Regulações farmacopolíticas da potentia gaudendi: uma introdução

No nosso último texto falamos sobre a força orgástica ou potentia gaudendi, conceito da obra Testo Yonqui (2008), da filósofa queer Beatriz Preciado, que significa o potencial de excitar (totalmente) um corpo. Vimos que é justamente a potentia gaudendi que o capitalismo atual (farmacopornográfico) põe a trabalhar, ele recorre a essa potência seja na sua forma farmacológica (molécula digestível que se ativa no corpo do consumidor), representação pornográfica (signo semiótico-técnico que se converte em um dado numérico e é transferível a suportes informáticos, televisuais e afins) ou na sua forma de serviço sexual (entidade farmacopornográfica viva que coloca a serviço de um consumidor por um determinado tempo e sob um contrato “formal” de venda de serviços sexuais sua potentia gaudendi e volume afetivo).

Beatriz Preciado (1970 – ) nos alerta que o corpo não conhece sua potentia gaudendi, nem a põe a trabalhar, sendo a mais difícil das situações políticas. Para a autora, essa potência que é o que o capitalismo atual coloca em ação é altamente regulada e controlada.

Por fim, nós questionamos como a potentia gaudendi é regulada nos usos postos em marcha pelo capitalismo atual e como mesmo essa potentia gaudendi nos serve para (des)construir o (tecno)corpo. Dando continuidade a primeira problematização, Preciado (2008) nos escreve que tanto a biopolítica, no sentido foucaultiano, quando a tanatopolítica, política de controle e gestão da morte, funcionam como farmacopolíticas, “gestões planetárias da potentia gaudendi”. Assim, a autora nos esclarece que, embora a força orgástica não tenha gênero, não conheça a diferença entre a homossexualidade e a heterossexualidade, nem entre o sujeito e o objeto, não privilegie um órgão sobre o outro, ela é altamente regulada pelas farmacopolíticas, pelo controle tecnobiopolítico.

Conforme a autora, a regulação da força orgástica poder ser, claramente, vistas na patologização da masturbação e da homossexualidade no século XIX, já que estas não são convenientes para o regime constituído dessa época, em que o que está em jogo é a força orgástica coletiva colocada a trabalhar em prol da reprodução heterossexual da espécie. No entanto, essa regulação farmacopolítica se verá transformada drasticamente pelas possibilidades tecnocapitalistas de obter benefícios da masturbação através da pornografia e o controle da reprodução através da pílula e da inseminação artificial.

O fato é que, como nos esclarece Preciado, a potentia gaudendi se encontra regulada pelas gestões farmacopolíticas e o corpo não chega a conhecê-la, assim não a põe para trabalhar. Relendo Marx, a autora nos escreve que a força de trabalho não é simplesmente o trabalho realizado, mas a potência de trabalhar, o que a levará (re)considerar que qualquer corpo, humano ou animal, real ou virtual, feminino ou masculino, possui esta potência, potência masturbatória, de fazer ejacular, uma potência produtora de capital fixo, a potentia gaudendi. Significativamente, a potentia gaudendi como força de trabalho no âmbito do regime farmacopornográfico, altamente regulada em virtude desse regime, serve aos propósitos heterossexuais e heterossexistas, às relações assimétricas de gênero, às reduções erógenas do corpo, pelas quais o próprio corpo diante da regulação desconhece sua força orgástica, a potência desta. Essa situação, nos alerta a autora, é uma das mais difíceis situações políticas.

Guiando-nos através das possíveis interpretações na obra de Beatriz Preciado, vemos a necessidade de analisar o regime farmacopornográfico em termos de potentia gaudendi, corpo pornificado e grau de opressão. [A imagem pertence ao romance gráfico “Lost Girls”, de Alan Moore e Melinda Gebbie].

 

A regulação progressiva pelo controle tecnopolítico em Preciado (2008) nos leva a enxergar o aparecimento de novas “classes”, mudanças na organização capitalista, dado que o próprio tecnocapitalismo coloca a trabalhar é a força orgástica, a potência de excitar um corpo, claramente, aquelas que satisfazem aos propósitos da heteronormatividade. A autora ainda escreve que existe uma relação direta entre a pornificação do corpo e o grau de opressão, de forma que se atentarmos para aqueles corpos que historicamente tem sido mais pornificados são o corpo da mulher, o corpo infantil, o corpo racializado do escravo, o corpo do jovem trabalhador, o corpo homossexual, corpos que um conjunto de representações os transformaram em sexuais e desejáveis, não existindo, portanto, nenhuma relação ontológica entre anatomia (anatomia do corpo feminino, do jovem trabalhador, etc.) e potentia gaudendi.O novo sujeito hegemônico, nos escreve a autora, a partir da releitura no escritor francês Michel Houellebecq, é um corpo basicamente classificado como masculino, branco, heterossexual (etc.), farmacopornigraficamente suplementado pelo Viagra, a cocaína, a pornografia (etc.), consumidor de serviços sexuaispauperizados exercidos por corpos codificados como femininos, infantis, racializados (etc.).

Nesse sentido, vimos que a compreensão da potentia gaudendi como força de trabalho, como a força que o capitalismo atual coloca em ação, envolve, antes mesmo, a compreensão desse “pôr em ação” em termos de um sistema regulado no interior da era farmacopornográfica. Assim, a apropriação e controle tecnopolítico da potentia gaudendi faz com que nós enfrentamos a mais difícil das situações políticas, como nos argumenta Beatriz Preciado, a situação do corpo não conhecer sua própria força orgástica, ele apenas coloca em ação aquelas regidas pelo próprio controle tecnopolítico.

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