Sobre a potentia gaudendi: a potência de excitar (totalmente) um corpo

No âmbito do regime farmacopornográfico, a filósofa queer Beatriz Preciado em seu Testo Yonqui (2008), considera que seja necessário elaborar um novo conceito filosófico equivalente ao conceito de força de trabalho na economia clássica, para podemos compreender como e por que o sexo e a sexualidade se converteram no centro da atividade política e econômica. Assim, a autora nomeará a noção de força orgástica ou potentia gaudendi a potência de excitação (total) de um corpo, uma potência que não tem gênero, não é humana nem animal, não é (in)animada, não se dirige primeiramente a nenhum dos gênero, não conhece a diferença entre homossexualidade e heterossexualidade, o mesmo entre o objeto e o sujeito, não distingue a diferença entre excitar ou excitar-se-com. Ainda, a potentia gaudendi, argumenta a autora, não privilegia um órgão acima do outro, assim o pênis não possui mais força orgástica do que a vagina, nem mais do que um olho ou o dedo de um pé.

Para a continuação de seus estudos sobre a era farmacopornográfica, Beatriz Preciado (1970 – ) nomeia “força orgástica” ou “potentia gaudendi” o potencial de excitação (total) de um corpo. Segundo a autora, essa nomeação se equivale a compreensão de força de trabalho na teoria da economia clássica e pretende mostrar como, no âmbito do regime farmacopornográfico, a força orgástica é regulada tecnopoliticamente.

Dessa forma, Preciado (2008) sustenta que, no regime farmacopornográfico, o substrato da força de trabalho é a força orgástica, a potentia gaudendi, é o que o capitalismo atual coloca em ação seja na sua forma farmacológica, em representação pornográfica ou em sua forma de serviço sexual. “A força orgástica”, escreve a autora na página 38 (e a tradução aqui é nossa), “não busca sua resolução imediata, mas aspira se estender no espaço e no tempo, a tudo e a todos, em todo o lugar e em todo momento”, além disso “transforma o mundo em prazer-com” e “reúne ao mesmo tempo todas as forças somáticas e psíquicas, põe em jogo todos os recursos bioquímicos e todas as estruturas da alma”.

Para a autora, a potentia gaudendi existe unicamente como evento, relação, prática, devir, não pode ser possuída ou conservada, e como fundamento energético do farmacopornismo não se deixa reduzir a objeto nem pode ser transformada em propriedade privada, além disso, não podemos possuir nem conservar a potentia gaudendi do outro, nem aquela que parece nossa. Assim, se o substrato da força de trabalho é a força orgástica, o substrato desta é o corpo polissexual vivo, que, segundo Preciado (2008), não se reduz a um corpo pré-discursivo, isto é, este corpo que conhecemos, delimitado no envoltório carnal que a pele contorna. Aliás, como questiona a feminista Donna Haraway (2009, p. 92) em Manifesto ciborgue: Ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX: “Por que nossos corpos devem terminar na pele? Por que, na melhor das hipóteses, devemos nos limitar a considerar como corpos, além dos humanos, aqueles outros seres envolvidos pela pele?”

A autora retoma, como sempre em sua teoria e ficção política, as cibercontribuições de Haraway, para quem uma revisitação crítica deve ser feita nos dualismos (metafísicos) ocidentais que têm sido mantidos, bem como conceitos de raça, gênero e classe. Grosso modo, Haraway invocará na produção de sua “blasfêmia e fé irônica” o ciborgue como aquele organismo que já se constitui politicamente onde as fronteiras são ilusões de ótica e cujo prazer político é justamente a confusão das fronteiras. “Com o ciborgue”, ela escreve na página 39, “a natureza e a cultura são reestruturadas: uma não pode mais ser o objeto de apropriação ou de incorporação pela outra”.

Assim, o corpo polissexual que é substrato da força orgástica ou potentia gaudendi, para Preciado (2008) não é nem um organismo, nem uma máquina, mas um tecnocorpo, um corpo que é uma entidade tecnoviva multiconectada que incorpora tecnologia, uma extensão das tecnologias globais de extensão. Entretanto, nos basta agora tentar compreender em que medida a potentia gaudendi é regulada no regime farmacopornográfico e se estabelecem a superioridade de um órgão sobre os demais, no caso específico da masturbação, de um gênero sobre o outro, a diferença entre homossexualidade e heterossexualidade? Como alguns corpos se apresentam historicamente mais pornográficos do que outros? Ou ainda, como a própria potentia gaudendi não pode ser usada para a desconstrução do corpo e a construção do tecnocorpo, mostrando nossas situações políticas altamente reguladas pela farmacopornografia, onde não conhecemos nossa verdadeira força orgástica?

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