arquivo

Arquivo mensal: junho 2012

A data “28 junho” refere-se a uma manifestação ocorrida na cidade de Nova Iorque, em um bar frequentado por gays, lésbicas, travestis e outrxs chamado Stonewall, onde constantemente ocorriam batidas policiais. Na noite de 28 de junho de 1969, os frequentadores e as frequentadoras se revoltaram com a polícia, em um confronto que durou cerca de três dias. A manifestação extrapolou os limites do estabelecimento, atingindo as ruas vizinhas. Um ano depois, milhares de pessoas marcharam na cidade em memória da tal “rebelião”. É comum, portanto, ouvirmos que esse evento é um marco na luta por direitos LGBT, uma vez que foi a partir dele que começaram as famosas Paradas do Orgulho.

Stonewall é aqui e agora.

Entretanto, mais de quarenta anos depois, os preconceitos relativos à homossexualidade e às expressões de gênero que desafiam binarismos ainda são muito presentes, em vários países, como é o caso do Brasil. Ainda há uma série de motivos que impedem que pessoas que não se adéquam às normas sociais que regulam a sexualidade e o gênero saiam às ruas para manifestar e exigir direitos. Alguns deles podem ser facilmente aqui listados:  No Brasil, milhares de pessoas LGBT morrem assassinadas simplesmente pelo fato de não se enquadrarem aos rígidos padrões que são impostos para designar o que é “normal” ou não. Ainda não é possível, para casais homossexuais, a adoção de filhos/as. Projetos de leis a favor da “cura da homossexualidade” são, em pleno século XXI, formulados no Brasil. Dois homens ou duas mulheres não podem demonstrar afeto publicamente sem passar por algum tipo de humilhação e/ou violência simbólica (quando a violência não é física). A mídia, o mercado, as escolas e o poder público veiculam, frequentemente, estereótipos preconceituosos e infelizes sobre lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais.

A Parada do Orgulho é um momento de visibilidade positiva e luta por direitos que promovam a equidade de gênero e acabem com o terrorismo sexual.

Por esses e outros motivos que ainda saímos às ruas, nas chamadas Paradas do Orgulho, buscando visibilidade positiva e afirmação política em um mundo ainda marcado por terrorismos de gênero e de sexualidade. Mas é necessário que esse movimento extrapole apenas um dia do ano. Stonewall, portanto, é aqui e agora. E diz respeito às lutas cotidianas por uma sociedade mais justa e igualitária, que se engaje contra todos os preconceitos direcionados àqueles e àquelas cujas experiências escapam às normas da heterossexualidade compulsória.

[Texto retirado e adaptado da página on-line do Ser-Tão (Núcleo de Estudos e Pesquisas em Gênero e Sexualidade da UFG)]

Anúncios

É fato que estamos, os autores deste blog, beirando ao pedantismo, de tanto que criticamos a distinção sexo/gênero. Mas será que essa crítica obtém algum resultado? Sendo uma distinção conceitual tão presente, não só no senso comum, como também nos estudos de gênero, é válido refletirmos sobre as dificuldades em sua compreensão.

Uma historiadora por quem guardo imensa admiração, Joan Scott, tentou desconstruir essa dicotomia entre um sexo para a natureza e um gênero para a cultura em seu clássico artigo Gênero: uma categoria útil de análise histórica (1995), publicado originalmente em 1986. Pouco depois, em 1990, Judith Butler opera de forma similar em Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade (2010).

A historiadora Joan Scott (1941-) relevou os mecanismos de poder associado ao conceito de gênero, apresentando-o como um saber constituído conjuntamente à noção de sexo.

Mais de duas décadas depois, Scott (2010) faz um balanço e nos mostra que está longe de ser consensual o entendimento sobre sexo e gênero. Os usos sempre variaram: há aqueles que tomam os dois conceitos como radicalmente distintos, há outros que tomam o gênero como uma forma mais acadêmica de se referir a “sexo” ou “mulheres”, mas uma coisa permanece: a noção de que o gênero é uma assimilação de significados sobre diferenças sexuais biologicamente dadas continua intacta. E foi justamente isso que elas tanto criticaram!

Ao conceituar gênero, tanto Joan Scott quanto sua colega Judith Butler – falando a partir de uma perspectiva construcionista social, altamente influenciada por Foucault – destacam que tanto sexo quanto gênero são, em primeiro lugar, formas de saber, isto é, conhecimentos a respeito dos corpos, das diferenças sexuais, dos indivíduos sexuados.

