O conceito de gênero por Judith Butler: a questão da performatividade

Ainda que se reconheça a importância das construções sociais e culturais na constituição do mundo e dos sujeitos tal como os conhecemos, não são bem sucedidas todas as tentativas de ilustrar o caráter social de estruturas que parecem tão naturalizadas: o corpo, o sexo, as diferenças entre machos e fêmeas etc. Com grande força e ousadia, a filósofa estadunidense Judith Butler traz, de vez, a biologia para o campo do social, motivo pelo qual se tornou um dos principais nomes da atualidade nos estudos de gênero.

Butler, em sua obra Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade (2010) publicada originalmente em 1990, partilha de certos referenciais foucaultianos e se pergunta se o “sexo” teria uma história ou se é uma estrutura dada, isenta de questionamentos em vista de sua indiscutível materialidade. Butler discorda da ideia de que só poderíamos fazer teoria social sobre o gênero, enquanto o sexo pertenceria ao corpo e à natureza.

Judith Butler (1956-), filósofa estadunidense, debruçou-se sobre o desmonte de heteronormatividade através de atos subversivos; tem se tornado, portanto, um grande nome dos estudos queer e de transexuais/travestis.

Fazendo uma manobra semelhante à Joan Scott, Butler pretende historicizar o corpo e o sexo, dissolvendo a dicotomia sexo x gênero, que fornece às feministas possibilidades limitadas de problematização da “natureza biológica” de homens e de mulheres. Para Butler, em nossa sociedade estamos diante de uma “ordem compulsória” que exige a coerência total entre um sexo, um gênero e um desejo/prática que são obrigatoriamente heterossexuais.

Em outras palavras: a criança está na barriga da mãe; se tiver pênis, é um menino, o qual será condicionado a sentir atração por meninas. Para dar um fim a essa lógica que tende à reprodução, Butler destaca a necessidade de subverter a ordem compulsória, desmontando a obrigatoriedade entre sexo, gênero e desejo.

Assim, para a filósofa, o conceito de gênero cabe à legitimação dessa ordem, na medida em que seria um instrumento expresso principalmente pela cultura e pelo discurso que inscreve o sexo e as diferenças sexuais fora do campo do social, isto é, o gênero aprisiona o sexo em uma natureza inalcançável à nossa crítica e desconstrução.

“O gênero não deve ser meramente concebido como a inscrição cultural de significado num sexo previamente dado”, defende Butler (2010, p. 25), “[…] tem de designar também o aparato mesmo de produção mediante o qual os próprios sexos são estabelecidos.”

Drag queen: exemplo de gestos performativos como forma de subverter (ou reproduzir) a ordem compulsória entre sexo, gênero e desejo. (Foto: João Tavares)

Dessa forma, o papel do gênero seria produzir a falsa noção de estabilidade, em que a matriz heterossexual estaria assegurada por dois sexos fixos e coerentes, os quais se opõem como todas as oposições binárias do pensamento ocidental: macho x fêmea, homem x mulher, masculino x feminino, pênis x vagina etc. É todo um discurso que leva à manutenção da tal ordem compulsória.

E como se daria essa manutenção? Pela repetição de atos, gestos e signos, do âmbito cultural, que reforçariam a construção dos corpos masculinos e femininos tais como nós os vemos atualmente. Trata-se, portanto, de uma questão de performatividade. Para Butler, gênero é um ato intencional, um gesto performativo que produz significados (PISCITELLI, 2002).

Exatamente por isso, Butler tem se tornado uma unanimidade nos estudos de transexuais e travestis: o que são esses grupos senão a subversão de uma ordem estabelecida? O que significa sua ousadia (a qual não exclui uma esfera de sofrimento e marginalização) senão uma performatividade no sentido de ‘chacoalhar’ a coerência compulsória? Ao mesmo tempo, o quanto a performatividade de uma travesti nos mostra que, no fundo, também somos performativos, de que não existe uma natureza masculina em minha pessoa para além dos atos, gestos e signos que reproduzo?

Críticas a Butler, que serão tratados mais adiante no blog, residem, sobretudo, na ênfase demasiada a esse modo de subversão da ordem compulsória: será que precisamos apelar necessariamente aos travestis? De que outras formas podemos desconstruir o corpo? Ainda, cruzar as fronteiras do sexo e do gênero efetivamente subverte a ordem posta? E como entender o corpo: sua materialidade é apenas performatividade? Qual é o estatuto do corpo nessa análise? O sujeito não existe para além de suas práticas?

Para ler mais sobre o pensamento de Butler, clique aqui para acessar um texto sobre a performatividade, e aqui para outro texto sobre a identidade de gênero, ambos de autoria do Lucas Passos. Mais recentemente, publicamos um texto sobre o conceito de “corpos abjetos” da Butler. Para continuar lendo sobre o conceito de gênero por seis autoras feministas, clique aqui para acessar o texto principal.

20 comentários
  1. Diego M. disse:

    Olá, acabo de conhecer o blog e só posso parabenizar pela iniciativa de trazer discussões tão importantes. Quero apenas apontar que esse artigo confunde “performance” e “performatividade”, um engano comum, mas que prejudica muito a compreensão das ideias de Butler quanto a uma teoria performativa de gênero. Não tem nada a ver com performance. É só uma sugestão para que procurem entender melhor esse ponto, que é central. Um abraço.

