Bichos dos desenhos animados: laços e gravatas, mas nunca a genitália

Já repararam que os bichos de desenhos animados, assim como os bonecos que representam esses bichos e são vendidos em lojas, nunca possuem genitálias? Cachorros, gatos, leões, ursos, cavalos, do sexo masculino, não apresentam pênis ou testículos (nem os mamilos que todo macho têm). As fêmeas, por sua vez, não possuem vagina, nem mamilos. O que essa representação revela sobre a nossa forma de lidar com a sexualidade?

Se podemos dizer que a sexualidade ainda é um tabu sob muitos aspectos, a sexualidade das crianças, público-alvo dos desenhos animados e das animações, é em dobro. Conteúdos eróticos são tirados do alcance dos menores, sob o discurso de que crianças não devem ver “cenas pesadas”. Sem discutir o mérito da questão, é válido questionarmos o fato da patrulha da não sexualidade censurar os próprios corpos de animais, a princípio isentos dos valores morais das sociedades humanas.

A ausência de genitália na representação de machos e fêmeas é substituída por outras marcas que distinguem o sexo. No caso, a cor, detalhes do corpo e o comportamento, como no Simba e Nala do Rei Leão.

Afinal, qual seria o grande problema de representar as genitálias em animais? Qualquer criança que tiver um animal doméstico em casa, que puder frequentar zoológicos ou ver fotos na internet, entrará em contato com a anatomia genital dos bichos. Não seria melhor, portanto, tratar com naturalidade a questão desde cedo, deixando claro que a genitália, dos humanos ou dos demais animais, são partes constitutivas do nosso corpo e não deveriam ser escondidas? Isso não significa incentivar a prática sexual desde cedo, muito menos estimular os pequenos a exibirem suas genitálias pelas ruas. É justamente ao se fundar um tabu que o “proibido” ganha força.

E de fato é esse o caminho escolhido. Ocultam-se as genitálias, mas, para diferenciar machos de fêmeas, incluem-se gravatas, ternos, chapéus, nos primeiros, e laços, saias, maquiagem, nos segundos. Importam-se aspectos culturais, impregnados por uma moralidade que é nossa, colando-os aos corpos, à personalidade e às aspirações dos animais representados.

A imagem de um herói do sexo masculino (sem pênis, é claro) marca diversos dos bichos de desenhos animados, como o personagem de Tico e Teco.

Assim, vemos destemidos gatos de botas, se contrapondo a graciosas borboletas cor-de-rosa. Uma representação, com fins de entretenimento, levando à reprodução de concepções tradicionais acerca de gênero e sexualidade (há de se lembrar que todos os bichos são, evidentemente, heterossexuais). Reforçam não só quais comportamentos são esperados para homens e mulheres, como também quais lugares cada um deve ocupar na sociedade.

Podemos ir além dos desenhos e pensar na forma como enxergamos os animais na natureza. Os machos simbolizam a força: gorilas fortes, leões monarcas, tigres ferozes. As fêmeas, das mesmas espécies, são entendidas como mais sentimentais, menos dominadoras, mais maternais. Ainda que existam diferenças de comportamento em função do sexo dos animais, essas diferenças são amplificadas pela caricatura da nossa interpretação, absolutamente enviesada pelas marcas da nossa cultura.

Detalhes e adereços nos corpos das gatas marcam a construção de feminilidades em Aristogatas.

Tomemos por exemplo os cães de estimação. Ao sair do pet shop, as fêmeas saem com laços; os machos, com gravatas. Olhamos para as cadelas como as nossas meigas moças, para as quais a bagunça é inadmissível. Para os cachorros, esperamos outro comportamento, até porque são eles que dominam o espaço espalhando sua urina pelos cantos. Qualquer semelhança (metafórica) com a nossa realidade, certamente não é coincidência.

Não seria mais justo se, em primeiro lugar, as representações fossem fidedignas à natureza dos animais? Em segundo lugar, o campo artístico das representações pode muito bem servir para abrir o leque das possibilidades e expandir nosso universo simbólico. Na prática, ao contrário, ele usualmente serve para a manutenção dessa ordem desigual de gênero que passa inquestionada.

Junto às discussões dos problemas de gênero, é necessário colocar em xeque o que entendemos por homens e mulheres. Essa análise perpassa, necessariamente, pelo que entendemos por macho e fêmea, seja entre humanos, seja na natureza.

2 comentários
  1. quer algo mais perturbador? os personagens de desenhos [especialmente Disney] tem sobrinhos, nunca filhos.

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