O sujeito do feminismo e seu problema contingente

Claramente, a “identidade” tem sido, volta e meia, uma questão trabalhada nesse blog e para a teoria queer e a filosofia pós-estruturalista, a “desconstrução da identidade”, no sentido derridiano, tem sido um movimento político crucial. Em O paradoxo da representação política das mulheres, Adriano Senkevics, relendo algumas autoras importantes, nos faz uma crítica da categoria “mulheres” como um sujeito político universal, questionando se, de fato, podemos falar de uma “mulher”, no âmbito da teoria e política feminista, que se aplique a todas. Retomando a historiadora norte-americana Joan Scott, ele nos diz que “mulheres” é um discurso próprio da “diferença sexual” que o feminismo pretendia eliminar, assim a reivindicação por essa categoria alimentava mesmo a “diferença sexual” que o movimento procurava eliminar. Mais a frente, retomando a filósofa estadunidense Judith Butler, ele nos ensina que a mulher para se representar no interior do movimento feminista tem de submeter à identidade pré-estabelecida “mulher”, não sendo necessariamente a identidade de cada mulher que se engaja no movimento.

A teoria feminista presume que existe uma identidade definida, a “mulher” ou as “mulheres”, que tanto deflagra os interesses e objetivos feministas quanto constitui o sujeito da representação política almejada, no entanto, essa representação paradoxal sustenta que a “mulher” é um sujeito político estável, sobre o qual qualquer “mulher” poderia ser representada no interior do movimento feminista. Até quando essa presunção é válida?

De fato, Judith Butler nos argumenta em seu Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade (2008) que quando a teoria feminista presume que existe uma identidade definida, a “mulher” ou as “mulheres”, que tanto deflagra os interesses e objetivos feministas quanto constitui o sujeito da representação política almejada, no entanto, essa representação paradoxal sustenta que a “mulher” é um sujeito político estável, sobre o qual qualquer “mulher” poderia ser representada no interior do movimento feminista. A representação política, nos sugere a autora, parecia obviamente importante, dado que as mulheres ou eram mal representadas ou simplesmente não representadas, dessa forma, a representação parece promover a visibilidade política das mulheres, dando luz ao sujeito político “mulher”.

Mas, a representação, como nos escreve Butler (2008, p. 19), é uma função normativa da uma linguagem pela qual os próprios sujeitos são produzidos discursivamente e reprimidos pelas mesmas estruturas de poder em que buscam a emancipação, assim, as “mulheres” são produzidas pelos discursos que buscam representar essa categoria, vinculada a “certos objetivos de legitimação e de exclusão, e essas operações políticas são efetivamente ocultas e naturalizadas por uma análise política que toma as estruturas políticas como seu fundamento”.

Ainda, Butler (2008) nos escreve que a presunção de haver uma identidade comum da “mulher”, no interior do feminismo, também atraiu o mesmo a presumir uma forma singular de opressão das mulheres, invariante nos diferentes contextos culturais, o que ficou concebido como patriarcado. Assim, o patriarcado universal seria um conceito amplamente invocado para oferecer a contingência histórica das mulheres, em termos de opressão patriarcal ou masculina, além disso, a autora nos esclarece a invocação urgente a esse status universal do patriarcado tinha o objetivo de fortalecer a representatividade das reivindicações do feminismo, motivando ocasionalmente a universalidade categórica ou fictícia da dominação, considerada como responsável pela produção da experiência auto-idêntica das “mulheres”.

Para a autora, é necessário repensar radicalmente essa básica única e permanente do feminismo que é contestada mesma por aquelas identidades que o feminismo exclui, assim, o “nós” feminista é propositalmente uma construção fantasística que tem seus objetivos, mas que nega a complexidade de que o “sujeito” do feminismo é um lócus pré-estabelecido que para uma “mulher” se representar, tem se submeter a ele. O sujeito é, portanto, construído discursivamente pelos discursos que buscam representá-lo e, ao mesmo tempo, reprimido, se constituindo, portanto, por meio da exclusão da parte das “mulheres” que busca representar. Esse raciocínio fundacionista, argumenta a autora, supõe que é preciso haver uma identidade para que os interesses políticos possam ser elaborados e empreendido a ação política, no entanto, ela sugere, que não é necessário existir um “agente por trás do ato”, mas que o “agente” é ele mesmo diversamente construído no e através do ato. 

