Falando em Línguas com Glória Anzaldúa

Glória Anzaldúa, “a mestiça” que escreveu o “Hablar en Lenguas”.

Tentarei aqui fazer uma breve introdução ao pensamento de uma das feministas pelas quais tenho grande afinidade. Glória Anzaldúa (1942-2004) foi uma autora norte-americana autodeclarada mestiça, nascida no Texas, que trouxe valiosas contribuições para os estudos que interseccionam, dentro do feminismo, a categoria mulher com outras, tais como: “raça”, “cor”, “região” etc. Essa empreitada se fundamenta, principalmente, no que podemos chamar de feminismo pós-colonial (um termo que pode ser melhor trabalhado e analisado futuramente), que critica as mulheres que fizeram as primeiras elaborações teóricas no âmbito da Segunda Onda Feminista. Essas feministas, é claro, escreviam de um lugar específico: eram mulheres brancas, de classe média, estadunidenses. Ao falarem a partir desse lugar, essas feministas invizibilizaram algumas opressões de mulheres negras, “mestiças”, do “terceiro mundo”, entre outras.

Sobre isso, Anzaldúa é bem enfática ao escrever o Falando em Línguas: uma carta para as mulheres escritoras do Terceiro Mundo (ANZALDÚA, 2000). Nessa carta, ela está preocupada em fazer um alerta e um chamamento à luta para as escritoras que estão falando do “Terceiro Mundo”, ou seja, fora do eixo hegemônico de produção de conhecimento. Diz ela: “Para a mulher do terceiro mundo que, na melhor das hipóteses, tem um pé no mundo literário feminista, é grande a tentação de acolher novas sensibilidades e modismos teóricos, as últimas meias verdades do pensamento político, os semidigeridos axiomas psicológicos da new age, que são pregados pelas instituições feministas brancas. Seus seguidores são notórios por “adotar” as mulheres de cor como sua “causa” enquanto esperam que nos adaptemos a suas expectativas e a sua língua” (p. 231).

Anzaldúa traz para o debate feminista a importância do lugar das escritoras do Terceiro Mundo. Os cenários subalternos ganham importância com seus escritos.

É evidente que a experiência de ser mulher de classe média em uma cidade dos Estados Unidos é bastante diferente do ser mulher negra no mesmo país, ou ser uma mulher “mestiça” do Texas, com descendência de mexicanos e indígenas, ou então ser uma mulher que mora na América Latina, na Ásia ou na África. Na carta citada acima, diz Anzaldúa: “Minhas queridas hermanas, os perigos que enfrentamos como mulheres de cor não são os mesmos das mulheres brancas, embora tenhamos muito em comum. Não temos muito a perder — nunca tivemos nenhum privilégio” (p. 229). Ela acredita que as mulheres do “Terceiro Mundo” devem parar de ser objeto de pesquisa e escrever suas próprias teorias, falando de um lugar diferente do hegemônico e escrevendo sobre suas opressões, que são particulares a elas.

E Anzaldúa não fica somente na crítica às teorizações hegemônicas. Pelo pouco que conheço ainda da teoria feminista, posso dizer com bastante certeza que poucas vezes vi escritos feministas tão engajados e militantes como o da autora. Falando em Línguas é um texto genial que chama as mulheres do terceiro mundo à luta. É instigante e provocante. Em um de seus trechos mais impactantes, Anzaldúa mostra sua indignação frente à visão que homens (brancos, diga-se de passagem) têm das mulheres mestiças que rompem com as “confortáveis imagens estereotipadas” da negra doméstica, da mestiça ama-de-leite e que, ao iniciar essa ruptura, passam a ser seres inteligíveis, ou “monstros perigosos”. Diz ela: “nós anulamos, nós apagamos suas impressões de homem branco. Quando você vier bater em nossas portas e carimbar nossas faces com ESTÚPIDA, HISTÉRICA, PUTA PASSIVA, PERVERTIDA, quando você chegar com seus ferretes e marcar PROPRIEDADE PRIVADA em nossas nádegas, nós vomitaremos de volta na sua boca a culpa, a auto-recusa e o ódio racial que você nos fez engolir à força. Não seremos mais suporte para seus medos projetados. Estamos cansadas do papel de cordeiros sacrificiais e bodes expiatórios” (p. 230).

Eu recomendo altamente a leitura do texto que utilizei ao longo desse post, especialmente para aquelxs que não conhecem e/ou têm interesse por um feminismo crítico, engajado, e que se propõe a falar de fora do mainstream acadêmico. Futuramente falarei mais sobre Glória Anzaldúa. Até lá!

1 comentário
  1. Oi Matheus!

    Texto sintético, mas muito bom. Não conhecia essa autora.

    Assim como você, também tenho uma grande apreciação pelo pós-colonialismo. Aliás, acredito que todas/os que produzem conhecimento fora do eixo hegemônico de produção acadêmica, e que não são eurocêntricos ou coisa que o valha, possuem algum interesse por essa pauta. E é interessante notar que outras autoras que falam desse lugar menosprezado não só criticam o modelo hegemônico como chamam as demais para a sua atividade acadêmica e política. É o exemplo de bell hooks (que escreve textos beeem engajados) e da Raewyn Connell; a primeira, negra norte-americana sulista; a segunda, australiana.

    Um dos grandes problemas é que a produção acadêmica brasileira, mas acredito que de outros países do “Sul global” também, é a falta de alternativas teórico-práticas. Quero dizer: que autoras brasileiras teceram reflexões tão profundas e que contribuem tanto ao pensamento feminista quanto Joan Scott, Judith Butler, Simone de Beauvoir?, para citar exemplos clássicos, ou de outros pensamentos, como Marx, Lévi-Strauss, Bourdieu etc? De certa forma, nos acomodamos nessas/es autoras/es e apenas aplicamos ou estendemos os seus escritos para as nossas pesquisas empíricas. É exatamente o que acontece quando se diz: “meu referencial é foucaultiano”; “sou marxista”; “tomo como base Bourdieu”. E a produção de TEORIA nacional? Quando digo “nacional”, não me refiro a um enclausuramento, a um “patriotismo acadêmico”. Prefiro muito mais ser uma esponja mundial a seguir a linha francesa de autocitação. Mas é fato que a produção do nosso país pode muito bem criar teoria, e uma que não seja apenas útil para os/as brasileiros/as, mas que possua ressonância no restante do mundo. É o caso da Heleieth Saffioti.

    Enfim, tudo isso está inserido em um esquema muito maior de relações de poder, colonização, imperialismo, globalização, mas não vem ao caso desenvolver agora.

    Mas, tenho sim, uma utopia de outra configuração das relações de poder mundial. Senão, ficamos naquele esquema: “Paris pensa o mundo; São Paulo pensa o Brasil; Recife pensa Pernambuco.”

    Tudo isso que falei é mais ou menos a ideia expressa na “epígrafe” do nosso blog, logo abaixo do cabeçalho.

    Abraços!

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