Gayle Rubin e o “The Traffic in Women”: o parentesco e o sistema sexo/gênero

Gayle Rubin (1949-), autora do Traffic in Women.

No post anterior, comecei a falar sobre o texto “The Traffic in Women: notes of the ‘political economy’ of sex”. Como eu havia falado na ocasião, o texto é relativamente denso e, portanto, seria por demais pretensioso tentar explicar toda a obra, afinal nada substitui a leitura na íntegra. É importante ressaltar que, nessa análise, vou utilizar uma versão traduzida para o português pelo SOS Corpo para uso didático. Lembro: não há versão oficial em português de Traffic in Women. Dito isso, vamos à obra.

Gayle Rubin afirma, ainda no início do texto, que vai adotar uma postura parecida com a de Marx quando ele analisou os escritos de Adam Smith e David Ricardo. Diz ela: “Freud e Lévi-Strauss são, de certa forma, análogos a Ricardo e Smith: eles não vêem as implicações do que estão dizendo, nem a crítica implícita que seus trabalhos podem gerar, quando submetidos a um olhar feminista. Ainda assim, eles fornecem instrumento conceituais com os quais é possível construir descrições da parte da vida social que é o locus da opressão das mulheres, das minorias sociais e de determinados aspectos da personalidade humana nos indivíduos” (1993, p. 2). Trocando em miúdos, o que ela diz aqui é que Lévi-Strauss e Freud tinham a explicação do “lócus da opressão das mulheres” na mão, mas não se deram conta disso. E se o fizeram, não deram continuidade à análise. É por isso que ela vai, portanto, pegar conceitos de ambos e trabalhá-los de forma a esclarecer melhor o que ela chama de sistema sexo/gênero, que é, por definição, “um conjunto de arranjos através dos quais uma sociedade transforma a sexualidade biológica em produtos da atividade humana, e nas quais estas necessidades sociais transformadas são satisfeitas” (RUBIN, 1993, p. 01).

Para Lévi-Strauss (1908-2009), a troca de mulheres é fundamental para que a cultura perpetue.

É no mínimo injusto com o autor tentar resumir sua obra em um único parágrafo, principalmente quando se fala em Lévi-Strauss. Mas é necessário que deixemos claro aqui qual o ponto atacado por Gayle Rubin.  Lévi-Strauss foi um antropólogo estruturalista bastante preocupado com as questões do parentesco. Em sua obra As Estruturas Elementares do Parentesco (1982), ele destaca que há uma regularidade enorme em diversas sociedades do globo terrestre que proíbe o casamento entre pessoas da mesma organização parental (família, totem, etc), ou seja, o incesto. Por isso, é necessário que os casamentos ocorram entre membros de diferentes famílias. Aliada a esse conceito, temos a noção de dádiva, que Lévi-Strauss toma emprestado do antropólogo francês Marcel Mauss. Para este autor, a dádiva é uma das principais características de sociedades “primitivas”: o dar, o receber e o retribuir são base de toda a organização social. “À teoria da reciprocidade primitiva Lévi-Strauss acrescenta a idéia de que os casamentos são a mais fundamental forma de troca de presentes, na qual as mulheres são os mais preciosos dentre eles” (RUBIN, 1993, p. 9). Poder-se-ia dizer, talvez, que o fato de o tabu do incesto ser universal é devido aos efeitos deletérios (cruzamentos geneticamente próximos que resultam em “filhos” com má formação genética) do mesmo. Entretanto, isso ainda não explica muita coisa, porque apesar de o incesto ser tabu em praticamente todas as sociedades, ele é proibido das mais diversas formas, variando de cultura pra cultura. O tabu do incesto é, portanto e antes de qualquer coisa, segundo Lévi-Strauss, uma garantia de que tais trocas sejam realizadas entre famílias e grupos diferentes.

É a partir daí que Rubin vai dizer que “o tabu do incesto divide o universo da escolha sexual em categorias de parceiros sexuais permitidos e proibidos. Especificamente, através da proibição de uniões dentro de um grupo, ele obriga à troca marital entre grupos” (Ibid.). É importante ter todas essas informações em mente porque, no limite, Lévi-Strauss está nos dizendo (e Rubin está possessa com isso) que a troca de mulheres é fundamental para que exista cultura; é preciso que mulheres (objetos de troca) sejam dadas de presente a homens de outros grupos parentais (sujeitos de troca) para que o sistema de dádiva opere e haja, enfim, uma organização social. E Rubin nos diz: “O parentesco é organização, e organização confere poder. Mas quem é organizado?” (Ibid). Seguindo o pensamento dela, são somente os homens que se beneficiam com esse sistema de trocas, pois ele sempre exige que a pessoa tenha algo pra doar. Se as mulheres são os objetos de troca, ou seja, estão sempre à disposição dos homens para doação, elas não podem dispor de si mesmas para se dar.

É no minimo curioso que um dos principais momentos rituais do casamento em nossa sociedade é, justamente, quando o pai "entrega" a filha ao noivo.

Rubin conclui, nesse sentido, que a “troca das mulheres” é um conceito problemático. Dizer que ela é base da cultura significa dizer que o projeto feminista deve abolir a cultura e colocar no lugar algo que não tenha como base a opressão das mulheres. Obviamente que não é necessário “abolir a cultura” para que haja a emancipação feminina, afinal a cultura é, por definição, inventiva, dinâmica. Em verdade, “a troca de mulheres é uma abreviação para expressar que as relações sociais de um sistema de parentesco especificam que os homens têm certos direitos sobre suas parentes e que as mulheres não têm os mesmos direitos sobre si mesmas ou sobre seus parentes do sexo masculino” (RUBIN, 1993, p. 10). Dessa maneira, Rubin deixa claro que não acredita que o “tráfico de mulheres” seja suficiente para explicar a subordinação feminina.

Isso faz mais sentido ainda quando ela “avança no labirinto” e destaca que a divisão sexual do trabalho existe, mas que a mesma varia enormemente de cultura para cultura. Segundo ela, “existem até exemplos de mulheres caçadoras e guerreiras e de homens realizando as tarefas relativas aos cuidados às crianças” (RUBIN, 1993, p. 11). A divisão sexual do trabalho seria também um tabu que exacerba as diferenças biológicas entre os sexos, criando o gênero. Além disso, Rubin percebe também que o tabu do incesto pressupõe um tabu contra a homossexualidade: a proibição de certas uniões heterossexuais (da mesma família) implica num tabu contra uniões não-heterossexuais, afinal essas últimas não geram filhos, e portanto não são viáveis. “A supressão do componente homossexual da sexualidade humana e, como corolário, a opressão dos homossexuais é, portanto, um produto do mesmo sistema cujas regras e relações oprimem as mulheres” (Ibid).

No próximo post, tentarei concentrar a análise nos comentários que Rubin tece com relação às teorizações de Freud e Lacan. Ela faz isso justamente para tentar compreender como os tabus e mecanismos de arranjos sexuais por Lévi-Strauss são “introjetados” no indivíduo. Até lá!

1 comentário
  1. Diogo O Pereira disse:

    Olá, Theus. Estou redigindo um TCC para apresentar na graduação da Faculdade de Direito do Sul de Minas e será necessário abordar o sistema sexo/gênero. Procurei pela internet a tradução não oficial do livro Traffic in Women, realizada pela SOS Corpo para fins didáticos, porém não achei exemplar, arquivo pdf, nada. Procurei no site do instituto, também não consegui achar! Poderia me indicar um meio de ter acesso à tradução?? Obrigado. PS. Muito bom o conteúdo desse blog!

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