Gayle Rubin e o “Traffic In Women”: conclusões (?) e debates

Por mais datado que o ensaio "The Traffic In Women" esteja, ele continuará sendo, por muito tempo, uma referência ao se falar em gênero.

Finalizando a série que trata do ensaio de Gayle Rubin intitulado “The Traffic In Women: notes of the ‘political economy’ of Sex” (os outros posts podem ser acessados clicando aqui, aqui e aqui), eu gostaria de ressaltar algumas conclusões de Rubin e expor algumas críticas atribuídas a esse ensaio.

Rubin coloca, ao final do texto, que ela tentou ali construir uma teoria da opressão das mulheres tendo como base conceitos da antropologia estrutural e da psicanálise, mas observa que o perigo desse empreendimento é o de justamente trazer consigo o sexismo dentro da tradição das quais os teóricos analisados fazem parte. Por isso, ela expõe argumentos para justificar a assimilação de Freud e Lévi-Strauss dentro da teoria feminista. O primeiro é que nenhum dos dois questionam o “sexismo endêmico” presente na obra de ambos, e por isso as questões colocadas por ela em seu ensaio são extremamente óbvias e necessárias. O segundo é que “seus trabalhos nos permitem isolar sexo e gênero de ‘modos de produção’, e contrapor-nos a uma certa tendência a explicar a opressão de sexo como refletindo forças econômicas” (RUBIN, 1993, p. 22). Para ela, é preciso uma mudança no contexto social) que seja mais profunda do que as feministas socialistas estavam propondo.

Outra conclusão de Rubin é que se faz necessária uma análise marxiana dos sistemas de sexo/gênero, pois eles “não são emanações a-hitóricas da mente humana; eles são produtos da atividade humana histórica” (RUBIN, 1993, p. 23). Segundo ela, há uma economia política dentro dos sistemas de sexo/gênero nas entrelinhas do conceito de “troca de mulheres”, e que, portanto, existem várias outras questões sobre um sistema de casamento e parentesco além de saber se ele troca ou não as mulheres.

Para pensar: de que forma "The Traffic In Women" colaborou com a teoria feminista?

Pois bem. A publicação do ensaio “The Traffic In Women” foi, sem dúvida alguma, um marco nos estudos sobre o conceito de gênero. Entretanto, existem algumas limitações nesse texto, especialmente por causa do contexto em que Gayle Rubin o escreveu. Em uma entrevista realizada pela filósofa Judith Butler (1956-), Rubin deixa isso bem claro. Ao ser questionada pela visão utópica do ensaio, a antropóloga estadunidense diz: “Bem, éramos todas bastante utópicas naquela época. Isso foi entre 1969 e 1974. Eu era jovem e otimista quanto à mudança social. Naquela época havia uma expectativa comum de que a utopia estava bem próxima” (BUTLER & RUBIN, 2003). Entretanto, além do fato de o ensaio ser, de certa forma, “utópico”, outras críticas foram feitas a ele. Outro exemplo pode ser colocado através da obra de Linda Nicholson. A autora, em Interpretando o Gênero (2000), empenhada em criticar as teorizações sobre gênero que sempre evocavam o sexo para tratar do mesmo, diz que “(…) o conceito de ‘gênero’ foi introduzido para suplementar o de ‘sexo’, não para substituí-lo. Mais do que isso, não só o ‘gênero’ não era visto como substituto de ‘sexo’, como também ‘sexo’ parecia essencial à elaboração do próprio conceito de ‘gênero’” (p. 11). Logo em seguida, ela exemplifica isso com o conceito de gênero segundo Rubin.

Por ter sido um marco na teoria feminista ao utilizar, pela primeira vez, o conceito de gênero para tentar explicar a subordinação das mulheres, o ensaio de Rubin, de certa forma, se “desatualizou”. Digo isso relacionado à conceituação de gênero e aos paradigmas e metodologias empregados na análise da autora. Várias outras formulações de gênero vieram depois (para aprofundar nesse aspecto, acompanhe a série do Adriano sobre conceituações de gênero clicando aqui), e a própria Rubin, na década seguinte, mudou sua visão sobre o gênero. Essa mudança foi causada, especialmente, pela sua leitura da História da Sexualidade de Michel Foucault (1926-1984), que causou um impacto muito grande nos estudos sobre gênero, sexualidade e o próprio feminismo. Em conseqüência disso, Rubin publicou, na década de 80, um outro artigo emblemático intitulado “Thinking Sex: Notes for a Radical Theory of the Politics of Sexuality” (1984), que poderá ser tema de análise em um momento futuro.

O ensaio "Thinking Sex" foi uma interessante publicação de Rubin, inspirada fortemente nas ideias de Michel Foucault na "História da Sexualidade".

Enfim, o objetivo desse último post não é, de forma alguma, encerrar o debate sobre as conclusões de Rubin em “Traffic In Women”, e muito menos dar conta de todas as críticas direcionadas a esse ensaio. Muito pelo contrário: convido a todas e a todos a comentarem nesse post, para que o debate fique mais interessante e possa ter mais vozes e se torne ainda mais rico. Obrigado!

4 comentários
    • Olá Cleverson,

      Muito obrigado! Comentários como os seus nos motivam a escrever ainda mais.

      Abraço!

  1. Krislane disse:

    pq vcs não criam uma página no face? acho que facilitaria a comunicação! bj

  2. Gabriella disse:

    Obrigada pela sequência dos post, foram muito esclarecedores! A leitura de Rubin é de fato muito densa e esses texto me ajudaram bastante.

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