O movimento feminista e suas múltiplas identidades femininas

Já é consenso que o movimento feminista é absolutamente diversificado, variando das vertentes mais liberais, que se pautam pela igualdade de direitos entre homens e mulheres, às vertentes mais radicais, que tendem ao separatismo. Daqui, tiramos uma lição: concordando ou não, devemos reconhecer a importância histórica do movimento na formação de uma mulher progressivamente com mais liberdades, direitos e oportunidades. Mas, se ao longo de sua história, existiram tantos “feminismos”, o que nos permite colocar um mesmo rótulo para agrupá-los?

Minha intenção não é destrinchar semelhanças e diferenças entre as mais variadas escolas feministas ao longo do tempo; tarefa que, além de fugir da minha competência, demandaria a redação de pelo menos um livro. Pretendo apenas dar luz para uma questão: o quanto o feminismo se desenvolveu pautando-se pela reconfiguração de identidades femininas.

Manuel Castells (1942-), sociólogo espanhol, escreveu sobre “o poder da identidade” na sociedade, dedicando sua reflexão também ao feminismo.

Quem nos esclarece esse ponto é o sociólogo espanhol Manuel Castells (1999). Para ele, se podemos falar em uma “essência” do feminismo, é “a (re)definição da identidade da mulher” (p. 211). Pois Castells defende que, por via da igualdade ou da diferença (leia aqui), o que o feminismo fez e ainda faz é negar a identidade da mulher conforme definida pelos homens e que é sustentada pela família patriarcal. Aqui, vale o adendo de que esse autor não é o nome mais indicado para a compressão das formas de opressão em si, mas não é isso que nos interessa nas suas produções.

Seja na militância de Betty Friedan, afirmando que a mulher não alcançaria o orgasmo polindo o chão da cozinha, ou de bell hooks, chamando a atenção para a mulher negra no interior do movimento; seja nos escritos de Simone de Beauvoir, para quem a mulher não poderia mais ficar restrita ao papel de “segundo sexo”, ou nos de Shulamith Firestone, a qual acreditava que o ofício da reprodução biológica aprisionava a mulher. Em todos esses casos, a meta é construção de uma “nova mulher”.

Movimento sufragista no Brasil: mulheres que, apesar de suas diferenças, atuavam direta ou indiretamente pela construção de uma nova identidade feminina.

Mas, quando falamos de uma identidade feminina, não podemos esperar que a defesa de um modelo único de mulher seja viável. Se estamos justamente reconhecendo a existência de tantas mulheres diferentes (negras, brancas, lésbicas, latinas etc), temos de pensar nos termos das identidades coletivas, isto é, processos de identificação que dão liga a reivindicação de direitos no âmbito político e que respeitem a diversidade de seus sujeitos.

Aí, voltamos a nos perguntar: diante de toda a diversidade, é possível afirmar da existência de uma identidade coletiva que seja de fato coletiva? Castells (1999) vai nos dizer que sim, explicando que existe um “núcleo essencial” no projeto feminista, capaz de congregar certos valores e metas que se difundem pelo movimento a despeito de sua polifonia.

Por outro lado, essa multiplicidade de identidades não deve ser visto como um obstáculo ao movimento; pelo contrário, para muitas feministas, esta é sua principal virtude. Em sua principal obra, a título de exemplo, bell hooks (2000) vai afirmar que a “irmandade feminina” (sisterhood) só poderá ser alcançada quando o movimento assumir de vez sua pluralidade, em vez de esperar uma formatação da mulher.

Feminismo não é só uma soma de bandeiras levantadas por uma soma de indivíduos: há um algo a mais que dá liga ao movimento. Isso é a identidade coletiva.

Contudo, a discussão ainda não acabou. Se reivindicar uma identidade é sempre uma tarefa complicada, por que não abandoná-la, de modo a ficarmos apenas com metas, diretrizes e eixos políticos? Bom, a ideia à la rational choice (escolha racional), uma visão pragmática de ativismo político baseada no cálculo de custo-benefício da mobilização e que deixa marcas nas chamadas “políticas de coalizão”, pode até parecer interessante, mas de longe não capta a riqueza dos movimentos sociais.

Movimento feminista não se trata apenas de juntar milhares de pessoas em Brasília para reivindicar a legalização do aborto e, ao fim do dia, todas/os voltam para suas casas. O movimento é mais do que isso: é a reconstrução da imagem da mulher, a crítica às formas de representação de seus corpos, a oposição à desvalorização do feminino; não são apenas uma soma de bandeiras levantadas por uma soma de indivíduos: existe um “algo a mais”, que dá liga ao movimento, que as mobiliza no âmbito individual e coletivo. Essa “coisa” é a tal da identidade!

Enfatizo que reafirmar uma identidade não é construir uma “essência” da mulher, absolutamente normativa e engessada. “Reivindicar uma identidade é construir poder”, como afirma Castells (1999, p. 235). Se boa parte das opressões às mulheres se dá pela construção forçada e autoritária de uma identidade feminina que autoriza o machismo e o falocentrismo, a atuação política também ocorre pela construção oposicional de outra identidade. É por isso que o feminismo envolve uma luta de identidades, no qual a ”mulher” é tensionada pelos mais diversos interesses.

2 comentários
  1. Rayssa arianne morais de araujo disse:

    Oi!
    Qual é a bibliografia desse ensaio? Qual o livro de Castells?😀

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