Masculinidades: múltiplas e hierarquizadas

Não é preciso fazer uso de nenhuma análise sofisticada para concluir que há variadas formas de ser homem (e de ser mulher) e que essas podem ser mais ou menos valorizadas na sociedade, em determinados momentos ou contextos.

Pensemos nos homens executivos, nos atletas, nos gays, nos interioranos, nos transexuais, nos intelectuais, nos traficantes, nos modelos, nos deficientes, nos engajados, nos cristãos etc. E, dentro desses, podemos abrir outras abas e ilustrar, por exemplo, as diferenças entre os executivos de microempresas ou os detentores de monopólios internacionais. Estamos diante de uma imensa variedade de homens, que não só se diferenciam pelas suas peculiaridades, como também pela sua legitimidade, autoridade e poder na sociedade.

Raewyn Connell (1944-), o principal nome da atualidade nos estudos de homens e masculinidades.

Foi com o intuito de desenvolver uma teoria social sobre esse ponto de vista que a socióloga australiana Raewyn Connell (2005) trabalhou intensamente com o conceito de masculinidade desde as últimas décadas. Na sua conceituação, desenvolvida preliminarmente em 1987 com a obra Gender and Power, Connell desenvolve a ideia de que a multiplicidade de masculinidades está imbricada a relações de poder.

Alguns anos mais tarde, em 1995, Connell publica a primeira edição de sua principal obra, Masculinities, na qual se debruça sobre a construção social da masculinidade, bem como sua expressão na sociedade. Ainda, a socióloga desenvolve com mais detalhe o conceito de masculinidade hegemônica, bem como de outras masculinidades alternativas.

Na sua conceituação, a masculinidade hegemônica é um conjunto de práticas exercidas tanto por homens quanto mulheres que respondem ao problema da legitimação do patriarcado, isto é, que garante, tanto em nível local quanto global, a contínua subordinação das mulheres pelos homens.

O termo “hegemonia”, emprestado de Antonio Gramsci, não designa a masculinidade da maioria dos homens, e sim aquela soberana na sociedade. Diferencia-se da noção de dominação por não fazer uso, necessariamente, da força bruta. Uma hegemonia de fato efetiva depende de certo consenso ou participação dos grupos subalternos (CONNELL & MESSERSCHMIDT, 2005).

Os modelos como representações de formas hegemônicas de masculinidade.

Se estamos falando de uma masculinidade hegemônica, é necessário descrever as masculinidades não hegemônicas, ou seja, que não adquirem a rubrica da legitimação do patriarcado e que muitas vezes caminham à reboque da primeira. É o caso das masculinidades cúmplices, que não exercem uma hegemonia, mas também não a questionam, ou das masculinidades subordinadas, que são violadas ou marginalizadas em função da forma hegemônica de masculinidade.

Como exemplo dessas, podemos citar os homens gays, os quais confrontam os pressupostos heteronormativos da forma dominante de ser homem, ou dos excluídos, à margem da rede de produção-consumo da sociedade capitalista. Entretanto, mesmo esses não praticam uma forma unívoca de masculinidade: há sempre sobreposições e contradições.

É muito importante deixar claro que esses não se tratam de padrões fixos e atemporais. Muito pelo contrário, o jogo entre masculinidades é absolutamente dinâmico. Masculinidades são práticas, e não identidades. Podem ser exercidos por quaisquer pessoas, em diferentes contextos, não havendo sentido nenhum em classificar cada homem dentro de um tipo específico de masculinidade. Esses conceitos são mais relevantes para se enxergar processos do que categorias bem constituídas e delimitadas.

Muito poderia ser falado sobre o conceito de masculinidade – e muito ainda se falará neste blog – mas termino esse texto indicando outro no qual desenvolvo a questão da hegemonia no âmbito da globalização e neoliberalismo, a partir dos estudos da Connell, que pode ser acessado clicando aqui.

2 comentários
  1. Oi, Adriano obrigado pelo post! Estava aguardando-o com certa ansiedade. Vou procurar ler mais a respeito da sua frase “Masculinidades são práticas, e não identidades”. Um abraço

    • Oi Leandro,

      Espero que tenha sido útil. É um tema vasto, e por isso tive que fazer um grande recorte. Felizmente, você encontrou o blog de um Connell-lover, então os trabalhos da australiana aparecerão bastante aqui ainda, risos.

      A respeito do ponto que você levantou. Sim, isso é importante de ser frisado. Quando tratamos as masculinidades como identidades, corremos o risco de essencializá-las. Engessamos o sujeito, se dissemos que um determinado homem possui uma identidade de masculinidade hegemônica. E se ele for uma homem burguês, branco, detentor de uma corporação, e gay? Será que daria para falar que ele é exemplo de masculinidade hegemônica? Talvez por ser branco, burguês e capitalista, sim, porque ele certamente ajuda a ditar o que é ser homem naquela sociedade, mas a sua homossexualidade é uma fronta a um modelo tradicional de masculinidade. É por isso que não nos referimos às pessoas como pertencentes a uma identidade de tal masculinidade.

      As masculinidades, se entendidas como práticas, nos ajudam a pensar nas incoerências dentro dos sujeitos. E também nos ajuda a pensar que as próprias mulheres podem expressar masculinidades, o que seria impossível se a masculinidade fosse uma identidade (a menos que fosse aquela mulher bem “masculinizada”). Quando nos referimos a práticas, estamos falando daquilo que as pessoas efetivamente fazem: beijar outras pessoas, beber, dirigir, vestir terno, praticar esportes radicais etc. Tudo isso são práticas que podem estar relacionadas a posições dos homens e das mulheres nas relações de gênero. Por exemplo, até pode acontecer por acaso, mas geralmente quem se arrebenta nos postes depois de ter dirigido bêbado são jovens do sexo masculino de classe média, que possuem carro. Isso não nos diz algo sobre sua masculinidade? Para mim, diz uma coisa clara: que “ser homem”, naquele contexto, envolve a coragem e o risco de beber e dirigir. Quando vemos um homem assobiando para uma mulher na rua, é outra prática que nos informa sobre a masculinidade.

      É mais ou menos por aí: uma noção bem fluida e variável, que nos permite relacionar práticas do cotidiano com ser homem ou mulher, além de outras utilidades. Está mais claro?

      A Connell trabalha isso bem no “Masculinities” (uma obra difícil de achar, mas que vale muito a pena!).

      Abraços!

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