Marcha para Jesus: comemora-se o evangelismo conservador?

No último sábado, as ruas do centro da cidade São Paulo foram tomadas por mais de um milhão de fiéis, na Marcha para Jesus organizada por igrejas evangélicas. Segundo o jornal Folha de S. Paulo, a marcha foi caracterizada pelo clima de comemoração. De fato, evangélicos têm muitos motivos para comemorar nesse país. A nós, cabe questionar a custa do que essa alegria tem se levantado.

Marcha para Jesus 2012, em São Paulo: mais de um milhão de fiéis (evangélicos) pelas ruas do centro.

Há poucas semanas, foram divulgados dados do Censo 2010 informando uma mudança na demografia religiosa do Brasil. Nos últimos dez anos, o número de evangélicos cresceu de 15% para 22% da população brasileira, enquanto os católicos caíram de 74% para 65%. A hegemonia do catolicismo no país tem sido ameaçada, em maior grau, pelo crescimento do evangelismo (o qual se pulveriza em dezenas de correntes, além do número expressivo de evangélicos que não se prendem a alguma em especial), pela maior diversidade religiosa e, em menor grau, pelo ateísmo (em São Paulo, já somos 70 mil).

Nesse contexto, caminharam pela capital paulista milhões de evangélicos contentes com o crescimento da sua crença. Após a marcha, apresentações de música gospel e discursos de algumas figuras públicas, dentre o ministro da Pesca Marcelo Crivella (PRB/RJ), figura emblemática no time que menciono abaixo.

Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus, é uma figura de peso dentro do ranço do evangelismo conservador.

Os jornais destacaram que o clima desta última marcha se contrastou com o do evento no ano passado. Em data próxima à Parada do Orgulho LGBT e logo após a aprovação, por parte do Supremo Tribunal Federal (STF), da união estável homossexual, a Marcha para Jesus 2011 aconteceu em Brasília e foi marcada por intensos discursos de ódio proferidos pelos conservadores Magno Malta (PR/ES) e Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, o qual afirmou que o Supremo “rasgou” a Constituição Federal ao aprovar a tal união estável. No mesmo dia, Malafaia rasgou, sob aplausos, o projeto de lei de criminalização da homofobia (PLC/122).

São exatamente esses e outros posicionamentos que incomodam, tanto a militantes LGBT quanto a quaisquer outras cidadãs e cidadãos engajados em causas sociais, a respeito de notícias como o crescimento do evangelismo. Politicamente falando, a Igreja Católica e a Evangélica são ainda as mais fortes no Brasil. Ambas, de modo geral (aqui, excetuo os grupos religiosos progressistas), se opõem a direitos reprodutivos da mulher, à liberdade afetivo-sexual, e se aliam frequentemente à clássica direita brasileira, dentre os ruralistas – lembremo-nos do acordo entre parlamentares ruralistas e evangélicos para votar conjuntamente a favor da reforma do Código Florestal Brasileiro e contra o PLC/122.

Fiéis na Marcha para Jesus 2012: a crença na religião evangélica vem a custo do que, em termos de direitos e liberdades?

Em vista disso, assusta-nos quando o apóstolo da igreja Renascer em Cristo Estevam Hernandes afirma que “de norte a sul, este país se renderá aos pés de Jesus”. Em primeiro lugar, porque não estamos falando de Jesus, e sim de uma religião. Em segundo, porque estar aos pés desse grupo pode com facilidade significar ter que engolir sua agenda reacionária.

Tal fato chega a ser um contrassenso, porque o movimento LGBT, constante alvo desse ranço, não sustenta uma agenda política ateia ou, no limite, anti-evangélica. Para nós, a defesa da liberdade religiosa está dentro da equação da democracia, da mesma forma que a liberdade sexual. A representação política do evangelismo, por sua vez, constroi o seu programa com base na desvalorização de grupos sociais que desafiam tanto o sexismo quanto a heteronormatividade.

Se o crescimento das religiões evangélicas significar empoderamento de setores conservadores, é evidente que será tomado por precaução por nós. O que não significa que estejamos interessados no fim do evangelismo, porque entendemos que o exercício da religião é livre, ao contrário da apologia ao ódio, à violência ou à discriminação. A prática dos representantes políticos do evangelismo, no entanto, sugere que eles não pensam da mesma forma. O embate promete para os próximos anos. E nós não vamos arredar o pé.

3 comentários
  1. Munhoz disse:

    Por um lado o “pipocamento” destes acontecimentos revelam bons sinais. Sinais de que as minorias estão incomodando. Sabemos que a política não é um jogo de comadres, então é ir a luta para defender os princípios que acreditamos. Parabéns pela divulgação das informações e pelos posicionamentos!

  2. O Cristianismo como religião é uma coisa. Estes novos movimentos neopentecostais que se destacam na TV eles mesmos seguidamente se declaram não ser uma religião. Ora, se não são uma religião lógo também não são cristãos e nem seguem a religião cristã. Inventaram alguma coisa usando vocabulário bíblico, personagens bíblicos, usam bastante o nome de Jesús, e se concentram em fazer adeptos, crescer, aumentar horários na TV e continuam afirmando não ser uma religião. O que seriam então?

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