É ou não é um movimento social?

Na linguagem do dia a dia, nos referimos a organizações coletivas com fins políticos como movimentos sociais. Seguindo essa linha, ações coletivas tais como o movimento feminista, negro e LGBT são claramente movimentos sociais. E mais: na definição acima, o movimento estudantil, o sindicato dos professores da rede pública ou mesmo o conjunto dos moradores do Pinheirinho, desalojados no início do ano e que até hoje reivindicam melhores condições de moradia, também seriam inseridos na mesma classificação.

Mas, será tão simples assim? A resposta vai depender do que considerarmos um movimento social.

Cooperativa de reciclagem: uma meta e uma organização coletiva são suficientes para se ter um movimento social?

Marisa Blanco (1994) vai diferenciar três formas de organização coletiva: primeiro, os comportamentos coletivos, reconhecidos por ações espontâneas que canalizam a resposta de setores sociais a determinadas fenômenos. Como exemplos, podemos citar a moda de usar calça justa, um boato que se espalha ou uma correria durante um incêndio. São agregados de ações isoladas, cujos sentidos não se dirigem ao conjunto.

Em segundo lugar, há as ações coletivas: ações conjuntas de indivíduos em vista da defesa de interesses comuns. Um abaixo-assinado pelo julgamento do “mensalão”, uma passeata pela descriminalização do aborto ou as reuniões de uma cooperativa de reciclagem são exemplos desse tipo de ação. Aqui, trata-se de algo a mais que apenas uma soma de atitudes individuais: compartilham-se metas dirigidas a um conjunto.

Por fim, temos os tais movimentos sociais. Nesse momento, Blanco (1994) concorda com o sociólogo italiano Alberto Melucci (1997), para quem a construção de uma identidade coletiva é condição sine qua non para a constituição de um movimento social.

Parada do Orgulho LGBT de São Paulo: um movimento social e a construção de uma identidade coletiva, por mais plural que esta seja.

Ora, mas o que seria essa identidade coletiva?

Não é nada mais que um ideal compartilhado o qual leva a uma interação constante entre o sujeito e o grupo no qual ele está inserido. Sem dúvida, há conflitos e tensões, mas também atribuições de sentido a si mesmo e aos demais. Como resultado, tem-se a ruptura com uma forma de pensar, derivada de uma identidade tradicional que se pretende desconstruir.

Eu explico: quando o movimento LGBT se reúne, não são apenas metas que se buscam (legalizar o casamento gay, instaurar uma agenda educacional sobre diversidade sexual etc), é mais do que isso. Lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e afins, reivindicam um reconhecimento na sociedade, um status, uma cidadania. A formação de uma identidade coletiva – tensionada, mas presente! – acontece. É por isso que se usa a expressão “políticas da identidade”.

Movimento estudantil à época do regime militar: quando se constata a inexistência de uma "identidade estudantil" que dê liga ao movimento.

Nessa perspectiva, o movimento estudantil não pode ser considerado um movimento social. Mesmo que exista alguma questão identitária, ela é absolutamente cindida, fragmentada. O mesmo pode se dizer sobre o sindicato dos professores ou a cooperativa de reciclagem. Esses são belos exemplos de ações coletivas, mas nunca de movimento sociais.

Há controvérsias. A teoria queer – para ficar apenas nos “ensaios de gênero” – traz uma proposta pós-identitária, isto é, na qual a construção de uma identidade individual ou coletiva é dispensada. Esse é, pelo menos, a tese de Judith Butler em Problemas de gênero (2010). Para Butler, o movimento feminista poderia muito bem avançar fazendo uso das políticas da coalizão, que serão tratadas mais à frente.

Percebe-se, então, que a delimitação do que é ou não um movimento social é muito relativo, dependendo inteiramente dos referenciais escolhidos (assim como quase tudo na vida, para o bem ou para o mal). Fica a seguinte sugestão: ao notar qualquer tipo de ação coletiva, procure refletir se se trata ou não, e por quê, de um movimento social. O exercício poderá ser muito rico. E confuso.

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