Porém, se associamos o primeiro à natureza, e o segundo à cultura, perpetuamos a ideia de que existe uma “natureza” que possa ser apreendida à parte de um conhecimento que produzimos sobre ela (SCOTT, 1999). Ambos são conceitos históricos (no sentido de possuírem uma história, serem passíveis de uma genealogia) e, desta forma, cambiáveis no tempo e no espaço.

A filósofa Judith Butler (1956-) nos mostra o quanto a ideia de um sexo natural é produto de relações de gênero que visam a naturalização do sexo em um ambiente pré-cultural e ahistórico.

O exercício, portanto, de naturalização do sexo é uma maneira de assegurá-lo em um status pré-cultural, pré-discursivo e, consequentemente, ahistórico (BUTLER, 2010). Neste sentido, Scott (1999) vai afirmar que, sendo saberes, a distinção entre os dois é complexa, de tal forma que não podemos dizer que o gênero é um reflexo do sexo ou que seja imposto sobre este. Pelo contrário, o sexo se torna um efeito do gênero.

O que não significa que o pênis ou a vagina, por exemplo, passem a existir porque foram “inventados” no âmbito da cultura e da linguagem. Não, eles estão lá! Mas sua existência na sociedade só tem sentido, só é passível de ser compreendida, a partir de um olhar que é cultural, a partir de um discurso que é construído. Assim sendo, concepções políticas sobre masculino e feminino marcam e orientam a constituição desses saberes. É por isso que gênero é, desde sua origem, um conceito político que diz respeito às relações de poder, como já dizia Scott (1995) em décadas anteriores.

“O sexo não poderia qualificar-se como uma facticidade anatômica pré-discursiva”, escreve Butler (2010, p. 27), “sem dúvida, será sempre apresentado, por definição, como tendo sido gênero desde o começo”. Isso é exatamente a ideia de Linda Nicholson (2000), a qual partilha dessa mesma perspectiva, de que sexo e gênero são um mesmo conceito, pois o primeiro está subsumido no segundo e só pode ser entendido a partir deste.

O masculino eo feminino: como entendê-los em termos de sexo e de gênero é sempre um desafio.

Mas, na prática, o que fazer com essas ideias de Scott, Butler e Nicholson? Poderíamos pensar: se ainda utilizam a dicotomia sexo/gênero, então a contribuições delas foi irrelevante? Incorreto. Mesmo as feministas que pensam de forma idêntica a essas autoras utilizam o conceito de sexo e de gênero, a depender do seu contexto, e nem por isso tratam o sexo de forma pré-discursiva e ahistórica. O mais importante é entender o sentido dessa construção social, para além de qual termo se utiliza (SCOTT, 2010).

Na prática política, na pesquisa e no senso comum, sexo e gênero tem informado aspectos diferentes. Para falar de estatísticas em larga escala, utiliza-se a ideia de “sexo”, porque as construções sociais não estão no foco e, querendo ou não, estamos diante de um mundo generificado no qual a polarização de sexos ainda faz algum sentido. Para falar de significados e identidades, preferencialmente utiliza-se “gênero”, porque as construções desse feminino e masculino estão em pauta. As situações variam – a utilidade de cada conceito também.

Em seguida, indico a leitura de algumas postagens antigas desse blog que trabalham com sexo/gênero: clique aqui para ler um texto sobre o desempenho escolar de meninos e meninas, clique aqui para verificar um texto sobre a feminização do magistério, e aqui para abrir um recente texto sobre a representação de animais nos desenhos animados. São três exemplos de que é possível operar com os dois conceitos sem, no entanto, cair em uma polarização radical entre os dois.

A manobra nem sempre é fácil, mas é indubitavelmente rica. Boa sorte!

No nosso último texto falamos sobre a força orgástica ou potentia gaudendi, conceito da obra Testo Yonqui (2008), da filósofa queer Beatriz Preciado, que significa o potencial de excitar (totalmente) um corpo. Vimos que é justamente a potentia gaudendi que o capitalismo atual (farmacopornográfico) põe a trabalhar, ele recorre a essa potência seja na sua forma farmacológica (molécula digestível que se ativa no corpo do consumidor), representação pornográfica (signo semiótico-técnico que se converte em um dado numérico e é transferível a suportes informáticos, televisuais e afins) ou na sua forma de serviço sexual (entidade farmacopornográfica viva que coloca a serviço de um consumidor por um determinado tempo e sob um contrato “formal” de venda de serviços sexuais sua potentia gaudendi e volume afetivo).

