Tornando-se nosso gênero: a menina e o mundo dos homens

A feminista francesa Simone de Beauvoir defende em seu "O segundo sexo" que pela experiência familiar, a menina já constata o prestígio do pai, percebe que o mundo pertence aos homens e enquanto ao menino apreende sua superioridade através da rivalidade, a menina espera dele uma valorização.

No último texto da série “Tornando-se nosso gênero”, retratamos a relação entre a menina e os afazeres domésticos no pensamento de Simone de Beauvoir, como os afazeres domésticos aos quais as meninas são destinadas acabam impondo a sua feminilidade, enquanto que a exclusão dos meninos desse mundo, direcionam-nos a sua masculinidade. Por fim, expomos que a autora defende que a menina percebe, através da própria experiência familiar, que o mundo é um mundo dos homens, organizado na forma de patriarcado, onde a mulher cede frente às ordens do marido. O texto de hoje pretende dar continuidade a essa série expositiva do pensamento de Beauvoir, descrevendo a figura do homem para a menina (começando pelo pai), as perspectivas que a autora julga como válidas para seu pensamento.

A vida do pai”, escreve Beauvoir (1980, p. 29), “é cercada de um prestígio misteriosos: as horas que passa em casa, o cômodo em que trabalha, os objetos que os cercam, suas ocupações e manias tem um caráter sagrado”. A autora defende assim que embora a mãe tem um papel “soberano” em casa, tudo é posto a vontade do pai, exige-se, recompensa-se ou pune-se em nome dele e como a sociedade, seria segundo ela, uma sociedade da dominação masculina, gozaria sempre de prestígios, de possibilidades, que se estenderiam até a própria casa (lugar privado), onde seus objetos e costumes teriam um caráter sagrado. Ela argumenta ainda que é através do pai que a família se comunica com o resto do mundo, é ele quem alimenta todo mundo, é o responsável, o chefe, ele é a transcendência, é Deus.

A autora considera que crescendo nesse meio, o menino apreende a sua superioridade através de um sentimento de superioridade, enquanto que a menina só pode esperar uma valorização, se o pai demonstra afetividade pela filha, ela justifica sua existência, “sente-se satisfeita e divinizada”, nas palavras da autora. Daí, segundo ela, é possível que esta mesma menina durante toda a sua vida volte a procurar essa plenitude e paz nos braços do pai, porém, de um forma geral, Beauvoir acredita esse mesmo fascínio é gerado quando em contato com avôs, irmãos mais velhos, tios, pais de colegas, amigos, professores, padres, médicos; Beauvoir (1980, p. 29) escreve: “A consideração comovida que as mulheres adultas testemunham ao Homem bastaria para colocá-lo num pedestal”.

Beauvoir argumenta que através dos mitos, Literatura, da cultura, do mundo sobrenatural, as mulheres são afirmadas como Outro, pensemos, por exemplo, na Eva do cristianismo, na Pandora da mitologia grega, etc.

Quanto a essa hierarquização dos sexos, onde o homem é o dono do mundo, Beauvoir defende que tudo contribui para ser afirmada diante dos olhos da menina: a cultura história, a Literatura, as canções, as lendas, ela afirma que literatura infantil, a mitologia, os contos e narrativas refletem os mitos criados pelo orgulho e desejos dos homens (é Perseu, Hércules, Davi, Aquiles, Lançarote, Duguesclin, Bayard, Napoleão), foram eles que fizeram a Grécia, o Império Romano, a França, descobriram a terra, inventaram instrumentos para explorá-la, foram eles que povoaram o mundo de estátuas, quadros e livros. Ela dirá ainda que através de olhos masculinos que a menina explora o mundo e nele decifra seu destino.

Para finalizar, Beauvoir ainda sustenta que essa percepção do homem como essencial e a mulher como inessencial são ratificadas nos aspectos citados quando, por exemplo, vemos Eva sendo criada não para si mesma e sim como a companheira de Adão, as poucas mulheres da Bíblia cujas ações são notáveis, Pandora abre a caixa das desgraças (a caixa de Pandora), Eva morde a maça e convence Adão a também fazê-lo, perdendo o Paraíso e cometendo o pecado original. Enfim, para a autora, basta a menina ler jornais, ouvir as conversas dos adultos, que ela irá constatar que são os homens que dirigem o mundo, são eles os chefes de Estado, os generais, os exploradores, os músicos, os pintores.

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