Impasses do debate igualdade versus diferença nas discussões feministas

Há debates absolutamente profícuos e sofisticados na teoria feminista contemporânea. Um deles, certamente, é a oposição entre a defesa da igualdade e o reconhecimento de diferenças de gênero. No último texto, trabalhamos na desconstrução da dicotomia igualdade versus diferença, argumentando que ela nos coloca em um beco sem saída. É válido, neste momento, entendermos mais sobre o que está em jogo neste debate.

Para todos aqueles interessados na justiça social, discutir “igualdade” nos parece sempre primordial, visto que a colocamos como uma meta a ser alcançada no âmbito social, econômico e político. E, historicamente, o movimento feminista muito se pautou pela defesa de igualdades de acesso e oportunidades, seja à escolarização, seja no mercado de trabalho, entre mulheres e homens.

"Women's Liberation": a reivindicação de diferenças como plataforma política para a busca da igualdade.

A “diferença”, um tema originariamente da direita conservadora, conforme destaca Antônio Pierucci (1999), passou a integrar também os círculos de debates feministas. À direita sempre interessou reivindicar diferenças, utilizadas como forma de dar legitimidade às desigualdades: a ausência de mulheres nos cargos mais importantes era decorrente de suas “inaptidões naturais de sexo”, a presença expressiva de negros na criminalidade era consequência do “caráter da raça negra”, ou mesmo as dificuldades escolares de crianças pobres provinham de sua “carência cultural”.

Ao reivindicar diferenças, o que as feministas queriam não era cristalizar todas essas desigualdades, muito pelo contrário. O problema é que se criou uma tensão constante entre a construção de uma “mulher” – com suas particularidades – e a necessidade de balançar as próprias categorias mulher e homem. Assim, tensiona-se, de um lado, uma noção de igualdade pautada por cidadania e direitos civis e a defesa de uma diferença que procura entender especificidades das mulheres (CARVALHO, 1999).

É exatamente essa ideia que Joan Scott procura destacar na sua obra de título sugestivo A cidadã paradoxal (2002). Adjetivar as mulheres de “cidadãs paradoxais” deriva, justamente, da tensão existente sobre a necessidade de reafirmar uma diferença para reivindicar a igualdade. Scott, no entanto, não para por aí.

Já está na hora de parar de listar o que é "feminino" e "masculino" e iniciar uma descontrução das ideias fixas e normas de gênero.

Essa mesma autora reforça a importância de se desconstruir a oposição entre igualdade e diferença, conforme mencionado. Scott (2000) argumenta que a afirmação das diferenças diante das categorias de gênero não é uma estratégia suficiente. Para ela, é essencial que se analisem as “categorias fixas de gênero como afirmações normativas que organizam a compreensão cultural da diferença sexual” (p. 220).

Em outras palavras, Scott defende que não basta delimitar o que é o sujeito “mulher” e como esse sujeito pode ser atendido no âmbito das políticas do Estado. Insistir nas diferenças reforça uma tendência a essencializar, a procurar categorias absolutas que se apliquem a todas as mulheres em contraposição aos homens. Dessa forma, se oculta a importante ideia de que os significados sobre as diferenças de gênero são sempre mutáveis, relativos e históricos.

É por isso que Linda Nicholson (2000) chegou a afirmar que o “feminismo da diferença” é, no fundo, um feminismo da homogeneidade, na medida em que operou sobre categorias bipolares apenas com fins de dar visibilidade às mulheres, sem ter dado um passo a mais rumo à crítica daquilo que pertence a um suposto universo masculino ou feminino.

Há saída para esse impasse, sem perder a igualdade do referencial ou deixando de lado o reconhecimento de diferenças? Veremos no próximo texto.

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