Beatriz Preciado (1970 – ) nos alerta que o corpo não conhece sua potentia gaudendi, nem a põe a trabalhar, sendo a mais difícil das situações políticas. Para a autora, essa potência que é o que o capitalismo atual coloca em ação é altamente regulada e controlada.

Por fim, nós questionamos como a potentia gaudendi é regulada nos usos postos em marcha pelo capitalismo atual e como mesmo essa potentia gaudendi nos serve para (des)construir o (tecno)corpo. Dando continuidade a primeira problematização, Preciado (2008) nos escreve que tanto a biopolítica, no sentido foucaultiano, quando a tanatopolítica, política de controle e gestão da morte, funcionam como farmacopolíticas, “gestões planetárias da potentia gaudendi”. Assim, a autora nos esclarece que, embora a força orgástica não tenha gênero, não conheça a diferença entre a homossexualidade e a heterossexualidade, nem entre o sujeito e o objeto, não privilegie um órgão sobre o outro, ela é altamente regulada pelas farmacopolíticas, pelo controle tecnobiopolítico.

Conforme a autora, a regulação da força orgástica poder ser, claramente, vistas na patologização da masturbação e da homossexualidade no século XIX, já que estas não são convenientes para o regime constituído dessa época, em que o que está em jogo é a força orgástica coletiva colocada a trabalhar em prol da reprodução heterossexual da espécie. No entanto, essa regulação farmacopolítica se verá transformada drasticamente pelas possibilidades tecnocapitalistas de obter benefícios da masturbação através da pornografia e o controle da reprodução através da pílula e da inseminação artificial.

O fato é que, como nos esclarece Preciado, a potentia gaudendi se encontra regulada pelas gestões farmacopolíticas e o corpo não chega a conhecê-la, assim não a põe para trabalhar. Relendo Marx, a autora nos escreve que a força de trabalho não é simplesmente o trabalho realizado, mas a potência de trabalhar, o que a levará (re)considerar que qualquer corpo, humano ou animal, real ou virtual, feminino ou masculino, possui esta potência, potência masturbatória, de fazer ejacular, uma potência produtora de capital fixo, a potentia gaudendi. Significativamente, a potentia gaudendi como força de trabalho no âmbito do regime farmacopornográfico, altamente regulada em virtude desse regime, serve aos propósitos heterossexuais e heterossexistas, às relações assimétricas de gênero, às reduções erógenas do corpo, pelas quais o próprio corpo diante da regulação desconhece sua força orgástica, a potência desta. Essa situação, nos alerta a autora, é uma das mais difíceis situações políticas.

Guiando-nos através das possíveis interpretações na obra de Beatriz Preciado, vemos a necessidade de analisar o regime farmacopornográfico em termos de potentia gaudendi, corpo pornificado e grau de opressão. [A imagem pertence ao romance gráfico “Lost Girls”, de Alan Moore e Melinda Gebbie].

 

A regulação progressiva pelo controle tecnopolítico em Preciado (2008) nos leva a enxergar o aparecimento de novas “classes”, mudanças na organização capitalista, dado que o próprio tecnocapitalismo coloca a trabalhar é a força orgástica, a potência de excitar um corpo, claramente, aquelas que satisfazem aos propósitos da heteronormatividade. A autora ainda escreve que existe uma relação direta entre a pornificação do corpo e o grau de opressão, de forma que se atentarmos para aqueles corpos que historicamente tem sido mais pornificados são o corpo da mulher, o corpo infantil, o corpo racializado do escravo, o corpo do jovem trabalhador, o corpo homossexual, corpos que um conjunto de representações os transformaram em sexuais e desejáveis, não existindo, portanto, nenhuma relação ontológica entre anatomia (anatomia do corpo feminino, do jovem trabalhador, etc.) e potentia gaudendi.O novo sujeito hegemônico, nos escreve a autora, a partir da releitura no escritor francês Michel Houellebecq, é um corpo basicamente classificado como masculino, branco, heterossexual (etc.), farmacopornigraficamente suplementado pelo Viagra, a cocaína, a pornografia (etc.), consumidor de serviços sexuaispauperizados exercidos por corpos codificados como femininos, infantis, racializados (etc.).

Nesse sentido, vimos que a compreensão da potentia gaudendi como força de trabalho, como a força que o capitalismo atual coloca em ação, envolve, antes mesmo, a compreensão desse “pôr em ação” em termos de um sistema regulado no interior da era farmacopornográfica. Assim, a apropriação e controle tecnopolítico da potentia gaudendi faz com que nós enfrentamos a mais difícil das situações políticas, como nos argumenta Beatriz Preciado, a situação do corpo não conhecer sua própria força orgástica, ele apenas coloca em ação aquelas regidas pelo próprio controle tecnopolítico.

Nos últimos dias, tive o prazer de conferir a peça de teatro Viver Sem Tempos Mortos, estrelada por Fernanda Montenegro, sob direção de Felipe Hirsch, em uma das 21 apresentações gratuitas que estão sendo encenadas nos Centros Educacionais Unificados (CEU) do município de São Paulo. No palco, a atriz encarna a escritora Simone de Beauvoir (1908-1986).

Fernanda Montenegro interpreta Simone de Beauvoir em Viver Sem Tempos Mortos. Foto: Divulgação.

Apenas uma cadeira e um facho de luz sobre Fernanda são suficientes para que ela, vestindo calça e sapato pretos e uma camisa branca, relate as experiências de vida, intimidades e sensações da feminista francesa, tendo como base fragmentos de seu pensamento impressos nas suas correspondências e memórias.

A escritora, nascida em Paris no início do século passado, foi, como muito bem sabido, uma mulher de coragem. Desafiou padrões vigentes até para os dias atuais, recusando o casamento, a maternidade (ela apenas adotou uma filha), engajando-se em relacionamentos abertos bissexuais ao longo de toda a sua vida, na companhia de outra figura pública, seu amado Jean-Paul Sartre, importante filósofo existencialista. Em vez de calar-se no silêncio do ambiente doméstico, Beauvoir se encontrava pelas noites.

Bastante influenciada pelo existencialismo, escreveu a obra considerada o marco inicial da “segunda onda” do movimento feminista: O Segundo Sexo, de 1949. Alguns anos depois, publicou um premiado e excelente romance (um dos meus favoritos!) chamado Os Mandarins (1956), marcado pelas suas memórias em um tempo que, de longe não era morto, mas era claramente sombrio: o clima de pós-guerra, com a polarização ideológica e novos tensões surgindo. É neste contexto que, junto com Sartre e outros pensadores como Merleau-Ponty, escreve para a revista progressista Les Temps Modernes.

Ao lado de Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir esteve da juventude à morte dele, mesmo com diversos outros relacionamentos com homens e mulheres.

Poderia ficar textos e mais textos falando da rica biografia de Beauvoir. No entanto, indico o blog (brasileiro, apesar do nome) Avec Beauvoir para quem quiser saber mais a respeito de sua vida e obra. Aqui, gostaria de comentar alguns pontos e reflexões que me vieram a partir da sua obra.

Preciso confessar que O Segundo Sexo mudou minha vida. Não sei de onde, mas sempre tive interesse por questões relativas às mulheres (o que não quer dizer que não tenha reproduzido opiniões ou atitudes machistas vez ou outra). Talvez por eu sempre me afastar da masculinidade dos meninos das escolas as quais frequentei, aproximando-me das meninas, fiz-me mais sensível à causa.

Quando ouvi falar em na tal feminista francesa, resolvi me presentear aos 20 anos com essa importante obra. Já prevendo que ela faria algum “estrago” na minha vida, escrevi como dedicatória a mim mesmo: “Duas décadas de um jeito. Como serão as próximas duas depois desse livro?”. Ingênuo, não esperava que a influência fosse tão grande, a ponto de eu me encantar com debates de gênero ainda na graduação e resolver mudar de área na pós, etapa na qual me encontro agora.

Enquanto Simone de Beauvoir, Fernanda Montenegro relata suas memórias de modo bastante informal, mas profundo e sensível.

Por isso, considero-me um quase devoto de Beauvoir. Ela é minha madrinha intelectual. É claro que, atualmente, faço uso das suas ideias com ressalvas, pois o livro é datado e não podemos esperar uma compreensão completa a respeito da subordinação de mulheres a partir de sua perspectiva. O que não invalida, de forma alguma, a sua imensurável contribuição!

