Os brinquedos e os jogos na socialização de gênero na infância

As construções de feminilidades e masculinidades começam desde cedo na vida de um indivíduo em nossa sociedade. Mães, pais e familiares já começam moldando o gênero de suas crianças ao escolher, por exemplo, as cores de enxoval tipificadas entre o azul e o rosa. Até a forma de segurar os bebês já difere, quando se acolhe uma menina dizendo-lhe que é “delicada” ou “princesa”, enquanto os meninos, os “garotões”, são chacoalhados no ar.

Nesse processo, os brinquedos e as brincadeiras, os quais acompanham as crianças das mais variadas origens e camadas sociais, assumem uma posição central enquanto agentes da socialização. A questão é que esses brinquedos não são produzidos pelas crianças, e sim pelos adultos, a partir de expectativas e estereótipos socialmente legitimados para as crianças de acordo com o seu sexo.

Bonecos de guerra: voltados para o público infantil masculino, trazem expectativas sobre os homens que são reforçadas desde cedo (quando não, trazem também ideologias sobre raça e nacionalidade).

Como aponta Mona Zegaï (2010), a indústria de jogos e brinquedos é altamente generificada. De um modo geral, eles cristalizam representações tradicionais sobre os gêneros feminino e masculino, participando ativamente da construção de gênero das crianças. Dentro dessa lógica, focada na reprodução de gênero, poderíamos citar inúmeros exemplos.

Entre eles, a capacidade que os brinquedos têm de exaltar de forma caricatural as masculinidades e feminilidades. Os bonecos masculinos são fortes, personificam personagens corajosos, estão associados à guerra ou à luta do bem contra o mal. As bonecas voltadas para as meninas, no entanto, valorizam a estética, o trabalho doméstico, a delicadeza.

Se temos, de um lado, heróis cobertos por fantasias equipadas para o combate (Batman, Homem-Aranha, Max Steel, Homem de Ferro), por outro lado temos belas princesas brancas (Cinderela, Rapunzel, Branca de Neve, Ariel) ou heroínas que, mesmo dispostas a bater nuns capangas, não dispensam a sensualidade e a beleza (Mulher Gato, Tempestade, Mulher Maravilha, Electra).

Mulher-gato interpretrada por Halle Berry: mesmo as heroínas combativas não escapam da valorização da beleza e da sensualidade. Ainda, costumam ser relegadas ao papel de coadjuvante (não é o caso desta personagem!).

Zegaï (2010) também destaca que diferentes valores são reforçados para cada sexo, ocultando uma realidade social que é muito mais complexa. A expressiva participação das mulheres no mercado de trabalho, por exemplo, é ignorada em prol de um fogão de brinquedo ou reduzida aos estereótipos da professora e enfermeira. Sem falar nas formas desiguais de apropriação do espaço público, para os quais as atividades dos meninos são geralmente voltadas. O que essa autora negligencia, no entanto, é a capacidade das crianças ressignificarem essas atividades.

Crianças não são meras reprodutoras da cultura, como defende Barrie Thorne (1993) em seu clássico estudo. De fato, se os jogos e os brinquedos atuam para a conformação das crianças a modelos pré-determinados, as possibilidades de ação dessas podem permanentemente questionar essa imposição. O que não significa que esse processo não seja, no seu saldo, custoso.

Em pesquisa no recreio escolar, Tânia Cruz e Marília Carvalho (2006) mostram que em muitos casos é evidente a vontade que os meninos e as meninas apresentam de interferir na atividade do outro. Mas, se pular corda ou jogar futebol são brincadeiras marcadas por gênero, atravessar essas fronteiras pode significar chacota por parte de seus pares. O que se vê, então, é uma tentativa de interferir negativamente no andamento dessas atividades. Assim, os meninos até participam das brincadeiras das meninas, mas pulando em cima para atrapalhar, o que possivelmente esconde uma vontade latente de participação.

Meninos jogando futebol: determinadas atividades não são só estimuladas reiteradamente para um sexo, como também são usualmente proibidas para o outro.

Sem pretender entrar nos confins da psicologia infantil, existe outro claro processo de construção de gênero: a repressão. Educadores/as, mães, pais e pares trabalham frequentemente na adequação forçada das crianças a determinadas expectativas. Proíbe-se que meninos brinquem de boneca ou que meninas calcem tênis de dinossauros. Logo, se nas idades iniciais (até quatro anos, aproximadamente), as diferenças de gênero são ínfimas, com o passar do tempo elas tendem a se acentuar, quando a conformação a modelos tradicionais trabalha na produção de uma cultura infantil que já é, em si, discriminadora.

É importante, se temos a igualdade de gênero como uma meta, trabalhar na dissolução dessas fronteiras, de tal forma que brincadeiras mais agressivas por parte das meninas não sejam vistas como um desrespeito, nem que o casamento faz de conta entre dois meninos seja uma aberração, ou que os brinquedos sejam tão estereotipados em dois polos opostos.

Essa meta é fácil de ser defendida, mas difícil de ser aplicada. Se a sociedade trabalha tão intensamente na segregação de gênero na vida adulta, o que dizer sobre a importância da infância nessa mesma reprodução?

1 comentário
  1. valeria lima de moura disse:

    Fico feliz em ter descoberto um blog, na qual aborda concepções de extrema importância em nossa sociedade e tao pouco discutida na educação, jovens que se interessa em abordar a temática de gênero sem distinções, e que traz autores importantes para essa discussão.

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