O conceito de gênero por Gayle Rubin: o sistema sexo/gênero

Se tivéssemos que escolher apenas uma das qualidades do conceito de gênero, certamente escolheríamos a sua poderosa utilidade na desnaturalização da opressão das mulheres. Para além dos “estudos da mulher”, os estudos de gênero trouxeram ferramentas analíticas importantes, desde a primeira publicação que inaugurou, de vez, a utilização do conceito de gênero pelo feminismo, assinada pela antropóloga estadunidense Gayle Rubin.

Em seu ensaio O Tráfico de Mulheres: Notas sobre a “Economia Política do Sexo”, publicado originalmente em 1975, sem tradução para o português, Rubin expôs uma conceituação que sistematizou ideias já existentes, embora difusas, sobre os usos de gênero na questão das mulheres (PISCITELLI, 2002).

Gayle Rubin (1949-), antropóloga estadunidense, escreveu um ensaio que marcou influência principalmente até o início da década de 90, definindo o que ficou conhecido como "sistema sexo/gênero".

Rubin esteve interessada na gênese da opressão e da subordinação social das mulheres, a qual ela classificou como uma “longa ruminação” da literatura sobre as mulheres, mas não descartou sua importância para a busca de uma sociedade sexualmente igualitária. Para ela, era válido entender a origem da opressão a fim de revertê-la.

Fazendo uma analogia com Marx, para quem um negro só se torna escravo dentro de relações subscritas pela lógica do capital, Rubin se pergunta quais são as relações que transformam uma fêmea da espécie humana em uma mulher domesticada. Reparem que Rubin está trabalhando com a separação entre a esfera da natureza (a fêmea) e da cultura (a mulher domesticada).

Essa dicotomia facilmente se transparece naquilo que a antropóloga chamou de sistema sexo/gênero. Um sistema, um aparato social sistemático, que toma uma matéria-prima (o sexo: a fêmea), transformando-a em um produto (o gênero: a mulher domesticada).

Rubin sistematizou um conceito que contribui para se desnaturalizar a opressão das mulheres, mas não problematizou a suposta natureza do conceito de sexo, mantendo intacta a ideia das fêmeas como matéria-prima.

Nas suas palavras, o sistema sexo/gênero é um conjunto de arranjos através dos quais uma sociedade transforma a sexualidade biológica em produtos da atividade humana, e na qual estas necessidades sexuais transformadas são satisfeitas (RUBIN, 1975).

Ao entender o sexo como uma matéria-prima, Rubin isenta-o de questionamentos a respeito do seu caráter de construído sócio-culturalmente. Sexo fica salvaguardado na sua própria “natureza”. Gênero, pelo contrário, fica aberto à mudança histórica e, consequentemente, à agenda de lutas feministas (HENNING, 2008).

Assim, o ensaio de Rubin mostrou-se bastante relevante para dar um passo rumo à desnaturalização das desigualdades de gênero, o que justifica a sua indiscutível influência, principalmente até o início da década de 1990, quando novas acepções ganharam mais força.

É evidente que a dicotomia sexo x gênero, tão discutida neste blog, traz uma série de limitações à compreensão das relações de gênero, o que nos demanda ler as contribuições de outras autoras. Para saber mais sobre Gayle Rubin, acompanhe os textos de Matheus França aqui no Ensaios de Gênero, começando por este texto. Para ler outras conceituações de gênero, clique aqui para acessar o texto principal da série.

6 comentários
  1. Laís Costa disse:

    Não recordo como cheguei ao blog mas posso dizer com toda sinceridade que foi uma das melhores “descobertas” desse ano.
    Os textos são ótimos!
    Sou jornalista e mestranda em História na UFMT. Estudo um periódico feminino aqui de Cuiabá.
    Esse comentário é para agradecer a dedicação de vocês ao blog e a iniciativa de compartilhar suas leituras e interpretações sobre gênero.
    Um abraço,
    Laís

    • Oi Laís,

      É muito gratificante ouvir um elogio desses. Bom saber que nosso blog tem sido útil. Espero que você possa aparecer mais vezes e deixar mais comentários. Gostaria de saber mais sobre o seu mestrado! Você está estudando as representações das mulheres nesta revista de Cuiabá?

      Muito obrigado!

      • Laís Costa disse:

        Eu é que tenho que agradecer e não vocês!
        Eu estudo a revista “A Violeta”, essencialmente feminina, que nasceu a partir de um grêmio literário formado por professoras e mulheres “das letras”, e circulou entre 1916 e 1950, aproximadamente. Apesar de ter caráter literário, a revista veiculou uma infinidade de temas durante esse tempo. Eu estudo o feminismo e o voto feminino nas crônicas publicadas.
        Pode deixar que voltarei para comentar os outros posts!
        Um abraço,
        Laís

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