Problemas das dicotomias: uma breve introdução

A filosofia pós-estruturalista tem considerado o pensamento dicotômico bastante problemático e vemos isso principalmente pelos nossos textos para esse blog que tentam abordar as questões de gênero sob a perspectiva da Teoria Queer. Assim, sexo/gênero, masculino/feminino, natureza/cultura, me parece, algumas das mais problematizadas. Mas, afinal, qual o problema do pensamento dicotômico? Que tipos de relações mantêm os termos pelo binarismo?

Elizabeth Grosz, para quem o problema da dicotomia não é a dominação do par, mas antes o próprio “um” que cria limites em torno de si próprio e não reconhece nem admite nenhum outro.

A acadêmica feminista australiana Elizabeth Grosz em seu artigo Corpos reconfigurados (2000) nos faz considerações importantes sobre o pensamento dicotômico, sobretudo, sua adoção e circulação acrítica por filósofos e feministas. Primeiramente, a autora nos aponta que esses grupos adotam essas dicotomias porque compartilham e consideram uma visão comum do ser humano como aquele constituído de mente e corpo, razão e paixão, psicologia e biologia, isto é, de duas características que se opõem dicotomicamente. Aliás, não basta ir longe para ver o quanto nós mesmos usamos amplamente desse pensamento dicotômico na nossa vida cotidiana, como por exemplo, bem/mal, certo/errado etc.

O problema da dicotomia, nos esclarece Grosz (2000), é que ela não é uma divisão neutra em um par, aliás, o próprio binário não é o problema, mas a hierarquização que se estabelece na dicotomia, onde um termo se torna o privilegiado e o outro sua contrapartida negativa e assim, o problema é antes o um, porque este não aceita nenhum outro independente, ele cria um limite em torno de si próprio , expulsando seu outro. Claramente, o termo que ocupa posição de um é aquele privilegiado na dicotomia, esse um cria um limite e expulsa seu outro, porque ele não o admite, o outro é, portanto, sempre o termo subordinado, negativo, o termo ausente, a privação do termo primário.

A autora se foca na dicotomia mente/corpo, nos esclarecendo que o primeiro termo é o privilegiado e “corpo” é o outro, que o termo primário expulsa para manter sua “integridade”, a identidade para si mesmo. Especificamente essa dicotomia, critica a autora, se relacionou com outros pares de oposição, como razão/paixão, sensatez/sensibilidade, fora/dentro, transcendência/imanência, forma/matéria, entre tantos outros, onde tudo o que se associa lateralmente com o “corpo” é definido em termos não-históricos, naturalistas, organicistas, passivos, enfim, termos que são eles próprios tradicionalmente desvalorizados. O mais relevante para a autora é a correlação e associação com a oposição entre macho (mente) e fêmea (corpo).

Nesse sentido, Butler (2008, p. 32) também nos argumenta que: “Na tradição filosófica que se inicia em Platão e continua em Descartes, Husserl e Sartre, a distinção ontológica entre corpo e alma (consciência, mente) sustenta, invariavelmente, relações de subordinação e hierarquia políticas e psíquicas”. Ela continua: “As associações culturais entre mente e masculinidade, por um lado, e corpo e feminilidade, por outro, são bem documentadas nos campos da filosofia e do feminismo”.

Grosz reclama a adoção acrítica de filósofos e feministas da dicotomia mente/corpo com a dicotomia macho/fêmea, participando da desvalorização social do corpo, porque “corpo” é o termo subordinado na dicotomia como seu correlato “fêmea”, e andando ao lado da própria opressão das mulheres.

A filosofia, nos escreve Grosz (2000, p. 49), sempre se considerou como preocupada com ideias, razão, com, evidentemente, tudo o que se relaciona com a “mente”, deixando o “corpo” de lado, excluindo a “feminilidade, e como conseqüência, a mulher, de suas práticas, através de sua codificação usualmente implícita da feminilidade como desrazão associada ao corpo”. Segundo a autora, é por isso que na filosofia, a Mulher permanece como enigma, objeto misterioso e inescrutável, porque a feminilidade mantém uma correlação e associação lateral com o “corpo” e este tem um estatuto misterioso, contido e restrito do corpo.

Essa breve introdução aos “problemas” da dicotomia nos faz perceber que as próprias dicotomias estabelecem uma relação precisa de hierarquização e classificação entre os termos em questão, inicialmente, o próprio um é problemático, porque ele não aceita e expulsa seu outro, cria uma barreira em torno de si mesmo como termo primário e privilegiado, assim o outro não é mais do que o termo subordinado, a ausência do um. É a partir daí que a acadêmica feminista australiana Elizabeth Grosz busca através da dicotomia mente/corpo, onde “mente” é o termo privilegiado e “corpo” o subordinado, entender como essa dicotomia mantêm correlações e associações laterais com outras inúmeras dicotomias, sobretudo, macho/fêmea. Do pouco que expomos do trabalho da autora, percebemos que a relação entre mente e masculinidade, corpo e feminilidade, possibilitam acriticamente a circulação e retificação não só das dicotomias como uma bifurcação neutra, mas também a filosofia e o próprio feminismo como mantedores e clientes dessa dicotomia que inclusiva está ligada a própria exclusão e mistificação das mulheres.

Ensaie um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: