A era farmacopornográfica

Para Beatriz Preciado, a transformação de conceitos como psiquismo, masculinidade, feminilidade, heterossexualidade, homossexualidade, entre outros, em realidades tangíveis, em substâncias químicas, em moléculas comercializáveis, em bens de troca gestionados por multinacionais farmacêuticas, são processos que se constituíram durante a materialização da era farmacopornográfica.

No texto anterior, problematizamos, através da teoria pós-estruturalista e queer da filósofa Beatriz Preciado, as transformações da produção industrial do último século e percebendo uma mudança progressiva para o negócio do novo milênio: a gestão política e técnica do corpo, do sexo e da sexualidade. A autora argumenta que essa transição constitui um terceiro tipo de capitalismo, depois dos regimes escravistas e industrial, situando-se em torno dos anos 70 e estabelecendo um novo tipo de “governo dos vivos” (sentido foucaultiano), que emerge das ruínas urbanas, corporais, psíquicas e ecológicas da Segunda Guerra Mundial. Para, de fato, comprovar sua análise, Preciado traça uma cronologia sexopolítica da economia mundial, expondo uma série de fatos que encadearam essa era a qual a autora denomina como a era farmacopornográfica.

Fármaco, segundo Preciado (2008) em seu Testo Yonqui, faz referências aos processos de governo biomolecular e porno aos processos de governo semiótico-técnico da subjetividade sexual e dos processos dos quais a pílula anticoncepcional e a Playboy são paradigmáticos. A farmapornografia constitui, segundo a autora, um novo regime pós-industrial, global e mediátrico, no qual, durante sua materialização, no século XX, a psicologia, a sexologia e endocrinologia estabelecem sua autoridade material, transformando conceitos como o de psiquismo, de libido, de consciência, de feminilidade e masculinidade, heterossexualidade e homossexualidade em realidades tangíveis, em substâncias químicas, moléculas comercializáveis, corpos, biótipos humanos, em bens de troca de gestão por multinacionais farmacêuticas.

A tecnociência contemporânea, segundo Preciado, no âmbito do regime farmacopornográfico, transforma nossa depressão em Prozac, nossa masculinidade em testosterona, nossa ereção em Viagra, entre outros, graças ao que se chama "autoridade material".

Para Preciado (2008), autoridade material é um ponto imprescindível para compreender a organização da era farmacopornográfica, uma vez que é graças a autoridade material que a ciência ocupou o lugar hegemônico na nossa cultura, nos nossos discursos, pela sua capacidade para inventar e produzir artefatos vivos. “Por isso”, ela escreve na página 33, tradução nossa, “a ciência é a nova religião da modernidade. Porque tem a capacidade de criar, e não simplesmente de descrever, a realidade”. Assim, no êxito da tecnociência contemporânea, nossa depressão se transforma em Prozac, a masculinidade em testosterona, a ereção em Viagra, a fertilidade/esterilidade em pílula, a AIDS em triterapia, sem ser possível determinar quem vem antes, a depressão ou o Prozac? o Viagra ou a ereção? a masculinidade ou a testosterona? a pílula anticoncepcional ou a maternidade? a AIDS ou a triterapia?

Assim, segundo a autora, a sociedade contemporânea está habitada por subjetividades tóxico-pornográficas, aquelas subjetividades que são definidas pela substância (ou substâncias) que dominam os metabolismos, pelas próteses cibernéticas, pelos desejos farmacopornográficos que orientam nossas ações, e no âmbito dessas subjetividades tóxico-pornográficas estão os sujeitos Prozac, sujeitos cortisona, sujeitos silicone, sujeitos ritalina, sujeitos heterovagináveis (heterovaginables), sujeitos doblepenetración, sujeitos Viagra, etc. Preciado (2008) conclui que não existe nada o que desvendar na natureza, não existe um secreto escondido, já que nós vivemos na hipermodernidade punk e a questão não é revelar a verdade oculta na natureza, senão explicitar os processos culturais, políticos e técnicos através dos quais o corpo como artefato adquire um estatuto natural. Não existe o que desvendar, argumenta a autora, no sexo nem na identidade sexual, porque a verdade do sexo não é um desvendamento, é um sex design.

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