Desconstruindo a oposição entre igualdade e diferença

Após termos discutido, em dois textos consecutivos (este e este), o caso Sears – processo de 1979 do governo norte-americano contra a empresa de vendas Sears em razão de prática de sexismo –, está na hora de (tentar) desatar os nós que se formaram quando contrapomos argumentos que procuram reivindicar uma igualdade de gênero com aqueles pautados pelas diferenças de gênero, sejam elas de qual espécie.

Quando a igualdade é um conceito primordial para que democracia na sociedade.

Não se trata de escolher qual ponto de vista é mais apropriado, porque o dualismo igualdade versus diferença é falso. “De fato”, escreve Joan Scott (2000, p. 209), “a própria antítese esconde a interdependência dos dois termos, já que a igualdade não é a eliminação da diferença, e a diferença não exclui a igualdade.” Para entender essa afirmação, vamos por partes.

Quando se coloca a igualdade como antítese da diferença, estamos diante de um dilema insolúvel. Pois, ao se optar pela “igualdade”, não seremos capazes de reconhecer diferenças; optando-se pela “diferença”, admitir-se-á que a igualdade é inalcançável (SCOTT, 2000). Entretanto, ao negarmos a diferença, negamos o próprio feminismo, o qual não é um movimento sobre qualquer coisa, e sim sobre o feminino (grosso modo), nascendo das mulheres. Há, pelo menos, o reconhecimento de uma diferença. E o que é o feminismo senão um movimento que, em alguma medida, reivindica a igualdade?

Quando a diferença é um conceito imprescindível para o respeito à diversidade.

A saída, portanto, é desconstruir essa oposição, um passo importante do feminismo – ou de qualquer outro movimento. Comecemos pensando o seguinte: quando exigimos a igualdade, nossa intenção não é defender que todos os indivíduos sejam iguais em tudo (que escutem as mesmas músicas, tenham a mesma fé, cultivem as mesmas aspirações etc), o que levaria a uma uniformização característica dos regimes totalitários. Defendemos, porém, que essas diferenças entre os indivíduos não sejam hierarquizadas, não sirvam de base para privilégios e não levem à exclusão de outros grupos.

A primeira conclusão é: a noção política de igualdade depende do reconhecimento da diferença, pois só falamos em “tornar iguais” quando reconhecemos que “existem diferentes”. E, justamente por não objetivarmos acabar com as diferenças, notamos que a antítese de igualdade não é outra senão a desigualdade. Por outro lado, o contrário de diferença é semelhança ou identidade (no sentido de idêntico). Não podemos aspirar que todas as pessoas sejam semelhantes em tudo, mas que haja igualdade entre essas diferentes formas de ser.

O nosso objetivo deve ser, portanto, buscar uma igualdade dentro da diferença. Outra forma de expressar essa ideia está na célebre frase abaixo:

“Lutar pela igualdade sempre que as diferenças nos discrimine, lutar pela diferença sempre que a igualdade nos descaracterize.” (SANTOS, Boaventura de Sousa)

Vemos que podemos apelar tanto para a “diferença” quanto para a “igualdade”, dependendo do contexto. Por exemplo: ao lutar pelo reconhecimento da maternidade e por políticas públicas voltadas para a educação das crianças (creches e pré-escolas) e saúde para as mães (acompanhamento médico), as feministas estão reivindicando uma “diferença”, pois apenas as mulheres serão mães. Por outro lado, quando querem se inserir no mercado de trabalho, elas reivindicam que a maternidade não seja vista como um obstáculo, que não as prejudique. Nesse caso, estão apelando para a “igualdade”. Ambos os casos estão adequados, do ponto de vista político, o que demonstra a fragilidade da dicotomia igualdade versus diferença.

Assim, se o feminismo aceitar jogar dentro desses termos colocados, sua posição torna-se inoperável. Ao se reconhecer que as mulheres não podem ser idênticas aos homens em todos os aspectos, é como se estivessem aceitando a desigualdade. Trata-se de uma premissa conservadora. Por isso, é uma manobra delicada apelar para a diferença, mas ao mesmo tempo necessária.

Há uma distinção, contudo, entre essa formulação teórica e a prática política e militante. Será possível desconstruir essa oposição no contexto da militância? Ou ela ficará restrita ao campo teórico e acadêmico? Muito há para se discutir quando contrapomos dois conceitos tão simples e ao mesmo tempo tão profundos. Acompanhe os próximos textos.

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