriz Preciado começa o capítulo 2 de seu livro Testo Yonqui (2008), não bem um livro, como ela sugere, mais um protocolo de suas intoxicações voluntárias feitas com testosterona sintética, um ensaio corporal, uma ficção (autopolítica), ou ainda, uma autoteoria. “Meu pai”, ela continua, “tinha a primeira e mais importante garagem de Burgos, uma vila gótica de sacerdotes e militares em que Franco instalou a nova capital simbólica da Espanha fascista”.

A garagem de carros do pai de Preciado (2008), segundo a própria autora, que se chamava Garaje Central, situado na rua General Mola, se guardava os carros mais caros da cidade, dos ricos e poderosos. Ela se recorda que na sua casa não havia livros, apenas carros e cita os vários tipos de carros, desde carros novos para aquela época como à coleção antiga do pai. O pai, entretanto, investiu em uma industria de fabricação de tijolos, que veio abaixo em 1975 juntamente com a crise do petróleo. “No final”, relembra Preciado (2008, p. 25, tradução minha), “ele acabou vendendo sua coleção de carros para pagar a quebra da fábrica”.

"Testo Yonqui", ensaio corporal de Beatriz Preciado, no qual a autora narra as auto-experiências da ingestão voluntária de testosterona.

Para a autora, o interessante dessa época é o que conhecemos como fordismo, onde “a indústria automobilística sintetiza e define um modo específico de produção e de consumo, uma temporalização taylorizante da vida, uma estética policroma e lisa do objeto inanimado, uma forma de pensar o espaço anterior e de habitar a cidade, um agenciamento conflituoso do corpo e da maquina, um modo descontínuo de desejar e de resistir” (PRECIADO, 2008, p. 26, tradução minha). Segundo ela, os anos que seguiram a crise energética e a decadência das cadeias de montagem, foram buscados outros setores portadores das transformações da economia global, onde se fala, portanto, das indústrias bioquímicas, eletrônicas, informáticas ou de comunicação como os novos suportes industrias do capitalismo. Entretanto, ainda era insuficiente explicar a produção do valor e da vida nessa nova sociedade.

Dessa forma, para Preciado (2008), parece possível traçar uma cronologia dessas transformações da produção industrial do último século a partir de uma perspectiva que leve em conta o negócio do novo milênio, isto é, a gestão política e técnica do corpo, do sexo e da sexualidade — uma análise sexopolítica da economia mundial. Mas, a própria Preciado coloca que perguntaremos: como o sexo e a sexualidade se converteram no centro da atividade política e econômica? Basta acompanhá-la!

Em primeiro lugar, Preciado (2008) argumenta que durante o período da Guerra Fria, os Estados Unidos investiram, mais do que qualquer outro país na história, na investigação científica sobre o sexo e a sexualidade. Assim, vemos o aparecimento de um terceiro tipo de capitalismo que não se caracteriza apenas pela transformação do sexo em objeto de gestão política da vida, mas, segundo a autora, porque esta nova gestão envolve as novas dinâmicas do tecnocapitalismo avançado. John Money inventa em 1947 o termo “gênero”, para diferenciar do “sexo” e sustentar que é possível modificar o gênero de cada um até os dezoito anos; também antes, em 1946, é inventada a primeira pílula antibaby a base de estrógenos sintéticos, convertendo este na molécula farmacêutica na mais utilizada de toda a história da humanidade. O lifting facial e outras intervenções de cirurgias estéticas se convertem em técnicas de consumo de massa nos Estados Unidos e Europa; a “des-circuncisão” do pênis se tornou uma das operações de cirurgia estéticas mais praticadas nos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial, frente aos signos corporais estabelecidos pelo nazismo ou pelas retóricas racistas. O uso de plástico se generaliza para a fabricação de objetos da vida cotidiana, definindo condições materiais de uma transformação ecológica em grande escala, a destruição dos recursos energéticos primitivos do planeta, consumo rápido e alta contaminação.

Para Beatriz Preciado (1970 - ), é possível traçar uma cronologia dessas transformações da produção industrial do último século a partir de uma perspectiva que leve em conta o negócio do novo milênio, isto é, a gestão política e técnica do corpo, do sexo e da sexualidade — uma análise sexopolítica da economia mundial.

Em 1953, o soldado americano George W. Jorgensen realiza a primeira cirurgia transexual médica; Hugh Hefner cria a Playboy; em 1958 é realizada a primeira faloplastia; os laboratórios Eli Lilly comercializam Secobarbital (mais conhecido como “pílula vermelha” ou doll), um barbitúrico com propriedades anestésicas, sedativas e hipnóticas, se convertendo posteriormente em uma das drogas da cultura underground rock dos anos sessenta. Em 1966, são inventados os primeiros anti-depressivos que agem diretamente na síntese do neurotransmissor serotonina, o mais conhecido será o Prozac, fabricado também pelos laboratórios Eli Lilly. Em 1969, como parte de uma programa de investigação militar estadunidense, é criada a primeira “rede de redes” de computadores interconectados capazes de transmitir informações, dando lugar, mais tarde, a Internet.

No dia 18 de setembro de 1970, continua a autora, morre Jimi Hendrix depois de ingerir um coquetel farmacêutico que continha ao menos nove pílulas de Secobarbital; em 1971, o Reino Unido estabelece a Lei do Abuso de Drogas, regulando o consumo e tráfico de substâncias psicotrópicas; em 1972, Gerard Damiano realiza Deep Throat (Garganta profunda) o primeiro filme pornô comercializado publicamente nos Estados Unidos, se transformando no filme mais visto de todos os tempos, gerando benéficos de mais de seiscentos milhões de dólares e fazendo com que a produção cinematográfica pornô, passasse de trinta filmagens clandestinas em 1950 a duas mil e quinhentas em 1970.

Em 1977, o estado de Oklahoma introduz a primeira injeção letal a base de um composto também barbitúrico, para aplicar a pena de morte; em 1983, a transexualidade é incluída no DSM como doença mental; durante os anos 80 são descobertos e comercializados novos hormônios como o hormônio do crescimento, substâncias anabolizantes que serão utilizadas legal e ilegalmente nos esportes. Em 1988 é aprovada a utilização farmacológica de Sildenafil, comercializado como Viagra pelos laboratórios Pfizer, para tratar a “disfunção erétil” do pênis.

“Estamos em frente a um novo tipo de capitalismo quente, psicotrópico e punk”, conclui Preciado (2008), uma vez que todas essas transformações recentes apontam para a articulação de novos dispositivos microprotéticos de controle e de subjetividade com novas técnicas biomoleculares e mediatricas. Assim, nosso próximo texto terá como objetivo justamente descrever as características, as relações de poder que estão implicadas nessa nova era que a autora denominou como era farmacopornográfica. Aliás, o que seria “farmacopornografia”?