Homens x Mulheres: quando as desigualdades de gênero viram guerra dos sexos

É recorrente nos meios de comunicação em massa a reprodução de estereótipos sobre os sexos feminino e masculino, a tal ponto da mídia cumprir um importante papel no fortalecimento de uma dada ordem de gênero, por sinal desigual e sexista. Penso, por exemplo, na matéria de capa da edição 292 da revista Superinteressante publicada em junho de 2011 com o título “Homens x Mulheres: por que eles estão ficando para trás”, assinada por Karin Hueck.

A matéria contrapõe dados que vão desde o número de nascimentos até a proporção de mulheres e homens em determinadas carreiras discutindo esses achados à luz de trabalhos “científicos” provenientes, em sua maioria, da neurobiologia. De um lado da página, em tom azul, lemos um texto referente aos meninos; do outro, em rosa, às meninas. Há toda uma literatura de senso comum sobre as supostas diferenças entre mulheres e homens que é sempre marcada pelo humor. O embasamento científico, no entanto, costuma ser altamente questionável. Com essa matéria, não é diferente.

Capa da edição 292 da Superinteressante, contendo a matéria sobre Homens x Mulheres: um tema apelativo, cômico e (bastante) comercial.

O texto inicia narrando um relato obtido por uma neurobióloga de Harvard. Nesta história, uma mãe que sempre quis que o seu casal de filho/a fosse criado sem distinções de gênero, viu sua menina de três anos ninando um caminhãozinho de brinquedo dizendo: “Não chore, carrinho. Vai ficar tudo bem”. Esse fato é suficiente para a revista afirmar que, “para deixar bem claro” (p. 49), sempre há alguma diferença entre os sexos. No caso, um suposto instinto maternal que se expressa nas meninas apesar de uma educação sem gênero.

As críticas a essa perigosa afirmação são muitas e começam de todos os lados. A educação que a mãe (cadê o outro cônjuge?) lhes proveu era de fato desgenerificada? As crianças tinham colegas, primos/as, amigos/as? Elas frequentavam creches? Como eram tratadas por profissionais e familiares? Assistiam à televisão? Atualmente, é cada vez mais claro o papel protagonista das crianças na construção de sua própria realidade social. Uma criança de três anos de idade é capaz de muito mais do que pensamos!

Adiante, a matéria faz menção a “fatos” científicos que, baseados em distinções psicobiológicas, explicam comportamentos distintos de meninos e meninas. Um deles é a “maior agitação dos meninos”, decorrência de um menor “controle de inibição”. Outro é o “maior estresse dos meninos diante da autoridade”, tornando-os mais questionadores, o que pode ser atestado pelos níveis de cortisol no sangue.

Estereótipos sobre homens e mulheres marcam nossas representações do senso comum e também dos trabalhos pretensamente científicos como os gestados no bojo da neurobiologia.

Essa baixa coragem das mulheres supostamente as levariam a serem menos competitivas no mercado de trabalho. Para evitar a competição, elas escolheriam as carreiras menos desafiadoras. Elas ganham menos, segundo a reportagem, por preferência; é porque historicamente gostam de profissões mal pagas, dentre as artes e a educação.

Só depois de muitas páginas de pseudociência, a matéria resolve dar ênfase para o aspecto social e destacar o peso das expectativas tradicionais sobre o lugar das mulheres e dos homens na sociedade. Contudo, a reflexão é bastante superficial e termina atribuindo a conquista da igualdade de gênero a duas razões: o fato dos bebês do sexo masculino nascerem com desvantagens físicas (em virtude de uma suposta rejeição materna ao corpo do sexo oposto) e o fracasso escolar que atinge majoritariamente os meninos em muitos países do mundo. Isso, somado à possibilidade dos meninos serem menos agressivos e competitivos, levaria ao equilíbrio da balança, na opinião da autora do texto.

Pink Brain, Blue Brain, de Lise Eliot: exemplo de obra que, fazendo uso de uma psicologia pop, “atesta” diferenças (conservadoras) entre mulheres e homens com base na ciência.

Curioso é notar a facilidade com que esse discurso encontra respaldo e legitimidade. Como aponta Raewyn Connell (2009), existe uma indústria de psicologia pop que trata homens e mulheres de forma oposta nos seus pensamentos, emoções e capacidades. Essa é justamente a base da concepção psicológica conhecida como “cérebro azul, cérebro rosa”, cujo trabalho é mencionado pela matéria da Super.

É complicado, entretanto, fazer conclusões sobre o comportamento de mulheres e homens, ainda que ancorados na neurobiologia. Além de existirem poucas comprovações de diferenças anatômicas e funcionais nos cérebros de homens e mulheres, poderíamos nos questionar se essas diferenças não seriam fruto dos comportamentos diferentemente realizados por homens e mulheres, em vez de ser sua causa. Esses comportamentos, por sua vez, estão altamente regulados pelas normas sociais.

Pois é muito parcial tecer conclusões sobre diferenças entre os sexos, e pautá-los pelas biologia/psicologia, quando estamos diante de um mundo altamente marcado por feminilidades e masculinidades que dizem com quais modelos mulheres e homens devem se conformar.

A contraposição de diferenças entre mulheres e homens faz parecer que estão competindo na sociedade, quando, no fundo, ambos são produtos de relações de gênero (e de poder) que se reproduzem na mesma.

Características como a capacidade de aceitar ou não a autoridade, ser mais ou menos agitado, manifestar a sexualidade cedo ou tarde, ser melhor ou pior em matemática, gostar ou não de determinadas profissões, estão todas, sem exceção, atravessadas por relações de gênero. São processos complexos que envolvem incentivos, censuras, representações etc. Relações de poder, em suma, marcam de cabo a rabo cada aspecto das pretensas diferenças entre mulheres e homens. Caberia um texto para discutir cada aspecto, mas deixo isso para outra ocasião.

Para completar, o discurso do senso comum é autorizado pela ciência, a qual não é jamais neutra, sendo bastante influenciada pelas concepções prévias dos/as pesquisadores/as, que frequentemente reproduzem suas expectativas na forma de resultados científicos. É a ciência a serviço de uma especulação puramente conservadora; o prestígio científico na produção de “verdades”, como ainda ocorre com a patologização da transexualidade, por exemplo.

Assusta-me, para concluir, a naturalidade com a qual esse discurso penetra o nosso entendimento sobre mulheres e homens na sociedade. Penso o contrário: deveríamos nos rebelar contra a produção de “verdades” que subestimam os potenciais de mulheres e homens, que nos aprisionam em expectativas e representações reacionárias, que negligenciam a nossa tão rica diversidade de gênero. Não podemos aceitar um retrato lúdico de injustiças e formas de opressão históricas. Não podemos deixar que as desigualdades de gênero se transformem em uma guerra dos sexos.

2 comentários
  1. Munhoz disse:

    Nada que venha da editora Abril me assusta mais, rs.

  2. Joaquim Neto disse:

    Parabéns pelo texto!

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