Clarice e sua enquete em “Deve a mulher trabalhar?”: sim, não, talvez,…

Em “Deve a mulher trabalhar?” (2005), trabalho de Clarice Lispector enquanto estudante do curso de Direito, a autora considera justamente que uma faculdade de Direito seja um lugar onde se aprende a aceitar as mudanças sociais e a concretização disso em leis reflete e capta o modo de sentir da sociedade. É assim que Clarice introduz o tópico em que vai apresentar sua enquete, situando-se e situando seus entrevistados, bem como o curso que estão fazendo. No entanto, a opinião dos entrevistados diante da problematização da inserção da mulher no mercado de trabalho mostra que alguns acham que a mulher deve sim trabalhar, enquanto outros acham que não, e outros ficam no meio-termo.

Para o sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930 – 2002), o que justificaria naturalmente a diferença social e a divisão do trabalho entre os gêneros seria a visão social em que a própria diferenciação anatômica entre os sexos segrega os indivíduos.

A primeira entrevista, Maria Luiza Castelo Branco, defende que não existe nada que impeça a mulher de trabalhar, uma vez que ela tenha objetivos pessoais e necessidades, então é legítimo trabalhe, porém ressalta que o papel da mulher no lar é imprescindível e quando perguntada se acha que as mulheres e homens tem direitos iguais, reflete um pouco e diz: “Teoricamente têm. Mas na realidade isso é impossível. Não pelas condições da sociedade, como também, e sobretudo, pela sua própria natureza que fá-la demandar outros direitos, diversos dos que os homens aspiram” (LISPECTOR, 2005, p. 52). Claramente, percebemos que a opinião da entrevistada está entre a evolução que a faculdade de Direito representa e as ideias obsoletas, condenando a mulher a uma natureza não percebida como uma construção social, e que assim legitima sua dominação. Entretanto, como nos alerta Simone de Beauvoir em O segundo sexo: a experiência vivida (1980), a condição feminina e masculina que parecem estar numa ordem das coisas, não trata o corpo como o corpo em si, mas submetido a interferências, tabus, valores, costumes, o que significa que o corpo é um fruto social e não natural.

Essa análise da construção social dos corpos também pode ser encontrada no livro A dominação masculina (2010), do sociólogo francês Pierre Bourdieu, para quem o que justificaria naturalmente a diferença social e a divisão do trabalho entre os gêneros seria a visão social em que a própria diferenciação anatômica entre os sexos segrega os indivíduos. Essa visão social seria a construtora da diferenciação anatômica entre os sexos e este por sua vez seria o fundamento natural que alicerça a visão social.

O segundo entrevistado, Romulo Olivieri, considera que a mulher nasceu exclusivamente para o lar e para a família, não podendo cultivar nenhum tipo de trabalho, além disso, considera que o estudo deva ser na vida da mulher apenas uma ajuda para que possa educar e guiar os filhos eficientemente, e ainda, crê numa diferença intelectual entre homens e mulheres, mais frágeis em todos os sentidos. Assim, pela opinião do entrevistado, vemos que a casa é o símbolo mais forte dessa prisão, pois a mulher está fixada nela, pelo trabalho doméstico, pelos filhos, pelos cuidados que deve a estes e também pelo marido. Se a mulher tiver contato com algum conhecimento científico, filosófico etc., deve ser para ser usado exclusivamente na educação do filho, para que esta educação funcione com eficácia. O que não deixa de, mais uma vez, afirmar o feminino como prisioneiro: a mulher estuda apenas em prol do filho, para educá-lo. Além disso, Romulo considera uma diferença intelectual entre os sexos: há o intelecto superior masculino e o intelecto inferior feminino.

Para a feminista e filósofa francesa Simone de Beauvoir (1908 – 1986), o corpo está sempre submetido a valores, a tabus, a leis.

A próxima entrevistada no trabalho de Clarice, Luiza Gulkis, presidente do Departamento Feminino do Diretório Acadêmico, defende que a mulher pode sim competir com o homem, superando-o em diversos casos, mas se não houver a necessidade de trabalhar no extra-lar, ela não deve trabalhar. Ainda, considera que existam profissões masculinas e femininas, dizendo que quando terminar o curso de Direito não vai advogar e sim lecionar, uma vez que considera o magistério uma profissão que se adapta melhor às mulheres. Dessa forma, como sugere Cristiane Maria Sbalqueiro Lopes em Direito de trabalho da mulher: da proteção à promoção (2006), as profissões consideradas femininas estão relacionadas ao ensino, ao cuidado, à saúde, aos serviços domésticos e às funções burocráticas de escritório.

Por fim, a resposta do último entrevistado, Virgílio Pires de Sá, é, segundo Clarice, uma opinião mais liberal, ele considera que a mulher conquistou o direito ao trabalho por meio de reivindicações justas e que não existem motivos sérios que a impeçam de trabalhar, ter filhos e conciliar muito bem a vida profissional com a maternidade. Além disso, não aceita que a mulher seja intelectualmente inferior ao homem e diz: “Que ela estude, que trabalhe, que se desenvolva” (LISPECTOR, 2005, p. 54). Isso mostra que Virgílio está atento à sociedade em que vive: ele a analisa, desmistifica o tabu de desnível intelectual entre os sexos e não está preso à ideologia da dominação masculina.

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