Sexo e sexualidade: o centro de atividade política e econômica dos negócios do novo milênio

“Nasci em 1970, momento em que a economia automobilística, que até então parecia estar no seu ponto máximo de auge, começava a declinar”. Assim, Beatriz Preciado começa o capítulo 2 de seu livro Testo Yonqui (2008), não bem um livro, como ela sugere, mais um protocolo de suas intoxicações voluntárias feitas com testosterona sintética, um ensaio corporal, uma ficção (autopolítica), ou ainda, uma autoteoria. “Meu pai”, ela continua, “tinha a primeira e mais importante garagem de Burgos, uma vila gótica de sacerdotes e militares em que Franco instalou a nova capital simbólica da Espanha fascista”.

A garagem de carros do pai de Preciado (2008), segundo a própria autora, que se chamava Garaje Central, situado na rua General Mola, se guardava os carros mais caros da cidade, dos ricos e poderosos. Ela se recorda que na sua casa não havia livros, apenas carros e cita os vários tipos de carros, desde carros novos para aquela época como à coleção antiga do pai. O pai, entretanto, investiu em uma industria de fabricação de tijolos, que veio abaixo em 1975 juntamente com a crise do petróleo. “No final”, relembra Preciado (2008, p. 25, tradução minha), “ele acabou vendendo sua coleção de carros para pagar a quebra da fábrica”.

"Testo Yonqui", ensaio corporal de Beatriz Preciado, no qual a autora narra as auto-experiências da ingestão voluntária de testosterona.

Para a autora, o interessante dessa época é o que conhecemos como fordismo, onde “a indústria automobilística sintetiza e define um modo específico de produção e de consumo, uma temporalização taylorizante da vida, uma estética policroma e lisa do objeto inanimado, uma forma de pensar o espaço anterior e de habitar a cidade, um agenciamento conflituoso do corpo e da maquina, um modo descontínuo de desejar e de resistir” (PRECIADO, 2008, p. 26, tradução minha). Segundo ela, os anos que seguiram a crise energética e a decadência das cadeias de montagem, foram buscados outros setores portadores das transformações da economia global, onde se fala, portanto, das indústrias bioquímicas, eletrônicas, informáticas ou de comunicação como os novos suportes industrias do capitalismo. Entretanto, ainda era insuficiente explicar a produção do valor e da vida nessa nova sociedade.

Dessa forma, para Preciado (2008), parece possível traçar uma cronologia dessas transformações da produção industrial do último século a partir de uma perspectiva que leve em conta o negócio do novo milênio, isto é, a gestão política e técnica do corpo, do sexo e da sexualidade — uma análise sexopolítica da economia mundial. Mas, a própria Preciado coloca que perguntaremos: como o sexo e a sexualidade se converteram no centro da atividade política e econômica? Basta acompanhá-la!

Em primeiro lugar, Preciado (2008) argumenta que durante o período da Guerra Fria, os Estados Unidos investiram, mais do que qualquer outro país na história, na investigação científica sobre o sexo e a sexualidade. Assim, vemos o aparecimento de um terceiro tipo de capitalismo que não se caracteriza apenas pela transformação do sexo em objeto de gestão política da vida, mas, segundo a autora, porque esta nova gestão envolve as novas dinâmicas do tecnocapitalismo avançado. John Money inventa em 1947 o termo “gênero”, para diferenciar do “sexo” e sustentar que é possível modificar o gênero de cada um até os dezoito anos; também antes, em 1946, é inventada a primeira pílula antibaby a base de estrógenos sintéticos, convertendo este na molécula farmacêutica na mais utilizada de toda a história da humanidade. O lifting facial e outras intervenções de cirurgias estéticas se convertem em técnicas de consumo de massa nos Estados Unidos e Europa; a “des-circuncisão” do pênis se tornou uma das operações de cirurgia estéticas mais praticadas nos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial, frente aos signos corporais estabelecidos pelo nazismo ou pelas retóricas racistas. O uso de plástico se generaliza para a fabricação de objetos da vida cotidiana, definindo condições materiais de uma transformação ecológica em grande escala, a destruição dos recursos energéticos primitivos do planeta, consumo rápido e alta contaminação.

Para Beatriz Preciado (1970 - ), é possível traçar uma cronologia dessas transformações da produção industrial do último século a partir de uma perspectiva que leve em conta o negócio do novo milênio, isto é, a gestão política e técnica do corpo, do sexo e da sexualidade — uma análise sexopolítica da economia mundial.

Em 1953, o soldado americano George W. Jorgensen realiza a primeira cirurgia transexual médica; Hugh Hefner cria a Playboy; em 1958 é realizada a primeira faloplastia; os laboratórios Eli Lilly comercializam Secobarbital (mais conhecido como “pílula vermelha” ou doll), um barbitúrico com propriedades anestésicas, sedativas e hipnóticas, se convertendo posteriormente em uma das drogas da cultura underground rock dos anos sessenta. Em 1966, são inventados os primeiros anti-depressivos que agem diretamente na síntese do neurotransmissor serotonina, o mais conhecido será o Prozac, fabricado também pelos laboratórios Eli Lilly. Em 1969, como parte de uma programa de investigação militar estadunidense, é criada a primeira “rede de redes” de computadores interconectados capazes de transmitir informações, dando lugar, mais tarde, a Internet.

No dia 18 de setembro de 1970, continua a autora, morre Jimi Hendrix depois de ingerir um coquetel farmacêutico que continha ao menos nove pílulas de Secobarbital; em 1971, o Reino Unido estabelece a Lei do Abuso de Drogas, regulando o consumo e tráfico de substâncias psicotrópicas; em 1972, Gerard Damiano realiza Deep Throat (Garganta profunda) o primeiro filme pornô comercializado publicamente nos Estados Unidos, se transformando no filme mais visto de todos os tempos, gerando benéficos de mais de seiscentos milhões de dólares e fazendo com que a produção cinematográfica pornô, passasse de trinta filmagens clandestinas em 1950 a duas mil e quinhentas em 1970.

Em 1977, o estado de Oklahoma introduz a primeira injeção letal a base de um composto também barbitúrico, para aplicar a pena de morte; em 1983, a transexualidade é incluída no DSM como doença mental; durante os anos 80 são descobertos e comercializados novos hormônios como o hormônio do crescimento, substâncias anabolizantes que serão utilizadas legal e ilegalmente nos esportes. Em 1988 é aprovada a utilização farmacológica de Sildenafil, comercializado como Viagra pelos laboratórios Pfizer, para tratar a “disfunção erétil” do pênis.

“Estamos em frente a um novo tipo de capitalismo quente, psicotrópico e punk”, conclui Preciado (2008), uma vez que todas essas transformações recentes apontam para a articulação de novos dispositivos microprotéticos de controle e de subjetividade com novas técnicas biomoleculares e mediatricas. Assim, nosso próximo texto terá como objetivo justamente descrever as características, as relações de poder que estão implicadas nessa nova era que a autora denominou como era farmacopornográfica. Aliás, o que seria “farmacopornografia”?

1 comentário
  1. Oi Lucas,

    Muito interessante esse texto. Essa cronologia da Preciado é bem legal mesmo.

    É fato que o corpo ocupa um lugar central no mundo (não diria que é O Centro, mas é central). Como se diz, o corpo é um campo de batalha. Acho que o corpo sempre foi importante. Basta pensarmos no culto ao corpo e ao sexo de civilizações antigas, dentro os habitantes de Pompeia, os Gregos. Na Renascença, temos quados exaltando o corpo, a beleza, a estética feminina. O corpo acompanha a história da humanidade e foi protagonista, seja na ciência, na religião ou na política. No que tange à sexualidade, então, não há dúvidas.

    Só um adendo: quando você falou do Garganta Profunda, é bom lembrar que a explosão de filmes pornográficos deve ter sido na década de 1970, e não em 1970, porque o Garganta Profunda só veio em 1972 e, se ele foi tão importante para essa produção, só poderia ter vindo antes, né? Dê uma relida lá para entender o meu ponto.

    Abraços e parabéns pelo texto!

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