Nesse sentido, Butler (2008) argumenta que a desconstrução da identidade não é a desconstrução da política, mas o estabelecimento como políticos os próprios termos pelos quais a identidade é articulada. Assim, repensar a categoria das “mulheres” como sujeito do feminismo é crucial para entendermos: que a representação se dá mediante a fixação e a exclusão dos próprios sujeitos que o movimento pretende representar e libertar, que os sistemas jurídicos de poder produzem e reprimem os sujeitos que passam a representar e, por fim, que relações de dominação e exclusão que são estabelecidas quando a representação é o único foco da política.

4 comentários
  1. Oi Lucas,

    Ótimo texto! Esse é um dos assuntos, na minha opinião, mais interessantes do feminismo: a delimitação de um sujeito para a ação política. Gostaria de comentar alguns pontos:

    Exigir uma identidade rígida, fixa e una para os agentes políticos de movimentos sociais é sempre complicado. Em termos políticos, isso torna-se até a causa de retrocessos, haja vista a exclusão das lésbicas dos movimentos feministas liberais norte-americanos (como aqueles encabeçados por Betty Friedan) ou a negligência a causa de transexuais dentro do movimento LGBT.

    Vejo que uma boa parte da disputa política desses movimentos é bem aquilo que constitui o título do seu primeiro post neste blog: uma luta de identidades. Porque as estruturas patriarcais (se é que posso escrever assim), a heteronormatividade, o sexismo, e outras formas de exclusão/subordinação, tentam impor uma determinada identidade sobre as mulheres e os grupos LGBT. Na visão desses conservadores – e com alta difusão na sociedade – a mulher não deve ser aquela sujeita à competição ou ao mercado de trabalho, pois sua vocação maternal a faz mais emotiva e relacional; gays, por outro lado, são sujos, pervertidos, mal-educados.

    Se impõe-se uma identidade de um lado, o que se faz do outro? Desconstrói-se essa identidade. Assim, em termos de ação política, não dá para falar em explodir as identidades como se os grupos pudessem se articular sem ter ao menos uma política de reconhecimento. Nancy Fraser diz algo mais ou menos por aí: o primeiro passo é a luta pelo reconhecimento de uma necessidade. A necessidade, por exemplo, de aprovar o casamento igualitário para garantir um direito social à constituição da família etc.

    Já está dando para perceber que eu tenho ressalvas ao ponto defendido pela Butler. A crítica dela é útil, a meu ver, para a gente entender a necessidade de não defender identidades fixistas e excludentes. O movimento feminista não precisa descrever um “tipo” de mulher para qual o aborto, o salário igual ou o fim do abuso sexual sejam importantes. Mas ao gritar “mulher não é mercadoria!” ele já está trabalhando na reformulação dessa “mulher” que nós encontramos na sociedade.

    Outro ponto: não creio que uma política da identidade preveja um “agente” anterior à prática política. Pelo contrário, os agentes vão se constituindo no decorrer da prática política. O movimento LGBT não nasceu pronto, como se grupos de lésbicas, gays e trans tivessem se reunido e definido quais eram suas pautas. Ele começou como um movimento gay, com recortes sociais bem particulares. Esse “nós” do movimento LGBT foi alterado ao longo do tempo, conjuntamente com sua visibilidade e suas pautas.

    Ainda, a existência de um “nós” não anula a diversidade de identidades individuais. Autores como Alberto Melucci vão nos mostrar que é possível haver identidade coletiva mesmo com milhares de identidades individuais. É o caso, por exemplo, daquelas pessoas que não se sentem confortáveis com categorias como “gay”, “hétero”, “bi”, mas não hesitam em sair às ruas com pulseira de arco-íris para reivindicar direitos.

    A noção de “representação” é bastante complicada, e diria que muito imperfeita. Não existe representação inequívoca. Esse talvez seja um dos maiores problemas da democracia representativa. No fundo, ninguém tá representando ninguém no poder…

    Enfim, este comentário está cheio de reflexões truncadas. Mas creio que esses pontos vão sendo constituídos em outros posts (meus e seus).

    Abraços,

    Adriano

  2. Munhoz disse:

    Parabéns pelo ensaio, Lucas Passos.

    Acho que você tocou num ponto que sempre é colocado como crítica ao pós-estruturalismo: se não temos “identidades coletivas”, então como podemos nos posicionar politicamente para reivindicar os direitos que outras classes já possuem? Quer dizer, se o “negro” não existe, mas é uma mera produção discursiva pelos mecanismo de poder/saber, então como pode atuar um movimento político que defende a inclusão social dos negros? Por isso, as teorias pós-estruturalistas parecem funcionar somente no mundo pós-mundo; ou quando a sociedade estiver para além do bem e do mal. Mas, acredito que as autoras (inspiradas em Foucault, Deleuze e Derrida) conseguiram responder muito bem estas questões. Onde o fazer/agir é mais importante do que o “ser” contingente e fragmentado. Particularmente, acho importante, mantermos um olho no peixe e outro no gato. Ir a luta pelas conquistas políticas e ao mesmo tempo policiando para que não haja uma inversão de papéis e caíamos nas mesmas redes de poder, mas agora, alçadas por nós.

