Má Educação

Pedro Almodóvar, diretor de Má Educação.

Vou começar sendo direto e totalmente parcial: Má Educação (La Mala Educación, Espanha, 2004) é, na minha opinião, um dos filmes mais belos e bem feitos do cinema. Produzido pelo cineasta espanhol Pedro Almodóvar (1949-), diretor de Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1988), Tudo Sobre Minha Mãe (1999), Fale com Ela (2002), entre outras preciosidades, o filme tem um roteiro complexo e repleto de digressões, flashbacks e histórias entrecruzadas.

Má Educação (clique aqui para assistir ao trailer) conta a história de Ignacio Rodriguez (Gael García Bernal) e Enrique Goded (Fele Martínez), amigos de infância que estudaram juntos em um colégio católico. O filme começa com Enrique, já adulto, procurando inspiração em jornais para um novo roteiro cinematográfico. Eis que, então, Ignacio toca a campainha e apresenta a Enrique um roteiro que ele mesmo elaborou intitulado A Visita. É importante ressaltar que essa cena marca o reencontro dos dois, que foram separados quando ainda eram crianças e nunca mais tiveram notícias um do outro – até então. Enrique aceita ler o roteiro, mas não promete nada Ignacio, que procurava emprego como ator em algum dos filmes do antigo amigo.

Cena em que Ignácio e Enrique são pegos pelo Padre Manolo (Foto: Divulgação)

A partir daí, entramos na história de A Visita. O filme, portanto, conta com dois roteiros: um é o presente, com Ignacio e Enrique já adultos; outro é o roteiro cinematográfico escrito por Ignacio, que vai justamente contar o passado dos dois garotos. A história narra como os dois amigos se apaixonaram e tiveram as primeiras experiências sexuais juntos. Entretanto, o que mais pesa nesse relato são as denúncias sobre a pedofilia praticada pelos padres daquele colégio, em especial o Padre Manolo (Daniel Giménez Cacho), professor de literatura, que molestava os alunos, inclusive Ignacio. Em determinado momento da história, Padre Manolo surpreende as duas crianças no banheiro do dormitório no meio da madrugada, que estavam conversando sobre o fato de terem “pecado” aquele dia. Ao encontrar os dois escondidos dentro de um boxe do banheiro, o professor ameaça expulsar Enrique por “desencaminhar” Ignacio, que por sua vez implora para o padre não fazer isso com seu amigo. O professor, entretanto, acaba por não atender ao pedido de Ignacio, e expulsa Enrique. Ainda dentro do roteiro (o filme dentro do filme), vemos um Ignacio já adulto, que agora é uma travesti, em companhia de sua amiga Paquito (Javier Cámara), voltando ao antigo internato para chantagear o seu antigo professor: caso o professor não lhe desse a quantia de dinheiro que pedia, Ignacio tornaria o roteiro de A Visita público. Não entrarei em todos os detalhes desse momento do filme agora, pois ele será abordado novamente mais à frente.

Ignácio com Padre Manolo, em cena do filme rodado por Enrique (Foto: Divulgação)

A história do filme – fora do roteiro de A Visita – continua ao longo dos 106 minutos de película, se entrecruzando com a história do roteiro de Ignacio. Nele, Enrique descobre que aquela pessoa que lhe entregou o roteiro, na verdade, é Juan, primo do verdadeiro Ignacio (Francisco Boira) – que foi assassinado por Juan e Sr. Berenguer (Lluís Homar), nome assumido posteriormente por Padre Manolo. Se a esse ponto a história pareceu ter dado um nó, não se surpreenda: essa é uma das belezas do fantástico roteiro de Má Educação, que nos exige ver o filme pelo menos duas vezes, para que entendamos todos os detalhes da trama criada por Almodóvar.

Mas a pergunta que não quer calar é: como esta obra-prima de Almodóvar pode nos ajudar a pensar em questões de gênero (e/ou vice-versa)? A ideia aqui é apontar alguns caminhos possíveis para uma análise de gênero, ou de elementos discutidos pelos estudos de gênero, tendo como material empírico a película em questão. Nesse sentido, farei uma discussão sobre a representação da figura da femme fatale, retirada diretamente do gênero fílmico noir. Para tanto, vou acompanhar a discussão que Naira Rosana Dias da Silva faz em sua bela dissertação de mestrado intitulada “Representações do elemento narrativo mulher fatal: construção das personagens Zahara e Juan no filme Má Educação, do cineasta espanhol Pedro Almodóvar” (2008).

