O caso Sears e as complexidades do debate igualdade versus diferença

Quando nos adentramos em uma discussão tão complicada que chega a dar um nó, quanto o debate envolvido na dicotomia igualdade versus diferença, precisamos parar por um instante e analisar melhor o que está em jogo. No texto anterior, descrevi o que ficou conhecido como caso Sears: um processo movido pelo governo norte-americano contra a empresa de vendas Sears, denunciando a prática de sexismo na corporação. Conforme já dito, o caso ficou conhecido pela argumentação, a partir de pontos de vista opostos, de duas historiadoras, que giravam em torno da discussão igualdade versus diferença.

A gigante de vendas Sears sofreu, em 1979, um processo do governo norte-americano, acusando-a de praticar sexismo na contratação de seus funcionários mais bem remunerados. O processo foi julgado entre 1984-85.

Joan Scott (2000) nos chama a atenção de que o embate sobre o caso Sears não foi tão pautado pela dicotomia igualdade versus diferença quanto possa ter parecido. Adentrando-se na argumentação desenvolvida pelas historiadoras, a autora mostra que:

– a historiadora em defesa da Sears, Rosalind Rosenberg, afirmou que as mulheres diferiam dos homens, e que certas “diferenças fundamentais”, fruto da cultura ou de antigos padrões de socialização, levariam a um desinteresse das mulheres pelos cargos mais bem remunerados na empresa. Concluímos que tal argumentação, baseada na ideia de “diferença”, se não recaía em um determinismo biológico, talvez o fizesse para um determinismo cultural;

– já a historiadora contrária à Sears, Alice Kessler-Harris, não argumentou que as mulheres e os homens eram iguais, mas fez uso de outras retóricas: primeiro, mostrou que a evidência histórica era muito mais complexa e contraditória que a defendida por Rosenberg; segundo, afirmou que as considerações econômicas geralmente compensam os efeitos da socialização nas atitudes das mulheres diante do emprego; e terceiro, ilustrou que, historicamente, a segregação por sexo no mundo do trabalho era mais consequência das preferências dos patrões do que de escolhas dos empregados.

Como entender a desigualdade entre homens e mulheres no mercado de trabalho? Devemos apelar o discurso da "igualdade", ainda que ignoremos as diferenças sexuais? Ou devemos apelar para a "diferença", correndo o risco de não defendermos a igualdade?

Para Scott (2000), portanto, o debate estava localizado sobre a relevância ou não de ideias gerais sobre a diferença sexual naquele contexto específico. Pois aqueles que acusavam a Sears defendiam que as práticas de contratação da empresa refletiam noções inexatas e inaplicáveis da diferença sexual, enquanto os advogados da Sears procuravam isentá-la da responsabilidade, argumentando que as diferenças “fundamentais” entre os sexos explicavam a desigualdade de gênero na força do trabalho.

Ora, se para nós, atualmente, está claro que jogar na “diferença” a responsabilidade pelas desigualdades, sejam elas quais forem, é uma atitude oportunista e conservadora, por que o debate ainda nos parece complicado? E por que pode nos parecer difícil engolir a vitória da Sears?

O ponto central é que não é fácil transitar sobre o terreno da dicotomia igualdade versus diferença, sobretudo porque esse dualismo é falso, como pretendo mostrar no próximo texto. No tribunal, onde o espaço para argumentações elaboradas é curto, mas a pressão é grande, vence o que parecer logicamente mais convincente.

Alice Kessler-Harris (1941-), argumentando contra a Sears, encontrou problemas para formular um modelo que reconhecesse a diferença sexual e ao mesmo tempo a negasse como explicação para a desigualdade na empresa.

Rosenberg defendia um modelo rígido que reforçava, sem problematizar a socialização, as escolhas individuais dos homens e das mulheres; ainda, suas descrições sobre as diferenças de gênero estavam de acordo com o discurso dominante (exemplo: as mulheres se preocupam mais com a família e menos com ascensão no mercado). Kessler-Harris, por sua vez, encontrou dificuldades em elaborar um modelo simples que reconhecesse a diferença sexual na sociedade e ao mesmo tempo a rejeitasse como uma explicação aceitável para o padrão de contratação da Sears.

É justamente por isso que Antônio Pierucci (1999) afirma que Kessler-Harris foi traída pela “diferença”. Invocá-la demanda muito cuidado, porque é justamente o argumento da “diferença” que é constantemente invocado pelos conservadores, que não estão nem um pouco interessados na igualdade social ou econômica. Nesse sentido, autoras como Joan Scott (2000) e Ruth Milkman (1986) concordam que argumentar com base na “diferença” pode ser muito arriscado, ainda mais considerando o contexto dos anos 1980, no qual o conservador Ronald Reagan presidia os EUA.

Escolher entre “igualdade” ou “diferença” nos parece, além de simplista, pouco resolutivo. Assim, no próximo texto vamos nos aprofundar nos aportes teóricos para, enfim, desatar esse nó.

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