Gayle Rubin e o “The Traffic In Women”: a psicanálise, o phallus e o sistema sexo/gênero

Rubin (1949-) analisa os esquemas teóricos de Freud e Lacan para entender (e depois criticar) como se dá a introjeção do sistema sexo/gênero no indivíduo.

Dando continuidade à série dedicada à análise do ensaio “The Traffic in Women: notes of the ‘political economy’ of Sex”, de Gayle Rubin (os outros posts podem ser acessados clicando aqui e aqui), vamos agora tentar entender, segundo Rubin (1993, p. 13), quais os “mecanismos pelos quais as crianças são impregnadas com as convenções de sexo e de gênero”. Para tanto, ela analisa algumas das teorizações dos psicanalistas Sigmund Freud (1835-1930) e Jacques Lacan (1901-1981). Para a autora, a psicanálise é uma teoria sobre a reprodução das normas e regras do parentesco.

Rubin inicia o texto falando sobre como se deu a inserção das teorizações dentro da psicanálise sobre o “desenvolvimento feminino”. Segundo ela, até os anos 20, o movimento psicanalítico não havia problematizado uma teoria diferente daquela do Complexo de Electra – no qual a “feminilidade” era encarada como um espelho do Complexo de Édipo para os homens, ou seja, a menina amava o pai, mas desistia dele por medo de uma vingança materna. Entretanto, após a “descoberta” da fase pré-edipiana nas mulheres, Freud (dentro de um debate mais amplo envolvendo vários outros psicanalistas) teve a possibilidade de formular a teoria psicanalítica clássica da feminilidade. Na fase pré-edipiana, as crianças dos dois sexos eram descritas como bissexuais, tinham o “completo espectro de atitudes libidinais, ativas e passivas” (RUBIN, 1993, p. 14), e encaravam a mãe como o objeto de desejo.

Em linhas gerais, Jacques Lacan entende que o phallus é o sistema de significação que se dá em torno do órgão genital masculino, o pênis.

Nesse sentido, o desenvolvimento da mulher não poderia mais ser visto como um simples reflexo da biologia. Isso trouxe uma série de consequências, afinal tornava-se necessário explicar como a “criança mulher” deixava de desejar a mãe e passava a “adequar” seu desejo heterossexual. Diz Rubin (1993): “É na sua explicação da aquisição da ‘feminilidade’ que Freud emprega os conceitos de inveja do pênis e de castração que enfureceram as feministas desde que ele os introduziu. A menina afasta-se da mãe e reprime os elementos ‘masculinos’ da sua libido como resultado do seu reconhecimento de que ela é castrada. Ela compara seu pequeno clitóris ao pênis maior, e diante da evidente capacidade superior deste para satisfazer a mãe, se enreda na inveja do pênis, e num sentimento de inferioridade ela desiste da sua luta pela mãe e assume uma posição feminina passiva frente ao pai” (p. 15). Isso se torna ainda mais complicado quando pensamos que se impõe, nesse sistema, a obrigação da heterossexualidade. A mulher não pode possuir outra mulher, afinal não possui os “códigos” sociais para tanto. Lacan será um dos teóricos que vai problematizar a questão dos significados sociais e culturais impostos sobre o pênis, que vão legitimar, no limite, o homem como sujeito da troca e a mulher como objeto da troca no sistema de parentesco.

Uma das conclusões de Freud é que a mulher tem três caminhos possíveis paraa definição de sua sexualidade: se torna ou assexuada (louca e reprimida), ou lésbica (revoltada e narcisista), ou submissa (atingindo a normalidade).

Lacan vai colocar, então, que a psicanálise é o “estudo dos rastros fincados na psique dos indivíduos como resultado de sua conscrição dentro dos sistemas de parentesco” (RUBIN, 1993, p. 15). Antes da fase edipiana, cada criança possui todas as possibilidades sexuais, pois sua sexualidade está ainda incompleta e desestruturada. Segundo Lacan, a crise edipiana se inicia quando a criança aprende quais são as regras sexuais da sociedade que estão latentes na linguagem, designando a família e os parentes, e especialmente quando ela compreende o seu lugar dentro desse sistema. A crise se resolve quando a criança aceita esse lugar, mas, mesmo quando ela o recusa, ela ou ele não pode escapar do conhecimento do mesmo. Para Lacan, a ausência ou a presença do phallus exarceba as diferenças entre os dois status sexuais, que são o “homem” e a “mulher”. Em tempo, é preciso definir o conceito de phallus segundo este autor. Para ele, o phallus é o conjunto de significados que são conferidos ao pênis. “A diferenciação entre phallus e pênis, na terminologia psicanalítica francesa contemporânea, enfatiza a idéia de que o pênis não poderia e tampouco desempenha o papel que lhe é atribuído na terminologia clássica do complexo de castração” (RUBIN, 1993, p. 16). A “alternativa” (mil aspas) apresentada para a criança, portanto, é a alternativa entre ter ou não ter o phallus. E essa presença ou não traz um significado de poder, de dominação dos homens sobre as mulheres, e a “inveja do pênis” por parte das mulheres é o reconhecimento disso.

Entretanto, Rubin vai além. Ela diz que enquanto os homens tiverem direito sobre as mulheres que elas não têm sobre si mesmas, o phallus será o divisor de águas entre o sujeito da troca e o objeto da troca. Por isso, o phallus seria mais do que uma simples diferenciação entre os sexos, mas sim a personificação do status de “macho”, ao qual os homens têm o direito, entre outras coisas, a uma mulher. Seguindo a linha de pensamento de Rubin, é preciso mencionar que Freud diz que existem três caminhos para a mulher sair do complexo edipiano: ou ela enlouquece, reprime sua sexualidade e torna-se assexuada; ou pode protestar, apegando-se ao seu desejo, e tornar-se homossexual; ou ela pode aceitar o contrato sexual e atingir a “normalidade”.

Como "revolucionar as regras do parentesco"? De que forma "libertaremos a pessoa humana da camisa de força do gênero"?

Por fim, é preciso entender qual a crítica que Rubin faz dessas teorizações. Ela diz que “A precisão com a qual Freud e Lévi-Strauss se combinam é tocante. Os sistemas de parentesco requerem uma divisão dos sexos. A fase edipiada divide os sexos. Os sistemas de parentesco incluem conjuntos de regras governando a sexualidade. A crise edipiana é a assimilação dessas regras e tabus. A heterossexualidade obrigatória é o produto do parentesco. A fase edipiana constitui o desejo heterossexual. O parentesco baseia-se numa diferença radical entre os direitos dos homens e das mulheres. O complexo edipiano confere direitos masculinos ao menino, e obriga a menina a contentar-se com seus direitos diminuídos” (RUBIN, 1993, p. 20). Segundo ela, nosso sistema sexo/gênero ainda tem como base os princípios que Leví-Strauss levantou em sua obra, que por sua vez sugere, indiretamente, que o movimento feminista deve tentar resolver a crise edipiana dentro desse nosso sistema de sexo/gênero. Por isso, segundo Rubin, é preciso que se faça uma revolução nas regras de parentesco e, consequentemente, no nosso sistema de sexo/gênero. Para ela, “uma revolução profunda libertaria mais do que as mulheres. Ela libertaria formas de expressão sexual, e libertaria a personalidade humana da camisa de força do gênero” (RUBIN, 1993, p. 21). As conclusões da autora, bem como algumas de minhas considerações finais serão abordadas no próximo e último post da série sobre o “The Traffic In Women”. Até lá!

2 comentários
  1. Muito didático!

    Gostei do texto, Matheus. Está bem bom mesmo. Mas, sei lá, não estou muito afim de comentar esse ponto porque a Gayle Rubin já faz isso muito bem no seu texto, colocando alguns limites na psicanálise.

    Só uma correção: na última citação, a uma “fase edipiada”, rs. Olha o ato falho! rs

    Abraços!

  2. Obrigado, Adriano. “Fase edipiada” foi uma piada, mesmo, rs. Vou consertar!

    Abraços!

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