    Abração,
    Munhoz.

  3. Oi Munhoz,

    Acho valiosos os seus comentários, mas não posso deixar de tecer minhas ressalvas a essa pegada pós-estruturalista. Creio que a leitura delas a respeito das identidades é um pouco enviesada. Falar em políticas de identidades não significa necessariamente criar uma “mulher” ou um “negro” tão engessados assim. Além do mais, as “identidades coletivas” não são sinônimas às “identidades individuais”. Um movimento que é construído sobre uma identidade coletiva não pressupõe uma identificação completa com cada indivíduo desse movimento.

    E, querendo ou não, é a partir dessas identidades coletivas que muitos movimentos se afirmaram, se construíram e conquistaram avanços. Não consigo colocar tantas fichas nas políticas de coalizão. Primeiro, porque elas me parecem um pouco incipientes em termos de motivação política. Essa ideia, que em parte retoma o “rational choice” (no sentido de um movimento social partir de “escolhas racionais”, de custo/benefício, de pragmatismo), pode até ser útil, mas de longe não capta tudo o que o feminismo, o movimento negro ou o LGBT fizeram na sua história. Pega um movimento feminista como o feminismo liberal da Betty Friedan: mesmo esse feminismo, pouco radical e bastante ‘legalista’, se pautou pela reconstrução da identidade da mulher.

    Além do mais, quem garante que identidades não possam surgir de políticas de coalizão também?

    Existem movimentos que não dependem de identidades: é o caso do movimento estudantil, do movimento ambientalista; nesses, a questão da identidade é secundária, até porque são movimentos guiados por uma causa explícita (salvar o meio ambiente, por exemplo) ou por grupos efêmeros (ninguém é estudante a vida toda; é uma condição, não uma categoria social). Já os movimentos de negros, de trans, de mulheres, de lésbicas etc, são de reafirmação na sociedade. Não se tratam apenas de pautas, mas de reformulações quase que filosóficas sobre a existência desse grupo e reconhecimento legítimo na sociedade. As identidades não acabam entrando aí?

    Enfim, apenas alimentando o debate.

    Abraços!

  4. Munhoz disse:

    Boa, Adriano.

    Concordo inteiramente que a maneira que é colocada a problemática das identidades pelos pensadores chamados de “pós-estruturalistas” destoa bastante de como ele entendida por uma maioria que luta pelos direitos de inclusão, no capitalismo (que fique claro). Por isso, ainda existem inúmeras tensões internas nesses movimentos.

    Mas uma coisa parece clara para mim. O que os “pós” querem é desconstruir as noções de identidades – pelo menos fixas – ou misturá-las, inclusive as “antagônicas” (como homem x mulher; homo x hetero; negro x branco) sem saber em que momento você é um ou outro – ou seja, você é os dois; o “eu” é um outro. Confesso que somente agora estou tomando contato com as autoras que vocês apresentam no blog, antes eu achava que era impossível aliar essa luta política baseada em identidades e o pensamento pós-estruturalista, até porque pelo que conheço das obras de Michel Foucault e Deleuze, por exemplo, a identidade individual e o próprio indivíduo é uma construção social e, portanto, coletiva também. Em alguns escritos de Foucault ele chega a falar em “desindividualização”: “é preciso se desindividualizar”. Deixar de acreditar naquilo que disseram que você é, porque essa é uma construção histórica e linguística carregada dispositivos de poder que pretendem encontrar o ser ontológico.

    Para mim está claro de onde Foucault (junto com Deleuze, Derrida e outros) tira essa “sacada”. É de Nietzsche e sua exaltação a Grécia Antiga e pré-socrática, quando existia o politeísmo e a ausência de uma moral dual de bem-mal. A multiplicidade de deuses davam aos gregos inúmeras possibilidades de serem pessoas completamente diferentes umas das outras, e como não havia a necessidade de obediência aos deuses, mas sim espécies de contratos provisórios, então você poderia mudar a vontade e basear sua existência em outro deus. Ou seja, resistir frente aos mecanismos de poder é preciso, mas mais importante é re-existir.

    A discussão é longa…rs

    Abraços,
    Munhoz

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