Agradeço à Fernanda Montenegro e à sua equipe por ter me proporcionado esta imersão no passado, lembrando-me dos momentos nos quais deliberadamente quis passar por uma “experiência fundamental de liberdade”, tal como a escritora durante sua vida, de tal forma que retracei novos rumos para mim mesmo. Assim como Beauvoir, também quero sempre viver agarrando meu destino com unhas e dentes. E, claro, sem tempos mortos.

Neste blog, fala-se muito de gênero. Porém, para muitas pessoas esse conceito soa obscuro, o que faz com que gênero seja simplesmente um eufemismo para mulheres e não designe nada muito diferente de uma análise comparativa entre os dois sexos. Outros, por sua vez, buscam uma compreensão de gênero questionando aspectos culturais, como as roupas que usamos ou a forma como nos comportamos, impostos sobre dois sexos bem diferenciados. Essas reflexões são válidas, mas fazem pouco uso desse importante conceito.

A feminilidade associado à estética, o cuidado e a sensibilidade: o conceito de gênero está aí justamente para balançar todo e qualquer sentido sobre feminino e masculino.

É fato que o conceito de gênero surgiu nos Estados Unidos para chamar a atenção às construções sociais a respeito de homens e mulheres, tanto que foi um termo emprestado da gramática, como já desenvolvemos em outro texto. Mas “gênero” de modo algum deve se limitar a descrever o que socialmente está dado sobre os homens e mulheres. É um conceito que, em primeira mão, questiona a própria noção de “homens” e “mulheres”.

Essa construção do masculino/feminino é marcada por algumas características: (1) envolve categorias relacionais e opostas, ou seja, só podemos falar de mulheres porque existem homens, e vice-versa; (2) envolve relações de poder, porque a hierarquização desses dualismos é característica da nossa forma de pensamento. Repare: rico/pobre, alto/baixo, bem/mal, saboroso/insosso. Em todos esses casos, temos uma relação desigual de poder implícita. Sutil, por vezes.

O pensador francês Pierre Bourdieu (1995) destaca que com homem e mulher não é diferente. Essa oposição entre dois sexos só pode ser entendida no contexto de todas as oposições do pensamento ocidental. Ao se associar o feminino com a sensibilidade, a fraqueza ou a emotividade (em contraposição à racionalidade e à força), estamos operando uma dimensão de poder que, na prática, leva à redução das possibilidades de ação, protagonismo e autonomia das mulheres.

Uma história das mulheres que se proponha a ir fundo na sua análise, deve quesitonar o significado da categoria “mulher”, contextualizando-a no tempo e no espaço.

Nesse sentido, “gênero” torna-se mais rico para a análise. Segundo Joan Scott (2010), não se escreve uma história das mulheres sem que se escreva também uma história das “mulheres”, isto é, nunca seremos capazes de entender uma história das ações e processos nos quais as mulheres se fizeram presente, sem que exista uma sistemática reflexão sobre o que significou ser mulher em determinado lugar e época.

A historiadora argumenta que “a presença física de mulheres não é sempre um sinal claro de que ‘mulheres’ sejam uma categoria política separada, de que elas foram mobilizadas enquanto mulheres” (SCOTT, 1999, p. 212, tradução minha). É por isso que, para Scott, não é porque existem mulheres que exista, propriamente, uma discussão de gênero. O reconhecimento de sujeitos do sexo feminino não necessariamente politiza a questão no que se refere ao gênero.

O que significa, portanto, realizar uma análise de gênero, a partir dessa perspectiva? De forma simples, vou enumerar três elementos essenciais que devem ser considerados (SCOTT, 1999):

O modelo andrógino Andrej Pejic: elemento essencial para a análise de gênero é descartar referenciais fixos sobre masculino e feminino.

1) Em primeiro lugar, significa descartar a noção de que existam referenciais fixos ou determinados a priori sobre os termos “homens” e “mulheres” e a relação entre eles. Se eu digo que a escola é feminina e o Exército é masculino, sem contextualizar o porquê de estar adjetivando-os dessa forma, é porque estou pressupondo que a feminilidade e a masculinidades são diferentes em tais e tais características. Crio, logo, uma essência do feminino e do masculino. Isso é um erro!

