Para Roma Com Amor: estereótipos da paixão e do sexo

Em maior ou menor profundidade, o diretor estadunidense Woody Allen sempre causa algum frisson quando do lançamento dos seus filmes. Em sua última produção, escrito e dirigido por ele, Allen não chega a impressionar a crítica, mas deixa sua marca em Para Roma Com Amor (To Rome With Love, EUA/Espanha/Itália, 2012). Neste artigo, não pretendo discutir aspectos técnicos do longa-metragem, mas trazer à toca certas questões de gênero e sexualidade.

Com um elenco primoroso, Allen conta quatro histórias diferentes, em núcleos que não se cruzam. A comédia romântica usa e abusa de estereótipos italianos, dando a ideia de que, citando uma das falas iniciais, “em Roma, tudo pode dar história”. E, de fato, o que vemos ao longo do filme são diferentes vidas que se bagunçam intensamente, até que terminam exatamente como começaram.

O relacionamento entre o inseguro estudante de arquitetura Jack (Jesse Eisenberg) e a sedutora Monica (Ellen Page), na presença de John (Alec Baldwin). (Foto: Divulgação)

Na mais interessante das quatro histórias, vemos o famoso arquiteto John (Alec Baldwin), passando suas férias na Europa, encontrar por acaso o estudante de arquitetura Jack (Jesse Eisenberg). Dois personagens de nomes comuns norte-americanos, o que está de acordo com a seguinte dúvida: qual deles é real e qual é a imaginação do outro? Não sabemos. Nesta história, vemos Jack conhecer a encantadora Monica (Ellen Page), amiga de sua namorada (Greta Gerwig). Monica não é propriamente a representação da femme fatale, mas se mostra sedutora por ser livre (desencanada, abertamente bissexual), curiosa (parece que tudo a apetece) e talvez culta (ao fazer referências óbvias a obras de literatura e artes no geral).

Há todo um incentivo para que Jack cometa adultério: ele é estimulado por John, seduzido por Monica, e mesmo sua namorada parece dar carta branca, pedindo para que ele a acompanhe por Roma etc. Jack fica remoendo essa possibilidade, mostrando bastante insegurança. Sentir-se inseguro também é o que acontece com outros três personagens principais do filme: o cidadão romano de classe média Leopoldo Pisanello (Roberto Benigni), o “fiel” amante Antonio (Alessandro Tiberi) e o neurótico Jerry, interpretado pelo próprio Woody Allen naquele tipo meio intelectual fracassado.

O neurótico Jerry (Woody Allen) e sua esposa psicanalista (Judy Davis): um núcleo cômico cheio de tiradas inteligentes. (Foto: Divulgação)

É curioso notar a construção desses personagens masculinos: todos confusos, inseguros e “fora do lugar”. Leopoldo torna-se famoso de uma hora para outra, no estilo Big Brother de ser: uma subcelebridade que, por não ter nenhum trabalho de relevância, aparece nos jornais apenas para falar da forma como se barbeia, do que come no café da manhã e que tipo de cueca veste. Já Antonio procura ascender profissionalmente, mas se vê acompanhado de uma prostituta (Penélope Cruz), enquanto sua namorada (Alessandra Mastronardi) se perde pelas ruas de Roma e acaba caindo nos braços de um ator famoso.

Woody Allen, por sua vez, encena um personagem bastante cômico: um produtor de óperas que não consegue emplacar sucessos em virtude de suas ideias deveras vanguardistas. Na película, está casado com uma psicanalista (Judy Davis) que aproveita todas as brechas para tecer suas análises freudianas. O casal vai à Roma conhecer o noivo (interpretado pelo galã Flavio Parenti) de sua filha (Alison Pill). Ele é o próprio estereótipo do comunista intransigente, que não deixa ninguém falar mal dos sindicatos ou que recusa toda e qualquer mercantilização.

A sensual Penélope Cruz destoando completamente do ambiente profissional, onde apenas a aparência importa. Mas qual aparência, propriamente? (Foto: Divulgação)

As personagens femininas, no entanto, são muito melhor resolvidas: Penélope Cruz, que sempre está ótima no papel de sedutora, é “a outra” de inúmeros relacionamentos com homens ricos italianos, para os quais “o que é importa é a aparência, somente a aparência”. A personagem de Ellen Page não parece fazer drama a respeito de nenhum relacionamento, sendo bastante indiferente até diante de toda a crise amorosa que se cultiva na cabeça de Jack. Mesmo Alessandra Mastronardi, que incorpora o papel da esposa fiel e compromissada, acaba fazendo uma ressalva ao se envolver sexualmente fora do casamento – e com um criminoso!

Assim, vemos um filme de encontros e desencontros – marcadamente sexuais, diga-se de passagem – onde a paixão é quase um bem de troca: surge e desaparece com igual facilidade. Woody Allen, ao compor personagens estereotipados, brinca com as relações entre eles, fazendo comédia com o tabu do adultério, do amor eterno, da fama e do sucesso profissional. Em um caso, o adultério é quase uma prova de amor pela amante; em outro, fruto da necessidade de aparência; em outro, absolutamente normal para uma figura pública.

Questionamo-nos, dessa forma, se estamos diante de diversos relacionamentos superficiais e falsos, ou se, pelo contrário, vemos relacionamentos que são autênticos e, justamente por isso, não hão de ser eternos, não carregam a pretensão da fidelidade ou a necessidade vital por complementaridade e paixão mútua. O que esses relacionamentos são, no fundo, nunca saberemos, por não sermos capazes de definir o que é esse “no fundo” e se há mesmo tal profundidade.

Para Roma Com Amor é um filme despretensioso que nos dá bons momentos de diversão e também de reflexão. Uma comédia romântica bastante simples e interessante. No final, certamente dá vontade de ter uma aventura… romântica e romana.

Cartaz do “Para Roma Com Amor”. (Foto: Divulgação)

3 comentários
  1. Laís Costa disse:

    Adorei a crítica. Só falta ver o filme. =(

  2. Olá Adriano! Aqui é a autora de mindasks. Gostei muito da discussão sobre o filme! Bastante reflexiva. Muito interessante o seu trabalho! Vocês estão de Parabéns!
    Abraços

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