O termo “gênero”, afinal, serve para alguma coisa?

Neste blog, fala-se muito de gênero. Porém, para muitas pessoas esse conceito soa obscuro, o que faz com que gênero seja simplesmente um eufemismo para mulheres e não designe nada muito diferente de uma análise comparativa entre os dois sexos. Outros, por sua vez, buscam uma compreensão de gênero questionando aspectos culturais, como as roupas que usamos ou a forma como nos comportamos, impostos sobre dois sexos bem diferenciados. Essas reflexões são válidas, mas fazem pouco uso desse importante conceito.

A feminilidade associado à estética, o cuidado e a sensibilidade: o conceito de gênero está aí justamente para balançar todo e qualquer sentido sobre feminino e masculino.

É fato que o conceito de gênero surgiu nos Estados Unidos para chamar a atenção às construções sociais a respeito de homens e mulheres, tanto que foi um termo emprestado da gramática, como já desenvolvemos em outro texto. Mas “gênero” de modo algum deve se limitar a descrever o que socialmente está dado sobre os homens e mulheres. É um conceito que, em primeira mão, questiona a própria noção de “homens” e “mulheres”.

Essa construção do masculino/feminino é marcada por algumas características: (1) envolve categorias relacionais e opostas, ou seja, só podemos falar de mulheres porque existem homens, e vice-versa; (2) envolve relações de poder, porque a hierarquização desses dualismos é característica da nossa forma de pensamento. Repare: rico/pobre, alto/baixo, bem/mal, saboroso/insosso. Em todos esses casos, temos uma relação desigual de poder implícita. Sutil, por vezes.

O pensador francês Pierre Bourdieu (1995) destaca que com homem e mulher não é diferente. Essa oposição entre dois sexos só pode ser entendida no contexto de todas as oposições do pensamento ocidental. Ao se associar o feminino com a sensibilidade, a fraqueza ou a emotividade (em contraposição à racionalidade e à força), estamos operando uma dimensão de poder que, na prática, leva à redução das possibilidades de ação, protagonismo e autonomia das mulheres.

Uma história das mulheres que se proponha a ir fundo na sua análise, deve quesitonar o significado da categoria “mulher”, contextualizando-a no tempo e no espaço.

Nesse sentido, “gênero” torna-se mais rico para a análise. Segundo Joan Scott (2010), não se escreve uma história das mulheres sem que se escreva também uma história das “mulheres”, isto é, nunca seremos capazes de entender uma história das ações e processos nos quais as mulheres se fizeram presente, sem que exista uma sistemática reflexão sobre o que significou ser mulher em determinado lugar e época.

A historiadora argumenta que “a presença física de mulheres não é sempre um sinal claro de que ‘mulheres’ sejam uma categoria política separada, de que elas foram mobilizadas enquanto mulheres” (SCOTT, 1999, p. 212, tradução minha). É por isso que, para Scott, não é porque existem mulheres que exista, propriamente, uma discussão de gênero. O reconhecimento de sujeitos do sexo feminino não necessariamente politiza a questão no que se refere ao gênero.

O que significa, portanto, realizar uma análise de gênero, a partir dessa perspectiva? De forma simples, vou enumerar três elementos essenciais que devem ser considerados (SCOTT, 1999):

O modelo andrógino Andrej Pejic: elemento essencial para a análise de gênero é descartar referenciais fixos sobre masculino e feminino.

1) Em primeiro lugar, significa descartar a noção de que existam referenciais fixos ou determinados a priori sobre os termos “homens” e “mulheres” e a relação entre eles. Se eu digo que a escola é feminina e o Exército é masculino, sem contextualizar o porquê de estar adjetivando-os dessa forma, é porque estou pressupondo que a feminilidade e a masculinidades são diferentes em tais e tais características. Crio, logo, uma essência do feminino e do masculino. Isso é um erro!

2) Segundo ponto: devemos ter em mente que “homens” e “mulheres” são ideais estabelecidos que regulam e direcionam ações humanas, e não descrições empíricas das pessoas. Ainda, sempre se está aquém do ideal. Quero dizer que não existe um homem verdadeiro ou uma mulher legítima, porque todos/as são arquétipos mais ou menos próximos de um modelo flutuante que não encontra correspondência na prática. “Que ideal é esse?” é uma boa pergunta para iniciar a conversa.

3) Por último, e igualmente importante, devemos reconhecer que há sempre contradições nas normas e regras que articulam os dois sexos. Os sentidos sobre o masculino e feminino são altamente dinâmicos e históricos, confundindo noções fixadas no tempo e no espaço. Gênero é uma estrutura contraditória por natureza, como nos lembra Raewyn Connell (1995), e são exatamente essas contradições que permitem as mudanças e rupturas.

Voltando à questão inicial: “gênero” serve para alguma coisa? Sim! Não precisamos recorrer obrigatoriamente a esse termo, mas não podemos deixar de lado seus potenciais. “Gênero é um convite para pensar criticamente como os significados dos corpos sexuados são produzidos em relação ao outro, como esses significados são criados e alterados”, nos escreve Scott (2010, p.10, tradução minha). Dessa forma, podemos escrever uma história do masculino, do feminino, do corpo e do sexo, abrindo um leque a novas interpretações para as relações de gênero e, assim, a novas configurações da sociedade.

2 comentários
  1. Cristina disse:

    Só tá faltando uma coisa: as referências. Não as vejo
    aqui…

    • Oi Cristina,

      Todas as referências estão devidamente expostas na seção “Bibliografia”, uma aba que pode ser acessada logo acima da foto do cabeçalho do blog. Dê uma olhadinha lá, procurando pelos textos mencionados nesse post.

      Obrigado,

      Abraços!

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