A “condição feminina” como inferior: uma análise em Clarice Lispector

Em texto anterior, tentamos iniciar algumas análises sobre o texto “Deve a mulher trabalhar?” de Clarice Lispector, de forma que, como já dissemos, o texto se trata de um trabalho produzido pela nomeada autora enquanto acadêmica do curso de Direito, entre 1939 a 1942, integrando a coletânea Outros escritos (2005), organizada por Teresa Montero e Lícia Manzo, coletânea que traz textos iniciantes da autora em suas várias facetas: dramaturga, ensaísta, estudante de Direito, escritora, jornalista etc. Especificamente, em “Deve a mulher trabalhar?”, Clarice problematiza a inserção da mulher no mercado de trabalho, trazendo à discussão as consequências dessa inserção, os paradigmas quebrados, a organização machista da sociedade, entre outros.

Clarice Lispector sustenta em seu texto “Deve a mulher trabalhar?”, que a inserção da mulher no mercado de trabalho problematizou as relações de gênero no âmbito trabalhista e social, o “lugar” da mulher, o “lugar” do homem, as normas em “ser mulher” e “ser homem”, o “destino” maternal da mulher.

Clarice também problematiza um “eterno destino biológico” que se viu questionado pela inserção da mulher no mercado de trabalho e pela luta feminista, nos dizendo que, para a mulher, é possível continuar apenas seguindo-o, mas, por outro lado, também é possível escolher um outro caminho que a mulher possa escolher. Claramente, o “destino biológico” configura-se como um destino imutável para homens e mulheres, estabelecendo a velha assimetria nas relações de gênero, onde o homem é o chefe da família, assume o controle da política, trabalha, enquanto a mulher fica responsável pelos serviços domésticos, por cuidar dos filhos e do marido e mantém-se como símbolo da procriação. Contrapondo-se a esse “destino biológico” e graças a inserção da mulher no mercado de trabalho surge, como argumenta a autora, a “nova mulher”, problematizando as relações de gênero no âmbito trabalhista e social, o “lugar” da mulher, o “lugar” do homem, as normas em “ser mulher” e “ser homem”, o “destino” maternal da mulher.

Dessa forma, as reivindicações trabalhistas feministas, a luta por direitos iguais entre mulheres e homens no extra-lar, o descentramento do público e do privado, colocou em xeque as opressões machistas da sociedade em relação para com as mulheres, principalmente porque estas reclamaram o campo social considerado ativo, modificando, portanto, costumes, ideais e ideologias, o que a levou a conhecer a si mesma, suas possibilidades e potencialidades. Significativamente, a reflexão de Clarice Lispector em torno do “destino biológico” nos mostra que este parece ser um campo conflituoso que impõe a mulher uma opressão, que opera no interior das relações assimétricas de gênero, nas configurações sociais de “ser homem” e “ser mulher”.

Não muito longe, está a teoria feminista da filósofa francesa Simone de Beauvoir, que também questionou esse opressivo “destino biológico”, mostrando que a condição feminina quanto a masculina surgem em relações sociais, dado que, no seu O segundo sexo: a experiência vivida (1980), a autora argumenta que o sentido que assume a palavra “ser” deve ser entendida sob o dinamismo hegeliano, já que ser mulher e, portanto ser inferior, denotam uma substancialidade do ser, algo pelo qual a “pessoa” é inferior em nome do que ela é, como se a inferioridade, incapacidade ou histeria fosse natural às mulheres. Assim, sob o dinamismo hegeliano, Beauvoir (1980, p.18) nos alerta que “ser é ter-se tornado, é ter sido feito tal qual se manifesta” e a condição de ser inferior é uma condição imposta, e não, natural: alguém é inferior na medida em que outro alguém ou outro grupo o mantém assim. Essa perspectiva, claramente, fornece condições para Beauvoir compreender que a fêmea humana não nasce mulher, mas torna-se mulher, do mesmo modo que o macho humano não nasce homem, mas torna-se homem.

A revisitação do mito de Eva, durante a Idade Média, contribuiu para a associação das mulheres ao pecado e à impureza, uma vez que, tendo sido a primeira a contemplar e a comer o fruto proibido, ela está associada à desrazão, à compulsão. (Imagem: Michelangelo, O Pecado Original)

A partir dessas análises, Beauvoir fundamentará sua importante dicotomia sexo/gênero, inúmeras vezes abordada nesse blog, onde o sexo seria uma base biológica onde se inscreveriam os significados culturais, o gênero [¹]. O fato é que a interpretação cultural do corpo, como sugere a teoria feminista de Beauvoir, ou mais especificamente, do sexo desse corpo, gera e naturaliza a condição feminina bem como a condição masculina, de forma que o homem é o Um/Sujeito, a mulher é o Outro; ele é o essencial, o absoluto, enquanto ela é o inessencial. Mas, segundo a autora, é pelo Um definindo-se como Um que se define o Outro.

Ainda, nesse mesmo sentido investigativo acerca das construções deprecativas em relação às mulheres, cabe nos dizer que, apresentado sua raiz no período medieval, as formulações de pensadores e principalmente de pensadores religiosos contribuíram para revisitar e reafirmar concepções clássicas de compreensão do feminino. Dessa forma, como argumenta Robert Com Davis em Aristotle, gynecology, and the body sick with desire (1997), a ideia aristotélica de que o corpo feminino era apenas um receptáculo foi retomada por fisiologistas como Soranos, para quem toda a constituição psíquica da mulher se concentra no útero, resultando em uma redução das mulheres ao seu corpo, negando-se sua racionalidade e autonomia. Também Georges Duby em Idade Média, Idade dos Homens (2001), coloca que a revisitação do mito de Eva contribuiu a para a associação das mulheres ao pecado e à impureza, uma vez que, tendo sido a primeira a contemplar e a comer o fruto proibido, ela está associada à desrazão, à compulsão: sua má conduta justificaria tanto o sofrimento físico quanto o fato de ser governada pelos homens.


[¹] Sabemos das problemáticas da dicotomia sexo/gênero em Beauvoir desconstruída no âmbito da filosofia pós-estruturalista (esse texto e esse aqui são alguns exemplos). No entanto, não se objetivou apresentar essas problemáticas aqui, uma vez que nossa expectativa foi inquestionavelmente evidenciar uma intertextualidade entre Lispector e Beauvoir.

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