Ainda que não abordado de forma satisfatória no post, é interessante observar como Almodóvar sempre enquadra Zahara colocando-a como elemento profano em contraste com o sagrado. Essa não é a única cena em que ela aparece no mesmo plano de uma imagem religiosa (Foto: Divulgação).

Os filmes noir surgiram na década de 40, inspirados em romances policiais da década de 30. Sempre filmados em preto-e-branco, estes filmes eram sempre rodados em contextos urbanos, com roteiros pesados e personagens que desafiavam regras morais cultural e socialmente postas. O interessante é que uma das maiores referências desse gênero é justamente a figura de uma mulher sem escrúpulos, nada passiva, nem um pouco submissa, e que é capaz de mentir, enganar, seduzir e matar – ela não mede esforços para atingir seus objetivos e desejos. É claro que todo esse poder e essa suposta “libertação” das amarras que historicamente relegaram à mulher o espaço privado, a submissão e a passividade têm um preço: por mais que a femme fatale, ainda nos anos 40, quebrasse com toda essa normatividade, é preciso lembrar também que ela, ao final do filme, quase sempre sofria alguma sanção: ou morria, ou era torturada, ou então se rendia e voltava à posição de mulher subalternizada – da qual ela não deveria ter saído.

Zahara: a femme fatale travesti de Almodóvar (Foto: Divulgação)

Mas como podemos identificar a tal femme fatale em Má Educação? É fácil: a travesti Zahara é um exemplo claro e evidente dessa representação. Almodóvar, em entrevista, deixa clara a presença da mulher fatal em seu filme: “Em Má Educação, a mulher fatal é uma criança terrível, a personagem interpretada por Gael García Bernal, que segue ao pé da letra exemplos os exemplos de Barbara Stanwick, Jane Greer, Jean Simmons (Angel Face), Joan Bennett (Scarlet Street), Ann Dvorak, Mary Windsor, Lisabeth Scott, Veronica Lake e tantas outras maldições em forma de mulher” (SILVA, p. 20). Mas o diretor espanhol não para por aí: pode-se dizer também que a figura do próprio Juan, irmão de Ignacio, é também uma representação da femme fatale. Segundo Silva (op. cit.), “(…) Juan é um ator de teatro, (…) e para conseguir ser um astro de cinema e encenar o papel de Zahara, engana, seduz, usa do sexo e até mata. Juan é o homem fatal e a personagem que realmente remete às características ‘psicológicas’ e ‘morais’ do elemento mulher fatal” (p. 20).

Cartaz de divulgação do filme.

Portanto, o que se vê é uma reconstrução fantástica de representações à la Almodóvar: em um primeiro momento, o diretor retoma figura da femme fatale em uma proposta de filme neo-noir. Mas ele vai além: ao colocar essa representação “feminina” em uma travesti e em um “homem”, Almodóvar definitivamente desloca as convenções de gênero, deixando evidente que várias combinações são possíveis, muito além daquelas cunhadas a partir de um sistema (hetero)normativo que por meio do qual se classifica e se hierarquiza padrões de comportamento social e culturalmente esperados de homens e mulheres. Temos, portanto, uma travesti que chantageia um padre (ou um ex-padre, no caso da história “real”) para conseguir aperfeiçoar seu corpo “feminino”, um homem que chantageia o mesmo ex-padre e mata o irmão para conseguir engatar a carreira de ator; faz sexo com o diretor de A Visita por meses, mente sobre seu passado e aprende com maestria como “entrar no corpo” de uma travesti, tudo isso para conseguir interpretar Zahara, a personagem principal do filme em questão. Ou seja: para além da “mulher que faz de tudo para conseguir o que quer” (o que, de fato, já é um avanço em se tratando de representações sobre a mulher), é possível vislumbrar outros arranjos possíveis no que refere às construções de gênero em nossa cultura. Por isso, acredito que Má Educação seja um filme contestador, original e, por que não dizer, transgressor.

Por uma questão de espaço, não será possível abordar outra importante contribuição do filme em discussões sobre gênero e sexualidade: a delicada questão da religiosidade. Almodóvar, neste filme, aborda de forma crua e violenta o cerne da hipocrisia de muitas das pessoas ligadas à Igreja Católica, instituição moralista e conservadora que prega contra – para citar alguns exemplos – direitos reprodutivos, métodos contraceptivos, interrupção de gravidez, união entre pessoas do mesmo sexo etc. É algo extremamente paradoxal (para não dizer trágico): por um lado, temos uma clara reação homofóbica e sexista por parte de religiosos e, por outro, um crescente número de denúncias de casos de pedofilia dentro da Igreja Católica.

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