Estudar as relações de gênero é realmente importante?

Um dos primeiros passos para quem estuda um tema é mostrar a importância do seu estudo. Exatamente por isso, um blog que se propõe a discutir gênero deve ser capaz de explicar o porquê dessa escolha. Em numerosos textos nossos, os estudos de gênero são analisados por variados pontos de vista que conectam questões teóricas com problemas da realidade, mas está na hora de sentar e se perguntar: estudar as relações de gênero é realmente importante?

As pesquisas sobre gênero derivaram, como já dissemos em outro texto, do próprio movimento feminista. O conceito de “gênero”, em si, veio emprestado da gramática e se posicionou no centro do pensamento feminista, ao lado de (ou mesmo competindo com) outros conceitos como “patriarcado” e “divisão sexual do trabalho”.

Não é à toa que falar de gênero significa, em grande parte, falar sobre a situação das mulheres e as relações existentes, em termos de trabalho ou política, entre mulheres e homens. Porém, da mesma forma que a presença de mulheres não necessariamente chama para uma análise de gênero (como defendemos neste texto), discorrer sobre gênero não se limita a falar das mulheres.

Discutir gênero significa questionar concepções sobre o masculino e feminino, dentre aquelas que constrangem o cuidado paternal dos homens sobre suas crianças.

Gênero é um conceito poderoso que, acima de tudo, desmascara as construções sociais a respeito do feminino e do masculino. Falar de gênero implica em questionar por que às mulheres é atribuído um instinto maternal, se realmente somos uma espécie bissexuada, o que faz com que as meninas sejam mais vulneráveis ao abuso sexual ou por que são os jovens do sexo masculino que arrebentam seus carros e corpos nos postes depois de um happy hour na sexta-feira.

Puxando a brasa para a minha sardinha, eu poderia dizer que gênero é muito importante. Em uma resposta curta e superficial, diria que gênero está em tudo porque sobre tudo existe uma linguagem, e a própria linguagem já é marcada por gênero. Mas, se quiser ir além, poderia dizer que por trás tanto de importantes processos históricos (colonização, imperialismo, globalização) quanto de coisas banais do cotidiano (vestimentas, uso de bicicleta, eventos culturais) existem pessoas. E as pessoas já são, em si, generificadas.

Assim, gênero não está só nas referências óbvias. Discutir as construções de gênero na representação de homens e mulheres na publicidade é um tema interessante e já bastante consolidado. Ali, entre os/as modelos publicitários/as, a questão de gênero é gritante. Mas o gênero pode e deve ser desmascarado em outros meios, sendo necessário chamar a atenção para aspectos de gênero até então silenciados em outras esferas sociais, políticas e econômicas. Vamos a alguns exemplos:

Emos e seu estilo dark de se vestir: a reação negativa, sobretudo aos emos do sexo masculino, dá luz à homofobia resultante de relações de gênero mal resolvidas na sociedade; no caso, a liberdade sexual.

Há poucos anos, criou-se toda uma polêmica em torno de uma “tribo urbana” conhecida como emo. Entre os emos podia haver meninos ou meninas: em comum, eram jovens que ouviam um rock sentimental com letras melancólicas; o estilo de se vestir era um visual dark, com tons escuros, maquiagem pesada e aquele ar deprê. “Tribos urbanas” vêm e vão, mas o que me chamou atenção foi a reação violenta que se estabeleceu contra os emos, sobretudo aos meninos, que eram taxados de “gays” com forte conotação negativa.

Em parte, foi porque tal estilo virou moda e, estando no auge do sucesso, também alcança o auge das críticas. Porém, existe uma questão clara relacionada à homofobia da população que, diante de meninos maquiados e sentimentais, encontrou vazão para surgir com todo fôlego. Parecia não haver possibilidade de um menino ser “menino” (no sentido de expressar sua masculinidade) e ser emo. Qualquer semelhança com a violência homofóbica a gays não é mera coincidência. A diferença é que ser emo não implica em uma orientação sexual a priori, e mesmo assim não se isenta de uma questão de gênero ainda mal resolvida na sociedade, a saber, a liberdade sexual.

Crescimento do fascismo na Europa tomou fôlego com a força do Golden Dawn na Grécia: determinadas formas de masculinidade em disputa, mostrando que gênero está sempre associado ao poder.

Porém, o gênero não está presente apenas em aspectos culturais. As marcas das relações desiguais de gênero atravessam instituições e acompanham processos como a formação dos Estados nacionais, haja vista a histórica exclusão das mulheres do processo do voto e, mesmo hoje, as intermináveis discussões sobre maior representação política às mulheres. Pensar em gênero nos ajuda a entender o renascimento do fascismo na Europa, considerando que temos o conflito entre diferentes formas de masculinidades que caracterizam os homens de contextos diversos, seja dos carecas gregos do Golden Dawn, dos republicanos brancos que hasteiam a bandeira estadunidense ou dos barbudos dos partidos comunistas.

Afirmar isso não significa dizer, de forma alguma, que tais processos ocorreram em decorrência de disputas de gênero, como se a questão de gênero explicasse tudo. A invasão do Iraque pelos EUA não se explica por uma análise psicanalítica vulgar que associa o míssel de guerra ao falo e ao desejo de George W. Bush em perpetrar sua masculinidade. Há razões políticas e econômicas muito mais relacionadas. O que defendo é que todas essas razões são marcadas por relações de gênero e, evidentemente, produzem efeitos de gênero, pois são justamente os homens que se tornam soldados, são outros homens (mais poderosos) que tomam as decisões, são as mulheres que são subjugadas como prisioneiras sexuais, além de homens e mulheres que ficam sem seus lares. Masculinidades e feminilidades vão sendo moldadas junto com processos históricos, sejam entre os norte-americanos invasores, seja entre os/as iraquianos/as invadidos/as.

Iraquianos queimam a bandeira norte-americana após anos de invasão: processos históricos tem como base relações de gênero e produzem efeitos de gênero, sendo que o feminino e o masculino caminham juntos entre mudanças e permanências.

Uma lista imensa de exemplos se segue: as escolhas de carreira e a “vocação” profissional, o sonho de casar portando vestido branco, o medo de andar na rua sozinha/o, os comportamentos considerados adequados na escola ou no trabalho, as relações com mães e pais, os presentes de aniversários, os brinquedos favoritos, a transexualidade, a violência doméstica, a proporção de empresários do sexo masculino, os reis e as rainhas, a noção de moral e bons costumes, a abertura das creches nas férias escolares, as ações afirmativas, os movimentos sociais e sindicatos. Em tudo isso e muito mais, há gênero.

Sob certos aspectos, feminilidades e masculinidades – e as não nomeadas posições entre esses dois polos – se sobrepõem e se conversam no mundo todo. Em outros, diferem e se confrontam. Gênero se confunde com política e a política se cruza com gênero. Ambos constituem a história da humanidade e nos informam (ou nos confundem) quem somos nós neste oceano de relações sociais sobre o feminino e o masculino. Modificar uma dada configuração de gênero é, portanto, alterar os rumos da própria história.

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