2) Segundo ponto: devemos ter em mente que “homens” e “mulheres” são ideais estabelecidos que regulam e direcionam ações humanas, e não descrições empíricas das pessoas. Ainda, sempre se está aquém do ideal. Quero dizer que não existe um homem verdadeiro ou uma mulher legítima, porque todos/as são arquétipos mais ou menos próximos de um modelo flutuante que não encontra correspondência na prática. “Que ideal é esse?” é uma boa pergunta para iniciar a conversa.

3) Por último, e igualmente importante, devemos reconhecer que há sempre contradições nas normas e regras que articulam os dois sexos. Os sentidos sobre o masculino e feminino são altamente dinâmicos e históricos, confundindo noções fixadas no tempo e no espaço. Gênero é uma estrutura contraditória por natureza, como nos lembra Raewyn Connell (1995), e são exatamente essas contradições que permitem as mudanças e rupturas.

Voltando à questão inicial: “gênero” serve para alguma coisa? Sim! Não precisamos recorrer obrigatoriamente a esse termo, mas não podemos deixar de lado seus potenciais. “Gênero é um convite para pensar criticamente como os significados dos corpos sexuados são produzidos em relação ao outro, como esses significados são criados e alterados”, nos escreve Scott (2010, p.10, tradução minha). Dessa forma, podemos escrever uma história do masculino, do feminino, do corpo e do sexo, abrindo um leque a novas interpretações para as relações de gênero e, assim, a novas configurações da sociedade.

Já repararam que os bichos de desenhos animados, assim como os bonecos que representam esses bichos e são vendidos em lojas, nunca possuem genitálias? Cachorros, gatos, leões, ursos, cavalos, do sexo masculino, não apresentam pênis ou testículos (nem os mamilos que todo macho têm). As fêmeas, por sua vez, não possuem vagina, nem mamilos. O que essa representação revela sobre a nossa forma de lidar com a sexualidade?

Se podemos dizer que a sexualidade ainda é um tabu sob muitos aspectos, a sexualidade das crianças, público-alvo dos desenhos animados e das animações, é em dobro. Conteúdos eróticos são tirados do alcance dos menores, sob o discurso de que crianças não devem ver “cenas pesadas”. Sem discutir o mérito da questão, é válido questionarmos o fato da patrulha da não sexualidade censurar os próprios corpos de animais, a princípio isentos dos valores morais das sociedades humanas.

A ausência de genitália na representação de machos e fêmeas é substituída por outras marcas que distinguem o sexo. No caso, a cor, detalhes do corpo e o comportamento, como no Simba e Nala do Rei Leão.

Afinal, qual seria o grande problema de representar as genitálias em animais? Qualquer criança que tiver um animal doméstico em casa, que puder frequentar zoológicos ou ver fotos na internet, entrará em contato com a anatomia genital dos bichos. Não seria melhor, portanto, tratar com naturalidade a questão desde cedo, deixando claro que a genitália, dos humanos ou dos demais animais, são partes constitutivas do nosso corpo e não deveriam ser escondidas? Isso não significa incentivar a prática sexual desde cedo, muito menos estimular os pequenos a exibirem suas genitálias pelas ruas. É justamente ao se fundar um tabu que o “proibido” ganha força.

E de fato é esse o caminho escolhido. Ocultam-se as genitálias, mas, para diferenciar machos de fêmeas, incluem-se gravatas, ternos, chapéus, nos primeiros, e laços, saias, maquiagem, nos segundos. Importam-se aspectos culturais, impregnados por uma moralidade que é nossa, colando-os aos corpos, à personalidade e às aspirações dos animais representados.

A imagem de um herói do sexo masculino (sem pênis, é claro) marca diversos dos bichos de desenhos animados, como o personagem de Tico e Teco.

Assim, vemos destemidos gatos de botas, se contrapondo a graciosas borboletas cor-de-rosa. Uma representação, com fins de entretenimento, levando à reprodução de concepções tradicionais acerca de gênero e sexualidade (há de se lembrar que todos os bichos são, evidentemente, heterossexuais). Reforçam não só quais comportamentos são esperados para homens e mulheres, como também quais lugares cada um deve ocupar na sociedade.

Podemos ir além dos desenhos e pensar na forma como enxergamos os animais na natureza. Os machos simbolizam a força: gorilas fortes, leões monarcas, tigres ferozes. As fêmeas, das mesmas espécies, são entendidas como mais sentimentais, menos dominadoras, mais maternais. Ainda que existam diferenças de comportamento em função do sexo dos animais, essas diferenças são amplificadas pela caricatura da nossa interpretação, absolutamente enviesada pelas marcas da nossa cultura.