    • Oi Diego,

      Quando eu publiquei esse texto, tomava “performatividade” e “performance” por sinônimos. Depois, tive uma aula e descobri que o correto é mesmo “performatividade”. Alterei algumas coisas no texto, mas não tudo, porque achei que a confusão não fosse tão grave. Você poderia me explicar qual é a diferença entre esses dois termos? Enquanto isso, faço as devidas correções.

      Obrigado pelo comentário! Espero vê-lo mais por aqui. Aproveitando: de onde você é? Como descobriu Butler?

      Abraços!

      • Marco disse:

        Não vejo problema, Butler e Austin usam os dois termos, que não são necessariamente sinônimos, mas um não invalida o outro. Se você for ler a Antropologia da Performance verá que os dois termos se intercambiam.

  2. Diego M. disse:

    Oi Adriano, eu estava pensando em escrever sobre isso, um texto sobre essa importante distinção entre performatividade e performance, mas enquanto isso vamos conversando, vc tem meu e-mail aí?

    • Fabi disse:

      Não haverá um texto disponível no blog explicando bem sobre essa distinção?

      • Oi Fabi,

        Obrigado pelo comentário. Infelizmente, não tenho um conhecimento muito aprofundado a respeito dessa questão para escrever um texto sobre. Preciso ver se encontro algum colega que poderia me substituir nesse quesito. De toda forma, agradeço pela participação e interesse.

        Abraços!

        • coacci disse:

          Adriano, sua confusão entre performance e performatividade está correta e errada ao mesmo tempo. De fato, se você só leu Problemas de Gênero, você não encontrará com clareza essa distinção. A própria Butler admite que ela faz um pouco de confusão naquele livro, esse conceito vai ser melhor desenvolvido a partir do Bodies That Matter, que não está traduzido. Tem um pedaço dele traduzido naquele livro Corpo Educado da Guacira, e é justamente um pedaço em que a Butler começa a fazer essa distinção. Você pode encontrar também uma boa discussão sobre isso naquele livro Judith Butler e a Teoria Queer da Sara Salih, o segundo capítulo tem uma parte justamente para discutir isso. Tem também esse vídeo da Butler, que é curtinho e ela explica por alto a diferença: https://www.youtube.com/watch?v=Bo7o2LYATDc

  3. Juno disse:

    “Aos” travestis, não: às travestis.

    • Thiago disse:

      Eu acho que o certo é “às travestis”. Preferencialmente no feminino, pois as travestis se auto-identificam por elas.😉

  4. A.V.R.S. disse:

    Não se deve falar “aos travestis” como se fala “aos estudantes”, “aos professores”, ou até mesmo ainda “aos homens” para se referir a um grupo misto, composto de homens e mulheres. O certo é falar às travestis: porque os machos importam mais que as fêmeas, mesmo quando eles se referem a si mesmos no feminino e elas referem a si mesmas no masculino.

  5. Oi Coacci (que respondeu meu comentário acima),

    De fato, eu li basicamente o “Problemas de Gênero”. Tenho o “Bodies that Matter”, mas ainda não consegui ler. Apenas o primeiro capítulo, traduzido tal como você indicou. Mas essa distinção não está bem trabalhada lá não. Talvez teria que ler mais coisas para entender melhor, mas ultimamente tenho me dedicado pouco à obra da Butler.

    De toda forma, muito obrigado pelas dicas! E o vídeo esclarece, sim.

    Abraços!

  6. Caio Carniel disse:

    Primeiramente achei interessante a proposta desse blog. Discutir a questão de gênero envolvem esferas econômicas, políticas, sociais e, é claro, subjetivas. Acho que os comentários também devem ir além de ser certo ou errado, mas, tomarmos essas questões pela via da ética, e possibilitar passos para uma discussão. Desta forma, gostaria de contribuir com a questão do corpo e sua mais-valia com a imagem. Lembro-me quando comecei a me interessar pelas questões “trans”, sempre via comentários taxativos e que pendiam para um “distúrbio”. E após um documentário da GNT, que falava sobre a questão da transexualidade no Irã, em que é permitido pelo lei Islã – fundamentalmente islâmica – a cirurgia de “reajustamento de sexo”. Porém após a cirurgia, o sujeito transexual, precisa agir e se identificar com o “gênero escolhido”. Isso me levou a pensar em Marx, em que ele relata a mais-valia, que é o preço a mais pago não correspondente com valor do produto. Então ele vai falar de um valor de uso. Então, se pegarmos “a imagem” como produto do mercado e das relações, qual é o valor dado a esse “ser mulher” ou “ser homem”? No caso desse documentário, o apagamento de uma subjetividade não seria esse valor a mais pago? Essa são minhas considerações iniciais, e tenho tentando esse caminho “político” para abordar essas questões.

    Abraços
    Caio Carniel

  7. ricardo disse:

    assitam ao video ideologia de genero com profº felipe neri e um outro com a profª fernanda takitani

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