Eleições para DCE na USP: o que será que será?

Cidade Universitária (Butantã) da USP: em torno de 80 mil estudantes, sendo que 16% votaram para DCE; um número pequeno, mas recorde.

Todo o rebuliço que ocorreu no ano passado, na Universidade de São Paulo (USP), foi bastante comentado na população – ainda que com um grande viés. Menos se falou das eleições para o Diretório Central dos Estudantes (DCE) da USP, entidade cuja função é representar a totalidade dos estudantes da Universidade. Neste texto, exponho minha opinião sobre os últimos acontecimentos, bem com sobre a chapa eleita.

A USP conta com aproximadamente 80 mil estudantes em seus variados campi pelo estado de São Paulo. O maior deles, em número de estudantes, é o campus do Butantã na capital do estado, local onde se localiza a sede do DCE, a Reitoria e demais órgãos administrativos.

As eleições do DCE costumam ter quórum baixo. Este ano alcançou um número até que elevado, mas ainda pouco representativo. Votaram 13.134 estudantes, o que corresponde a 16% do total. As urnas ficaram abertas nas diversas unidades durantes três dias inteiros. Infelizmente, o interesse dos estudantes é baixo, porque falta de tempo para votar é uma alegação que não cabe.

Logotipo da chapa vencedora das eleições Não vou me adaptar!: continuísmo pouco crítico ao movimento estudantil

A chapa vencedora conquistou pouco mais da metade dos votos: Não vou me adaptar!, que congrega estudantes ligados ao PSOL e ao PSTU, desta vez unidos. Em segundo lugar, ficou a chapa Reação, o fantasma da direita universitária; em terceiro e bem próximo, a chapa Universidade em Movimento, no qual participam a Consulta Popular, PSOL e também dissidentes do PCB. Na lanterna, temos a 27 de outubro, chapa da ultra-esquerda (LER-QI, PCO), e a Quem vem com tudo não cansa, próxima da base governista (PT e PCdoB).

É fato que o Movimento Estudantil (ME) da USP – o que se aplica também a outras universidades – sofre de uma crise de legitimidade. Ainda, desde 2009 o DCE da USP tem sido tomado ou por grupos do PSTU ou por grupos do PSOL. A verdade é que esses grupos descaradamente utilizam o DCE para a sua autoconstrução. Não pretendo discutir a partidarização do movimento neste texto, mas ressaltar que transformar entidades estudantis em aparelhos políticos de partidos é uma realidade recorrente, e lastimável.

Nessa eleição de DCE, posso dizer que houve um ganho e uma perda.

Logotipo da chapa Reação: estudantes que deram o que falar, mas não nas urnas.

O ganho foi a chapa Reação não ter sido eleita. Essa chapa, que recebia apoio da Reitoria, da mídia (leia os textos do Reinaldo Azevedo na Veja) e de partidos como PSDB e PP (não oficialmente, porque a chapa hipocritamente criticava a influência de partidos no movimento, mas também era partidarizada), representava um projeto absolutamente conservador. Não esteve nem um pouco sintonizada com as mobilizações estudantis e, se eleita, faria todos os gostos da Reitoria, que tem tentado implantar na Universidade um projeto privatizante. Recentemente, entrou em pauta um novo regimento para a pós-graduação que abria a possibilidade de cobrança de taxas, a título de exemplo. Sem falar no transporte universitário, privatizado há poucos meses (leia aqui).

A perda, a meu ver, foi justamente a vitória de uma chapa continuísta, que embora prossiga com sua contribuição na mobilização dos estudantes, não alterará a forma pela qual o DCE é gerido. A Não vou me adaptar!, a chapa dos “roxinhos” (alusão à cor do seu símbolo), procurou ofuscar todas as críticas que se poderia ter ao ME em nome de uma campanha unificada contra a suposta ameaça maior: a vitória da Reação. Toda a campanha da chapa, embora eles neguem atualmente, foi baseada na “política do medo” e no “voto útil”, algo como “vote em nós para combater a Reação”.

Apuração dos votos para DCE: as eleição são apenas uma etapa, mas tem muito chão...

Fato é que o problema central nunca foi a Reação. Não temo a “maioria silenciosa”, como o reitor muito bem cunhou. O grande problema do ME é sua atitude dogmática e aparelhista: pouca construção com os Centros Acadêmicos, pouco aprofundamento de debates, poucas proposições. É evidente que a chapa atual é bem melhor que os grupos radicais – e para quem acompanhou as mobilizações no final do ano passado, sabe que a situação chegou a patamares grotescos em função da atuação da ultra-esquerda universitária.

Porém, pior que uma chapa de direita forte (e, veja bem, a Reação não foi tão forte quanto se propagandeou), é ter um ME incapaz de dialogar com estudantes e, pelos seus próprios fracassos, estimulando a despolitização e, consequentemente, o fortalecimento de grupos conservadores, os quais trabalham justamente sobre as margens de erros dos mais progressistas.

Logotipo da chapa Universidade em Movimento: um grupo de esquerda que priorizou críticas às últimas gestões do DCE.

Em vista disso, votei e até ajudei a defender a Universidade em Movimento, uma chapa crítica à Reitoria e aos problemas atuais da USP e, além disso, crítica também à atuação do ME nos últimos anos. Não que ela seja perfeita, até porque não era isso que eu estava procurando. Mas, pelo menos essa chapa trazia uma questão pouco colocada no momento: a autocrítica da esquerda universitária.

Infelizmente, fomos derrotados, pois a campanha insistente e amedrontadora dos “roxinhos” foi mais forte. E o que será do DCE no restante do ano? Provavelmente, o mesmo que tem sido: aparelhado, dogmático e com pouco diálogo, tocando as mobilizações na onda dos estudantes. Pode até ser melhor que uma chapa radical ou uma conservadora, mas a necessidade de se repensar os rumos do ME é absolutamente necessária. Em curto prazo, solucionamos uns entraves. Em longo prazo: o que será que será?

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