Detalhes e adereços nos corpos das gatas marcam a construção de feminilidades em Aristogatas.

Tomemos por exemplo os cães de estimação. Ao sair do pet shop, as fêmeas saem com laços; os machos, com gravatas. Olhamos para as cadelas como as nossas meigas moças, para as quais a bagunça é inadmissível. Para os cachorros, esperamos outro comportamento, até porque são eles que dominam o espaço espalhando sua urina pelos cantos. Qualquer semelhança (metafórica) com a nossa realidade, certamente não é coincidência.

Não seria mais justo se, em primeiro lugar, as representações fossem fidedignas à natureza dos animais? Em segundo lugar, o campo artístico das representações pode muito bem servir para abrir o leque das possibilidades e expandir nosso universo simbólico. Na prática, ao contrário, ele usualmente serve para a manutenção dessa ordem desigual de gênero que passa inquestionada.

Junto às discussões dos problemas de gênero, é necessário colocar em xeque o que entendemos por homens e mulheres. Essa análise perpassa, necessariamente, pelo que entendemos por macho e fêmea, seja entre humanos, seja na natureza.

Com o intuito de lançar o coletivo estudantil Disparada, formado por estudantes de diferentes cursos da USP e com objetivo de retomar o caráter formativo e propositivo do movimento estudantil, organizamos uma roda de conversa sobre gênero e sexualidade contando com a ilustre presença do cartunista Laerte Coutinho.

O evento aconteceu no Instituto de Biociências (IB) da USP, a faculdade que oferece o curso de Ciências Biológicas. A escolha não foi à toa. O curso da Biologia parece ser um dos mais imunes ao debate das construções sociais do masculino e do feminino, havendo aquela tradicional tendência de recair na naturalização e patologização quando se fala de sexo, gênero ou desejo sexual.

Roda de conversa com Laerte Coutinho, para discutir gênero e sexualidade: auditório lotado, com gente sentada nas escadas.

Podemos dizer que o evento foi um sucesso: o Laerte se sentiu bastante à vontade, respondendo com muita criatividade e humor as perguntas de uma plateia que lotou o maior anfiteatro do Instituto. Os participantes questionavam aspectos relativos à homofobia, à transexualidade, à cobertura da mídia, ao ofício de humorista e também sobre a vida pessoal da plateia.

Laerte enfatizou a importância da Parada do Orgulho LGBT e dos programas educacionais; reforçou que a luta dos LGBT se dá também pela reivindicação de direitos básicos, dentre os quais a Argentina estaria muito à nossa frente. Segundo ele, ainda estamos “discutindo com pastores de direita por questões básicas”.

Além disso, Laerte deixou claro que não acredita em um humor politicamente correto e que o humor é necessariamente transgressor. O que não significa que o humorista não deva refletir sobre o impacto da sua piada, quem vai rir dela etc. Mas, exigir um controle é, do ponto de vista do cartunista, inviável. Da mesma forma, um humor militante tira o rebolado de seus personagens.

Além de ter chamado atenção para a necessidade de mudanças sociais, no caso, no tocante à sexualidade e gênero, Laerte afirmou acreditar em um mundo melhor e que é guiado por uma esperença socialista. Para ele, o socialismo não morreu, senão o modelo soviético (passível de inúmeras críticas). Ser socialista, para ele, faz parte de sua pessoa.

Cartaz de divulgação do evento “Laerte na Bio!”

Para aqueles que não conhecem a figura do Laerte, convidamos-os a procurar pelas suas entrevistas no YouTube. Laerte tem uma didática impressionante para dialogar sobre esses temas: o faz sem ser acadêmico, nem muito militante. Vai na dose adequada entre o irreverente e o crítico, entre a informalidade e o conteúdo.

Do mais, agradecemos ao Laerte por ter nos dado a honra dessa roda de conversa. Para mim, foi um prazer passar duas horas ao seu lado na mesa, e no final ainda ter um livro autografado com um desenho dos Piratas do Tietê. De quebra, Laerte se dispôs a desenhar na lagartixa gigante que decora o Centro Acadêmico da Biologia, somando-se ao antigo desenho feito por Fernando Gonsález, autor do Níquel Náusea.

E continuemos na estrada, que a caminhada continua…