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Arquivo diário: 09/05/2012

Neste ano, em ocasião do 8 de março – Dia Internacional da Mulher – Talyta Carvalho escreveu um polêmico texto chamado Não devemos nada ao feminismo, publicado na Folha de S. Paulo. O texto foi reproduzido e elogiado em muitos meios (porém, também recebeu uma crítica muito interessante de Regina Miraaz).

Em poucas palavras, Carvalho acusa o feminismo de ter tolhido a liberdade de escolha das mulheres, cooptando-as a ingressarem no mercado de trabalho de tal forma que, hoje, dedicar-se à casa ou aos filhos seria motivo de constrangimento. Assim, a autora categoricamente afirma que, da parte dela, não deve nada ao feminismo. Aqui, pretendo tecer uma crítica a essa abordagem.

Uma crítica desinformada ao feminismo reduz suas reivindicações ao âmbito das escolhas particulares, extraindo o sentido político do movimento.

A autora parte de uma leitura absolutamente simplista dos problemas levantados e refletidos pelo feminismo desde sua origem. E é engraçado, pois, ouvir de uma acadêmica com título de mestrado, a qual se autointitula “mulher” e “intelectual”, a afirmação de que nada se deve ao feminismo. Basta considerarmos que uma das primeiras pautas feministas foi justamente o direito à educação.

Carvalho, pelo contrário, acredita que a possibilidade de não trabalhar fora de casa derivou justamente das “conquistas do sistema econômico” (leia-se: desenvolvimento capitalista), o qual permitiu aos maridos sustentarem sua mulher, os filhos e a casa apenas com a sua renda. Se for a atividade profissional de um dos cônjuges o ponto central, poderíamos nos perguntar por que não foram as mulheres que se tornaram responsáveis por esse tipo de trabalho.

É evidente que a privação da atividade profissional extradoméstica, custosa para muitas mulheres (mas que nem ocorre e nem atinge igualmente todas!), reflete uma relação desigual de poder. Não se trata de “trabalhar para se libertar”; um jargão mais que superado, caso contrário não estaríamos discutindo a exploração no seio do próprio trabalho. Trata-se da possibilidade de ter acesso a bens, de obter remuneração, de construir novas redes de relações, de adquirir um imóvel e, vale a pena ressaltar, de possuir uma segurança financeira e profissional até mesmo para o caso do divórcio, tão recorrente na atualidade.

A mulher como principal responsável pelo trabalho doméstico: que outras relações se escondem sob o discurso da “livre escolha”?

A grande falha de Talyta Carvalho foi reduzir tudo isso a uma mera questão de foro íntimo, como se se tratasse apenas de livres escolhas das mulheres. Não nos importa as particularidades da vida de cada mulher e suas escolhas. O feminismo, pelo contrário, está pensando em questões sistêmicas, estruturais, coletivas, de tal modo que a própria possibilidade da mulher não trabalhar seja entendida como um avanço, visto que seria uma opção e não mais uma imposição.

Nesse sentido, não há problema no fato da mulher cozinhar e do seu marido trocar o pneu. Mas há problema, sim, se notarmos que as mulheres ganham, em média, 70% do que seus colegas do sexo masculino pelas mesmas profissões, apesar de todos os avanços. Isso, sim, é um ponto de interesse à mobilização coletiva.

Não buscamos, portanto, um modelo único de família, que delimitaria se e quanto o homem contribuiria na casa ou que tipos de atividades a mulher se engajaria. Devemos, no entanto, pensar sobre quais relações a própria dinâmica familiar está assentada e reconhecer, dando os devidos créditos, que para a situação atual existir, foram necessários séculos de tensões e disputas. Ainda, um olhar mais atento à realidade nos mostra que há muito caminho a ser trilhado.

Por isso, de minha parte, afirmo: nós, mulheres e homens, devemos ao feminismo, sim!

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