Índias, odaliscas, mulatas: a erotização do outro corpo feminino

Transformar os homens em escravos e as mulheres, em objetos sexuais, é prática comum ao longo da história no que diz respeito à dominação de um grupo por outro. Interessante é notar como, além de uma prática resultante de guerras e conquistas, a erotização do corpo feminino estrangeiro, o corpo da Outra, é incorporado à cultura dominante.

Traçando uma história do corpo, sobretudo no pensamento francês, Alain Corbin (2009) destaca que o imaginário erótico colonial, aquele que incide sobre os grupos colonizados, foi construído a partir de meados do século XIX, quando essa fantasia “toma corpo” – com o perdão do trocadilho. No caso da França, são os territórios da Argélia, do Norte da África e, mais amplamente, do Império Otomano, que desvelam as maiores fantasias e desejos do branco ocidental.

Odaliscas: a erotização que mistura traços da cultura oriental, da dança do ventre, com a cultura ocidental.

Pensamos, por um instante, nas imagens que marcam a nossa cultura. A imagem das odaliscas, a mulher sensual que encanta os homens pela dança do ventre, faz parte da representação erótica feminina do pensamento ocidental. E não me refiro a isso pelo fato da dança do ventre ser praticada também no Brasil. É mais que isso: os elementos desse tipo de dança foram incorporados no que podemos chamar de uma dança sensual. Reproduz-se parte da dança, mas em outros contextos e com outras finalidades.

Corbin (2009, p. 240) destaca que, aqui, “parecem ter-se misturado as imagens do harém e a do bordel, a possessão da dançarina egípcia e a da prostituta”. Vale destacar que essa erotização se dá de forma estereotipada, fruto da desejada ignorância do grupo dominante sobre a cultura subjugada.

Boas doses de xenofobia e racismo marcam essas concepções. Pensemos, agora, nas mulheres negras. Elas não precisam ser estrangeiras para ser O Outro. Em uma cultura que valoriza principalmente a cor branca, as mulheres negras (e os homens também) sofrem preconceito. Embora tenhamos uma população negra expressiva no Brasil, ainda convivemos com a caricatura da mulata, aquela mulher cuja sexualidade está sempre à flor da pele, a mulher “da cor do pecado”.

Mulatas: o corpo negro feminino cuja “cor do pecado” aponta para uma sexualidade sempre disponível.

Voltando no tempo, podemos pensar nas milhares de Iracemas que já tivemos: as mulheres indígenas que se envolviam sexualmente com os colonizadores.

O que as odaliscas, as mulatas e as índias têm em comum, para o que estamos analisando, é o fato de serem mulheres e, todas elas, fruto de intensa objetificação sexual. Evidentemente, são modelos que não condizem com a realidade, haja vista a diversidade de mulheres dentro de cada uma dessas categorias.

Ainda, tal erotização incide com força sobre o corpo feminino, mas não sobre o masculino. A imagem dos sultões, dos negros ou dos índios não nos remete diretamente à sexualidade. Se podemos falar de um homem que é desejado e cujo fenótipo é valorizado na cultura ocidental é exatamente a do homem ocidental, caucasiano, branco de olhos claros.

Na prática, o padrão de beleza hegemônico masculino ou feminino se pauta pelo modelo clássico dos brancos de olhos claros e cabelos lisos. Mas, para as mulheres dos grupos colonizados, há frequentemente um espaço no imaginário sexual. Tal erotização está relacionada à estereotipação desse outro corpo feminino e, consequentemente, da redução de possibilidade de empoderamento dessas mulheres.

Logo, percebemos que, se existem formas de dominação mediadas principalmente pelo uso da força, há outras exercidas sutilmente pela suposta valorização do corpo.

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