Uma introdução a “Deve a mulher trabalhar?”, de Clarice Lispector

Recentemente, como pesquisador do Grupo Dialogus – Estudos Interdisciplinares em Gênero, Cultura e Trabalho, sob a orientação acadêmica da Professora Dra. em Estudos Literários Luciana Borges, publiquei na Revista Nome, periódico da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás (FL/UFG), o artigo “Condição feminina: (re)leitura de uma produção da jovem estudante de Direito Clarice Lispector”, tentando realizar um (re)leitura do texto “Deve a mulher trabalhar?” que se encontra no estimável Outros Escritos (2005), coletânea organizada por Teresa Montero e Lícia Manzo que trazem textos inéditos e outros que já haviam sido publicados, porém de difícil acesso, de Clarice Lispector. Assim, ao longo desse e de mais um ou dois textos, tentarei apresentar algumas análises que foram feitas sobre o texto da autora.

“Deve a mulher trabalhar?” é um texto da consagrada escritora Clarice Lispector, produzido como estudante do curso de Direito. Nele, a autora aborda a problemática da inserção da mulher no mercado de trabalho, as reivindicações do direito ao trabalho além do lar, o distanciamento de um destino maternal, ou, antes mesmo, a modificação radical da figura feminina.

Em primeiro lugar, “Deve a mulher trabalhar?” é um trabalho publicado em 1941 na revista A Época, de Clarice Lispector enquanto aluna do curso de Direito, entre 1939 a 1942, na Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, onde a autora aborda a problemática da inserção da mulher no mercado de trabalho, as reivindicações do direito ao trabalho além do lar, o distanciamento de um destino maternal, ou, antes mesmo, a modificação radical da figura feminina. Depois de sua abordagem, Clarice apresenta uma enquete que ela realizou entre alguns estudantes, perguntando suas opiniões sobre o ingresso da mulher no mercado de trabalho.

Lispector (2005, p. 50) começa seu trabalho assim: “Tornou-se velho o problema da mulher, embora date apenas da Grande Guerra, tanto foi ele visado e estudado. Deve ou não deve ela estender suas atividades pelos vários setores sociais? Deve, ou não, voltar suas vistas também para fora do lar?”. Nesse sentido, a autora enxerga de um lado, o eterno destino feminino, e do outro, a “nova mulher” que escolhe livremente seu caminho. De um lado, a casa, os filhos e o marido, exigindo abnegação constante dessa mulher, do outro lado, a evolução dos costumes, a quebra do eterno destino biológico.

Clarice usa de um momento de crise econômica, que inquestionavelmente clamam a mulher para o mercado do trabalho, para mostrar as consequências desta crise entre as relações de gênero. Essa crise, sob o nosso olhar, pode ser na ou a própria organização da Revolução Industrial, a considerar pela data do texto e pela pertinência de que nessa data o número de mulheres e menores de idade cresce progressivamente, uma vez que de fato, como sugere Gomes citado Cristiane Maria Sbalqueiro Lopes (2006, p. 412) em Direito de trabalho da mulher: da proteção à promoção: “o emprego de mulheres e menores na indústria nascente representava uma sensível redução do custo de produção, a absorção de mão-de-obra barata, em suma, um meio eficiente e simples para enfrentar a concorrência. Nenhum preceito moral ou jurídico impedia o patrão de empregar em larga escala a mão-de-obra feminina e infantil”.

Na Revolução Industrial, o número de mulheres e menores de idade cresceu significativamente nas indústrias, umas vez que representavam mão-de-obra barata, gerando mais lucros para os empresários.

Esse espaço criado pela Revolução Industrial trata-se, portanto, de um espaço onde o que está em jogo é a maximização dos lucros, a mais-valia, já que mulheres e crianças como proletariados ao invés de homens, proporcionam aos seus respectivos patrões lucros altos, enriquecimento rápido e a baixos custos. Dessa forma, os homens começam a diminuir sua participação no mercado de trabalho, ficando desempregados e assistindo a uma possível inversão social. Frente a isso, Lopes (2006) argumenta que a hierarquia machista usará de justificativas morais como a preservação da organização sexual e da família, como aquelas reivindicadoras do espaço masculino e da organização machista da sociedade.

Desse modo, essa inversão social ameaça a organização tradicional da família e a autoridade do marido, assim Lopes (2006) destaca que até então o casamento funciona como um contrato conjugal de restrição, ele solidifica um contrato em que a esposa fica responsável pelas tarefas do lar e o marido fica responsável pelas tarefas no extra-lar. Significativamente, nessa organização, a mulher “venderia” sua “liberdade” e em troca é sustentada pelo marido, a mulher torna-se um objeto na mão do seu “senhor”, é reificada, direcionada ao privado, enquanto o homem é direcionado para o público.

A favor dos homens desempregados, daqueles preocupados com o desemprego, da concorrência, e da organização da sociedade onde o homem é soberano, algumas leis surgiram como a de que a mulher casada deveria ter uma autorização do marido para trabalhar, não permitia que ela trabalhasse à noite e estabelecia restrições quanto ao tipo de serviço, por exemplo. Assim, Lopes (2006) nos alerta sobre as próprias leis, proteções, que se dão no âmbito da igualdade de gênero e das relações trabalhistas, pois muitas têm efeitos aparentes no que diz respeito à proteção e aos direitos das mulheres, necessitando de uma análise histórica que as constituiu.

Ensaie um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: