Tornando-se o nosso gênero: problematizando a “experiência”

Beauvoir deixa claro que a “experiência” é fundamental para compreender a generificação infantil do “eu”. Silva e Martinez (2004) consideram que, de fato, a teoria feminista de Beauvoir seja "uma teoria na perspectiva de éticas existencialistas – cada sujeito (pessoa) participa de sua própria transcendência através de seu envolvimento em projetos práticos da vida diária".

Recentemente, em uma série de textos, expomos alguns pontos relacionados com a experiência infantil e a generificação sob o olhar da teoria feminista de Simone de Beauvoir. O nosso objetivo hoje será tentar problematizar algumas análises da autora, principalmente no que se refere ao essencialismo. Em primeiro lugar, vamos partir de um fato bem simples: o peso da palavra “experiência”, a mesma palavra que compõe o nome do volume 2 do seu O segundo sexo, “A experiência vivida”. Beauvoir deixa claro que a “experiência” é fundamental para compreender a generificação infantil do “eu”, “porque a criança (toda criança?) se acha inserida no universo “x” (o “x” aqui não varia?)”, “porque a menina (toda menina?) através da boneca embala e enfeita a si própria (essa significação é sempre una?), preparando-se para o futuro infalível que é a maternidade (maternidade não é destino, mas se torna para o sujeito do feminismo, o mesmo sujeito que o feminismo quer representar e liberta5r — trouble)”, “porque o menino, por meio da dureza dos pais e com a rivalidade do pai (é sempre assim?), apreende sua superioridade”.

Claramente, essa experiência está ligada as relações objetais, típicas do feminismo psicanalítico exposto por Mariane L. Souza e Jacqueline M. Martinez, no artigo Teoria da comunicação feminista: uma explicação semiótico-fenomenológico da teorização acadêmica feminista (2004), onde também a mulher se define em relação com as outras pessoas muito mais do que os homens. Essa última parte fica clara nas leituras de Beauvoir, onde a generificação feminina é muito mais complexa, digamos assim, do que a masculina, uma vez que a menina mantêm muito mais relações objetais e interpessoais do que os meninos: é ela que é favorecida na segunda desmama, senta no colo do pai, da mãe, é mimada; ela se projeta na boneca e brinca de mãe com ela e de filha com a mãe, imitando esta última; ela também é integrada no universo dos afazeres domésticos e se sente “superior” por ajudar e contribuir com o mundo das “pessoas grandes”.

Mariano (2005) considera problemático o sujeito do essencialismo que é concebido como universal e com uma unidade essencial, ela cita Mouffe para quem a ausência "de uma identidade essencial e de uma unidade prévia, no entanto, não impede a construção de múltiplas formas de unidade e de ação comum".

Dessa forma, a autora se guia por essências que estariam contidas nessas experiências, nesses objetos, nessas infâncias que sempre seriam assim, por exemplo, no texto Tornando-se nosso gênero: a criança e seu duplo, a boneca funciona como o duplo da menina, aquele objeto que lhe é dado e no qual ela aliena sua existência, assim, fica explícito que a boneca tem uma essência inata, além dessa essência funcionar em quaisquer universos. De fato, Souza e Martinez (2004, online) nos esclarecem que: “[A teoria de Beauvoir é] uma teoria na perspectiva de éticas existencialistas – cada sujeito (pessoa) participa de sua própria transcendência através de seu envolvimento em projetos práticos da vida diária”, e além disso, “o valor da existência humana reside em um engajamento aberto ao mundo, onde o sujeito, como um agente ativo, transcende os dados imediatos do mundo, envolvendo-se neles e projetando um eu existencial como uma pessoa inserida no mundo”.

Ainda, Silvana Aparecida Mariano em seu artigo O sujeito do feminismo e o pós-estruturalismo (2005), nos alerta que algumas pensadoras feministas apontaram que a classe social baseia-se, como categoria de análise, em um essencialismo do sujeito, concebendo-o como universal no interior de cada classe. Para a autora, a partir de Chantal Mouffe, a crítica ao essencialismo abandona essa categoria de sujeito e o pensa como plural, heterogêneo e contingente, abrindo espaço para realização de projetos de democracia plural e radical. Dessa forma, Mouffe citada por Mariano (2005, p. 498) defende que “A ausência de uma identidade essencial e de uma unidade prévia, no entanto, não impede a construção de múltiplas formas de unidade e de ação comum. Como resultado de criação de pontos nodais, podem existir fixações parciais e podem ser estabelecidas formas precárias de identificação ao redor da categoria ‘mulheres’, que proporcionem a base para uma identidade feminista e uma luta feminista”.

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