Papel sexual: um conceito importante, mas limitado

Uma abordagem bastante difundida na compreensão das identidades no âmbito dos estudos de gênero, embora sob inúmeras críticas atualmente (as quais serão tratadas no próximo texto), reside na articulação entre uma “identidade de gênero” e um determinado “papel sexual” expresso por homens e mulheres. Em Gender and Power, Connell (1987) afirma que a noção de “identidade de gênero” está para a psicologia assim como a noção de “papéis sexuais” está para a sociologia.

A teoria dos “papéis sexuais” prevê que homens e mulheres são o que são em virtude dos diferentes papéis que exercem na sociedade, a partir de imposições tradicionais.

De fato, o conceito é forte. Quantas vezes não ouvimos que homens e mulheres são o que são porque exercem diferentes papéis na sociedade? Com efeito, dizemos que é imposto um determinado “papel masculino” aos homens e outro, um “papel feminino”, às mulheres. Ainda, esses papéis são entendidos como estruturantes da personalidade, identidade e perspectivas de cada um. Logo, é o papel de provedor, de macho viril, que “molda” o homem, enquanto a mulher se constrói com base no papel submisso, passivo, de coadjuvante na sociedade.

A noção de “papel sexual” deriva do conceito de “papel social”, gestado no pensamento estadunidense na década de 1930. Este conceito, o qual prescreve um conjunto de atitudes esperadas para o comportamento individual que refletem conformidade a normas culturais para as posições sociais que se ocupa, foi rapidamente aplicado a gênero. Na década seguinte, já se falava em um suposto papel masculino e feminino na sociedade, em relação ao qual todo comportamento que escapasse à norma era entendido como um desvio (CONNELL, 1987).

Talcott Parsons (1902-1979), sociólogo estadunidense, foi um dos principais pensadores a escrever sobre os papéis sociais e sexuais: uma abordagem funcionalista sobre as relações de gênero.

Talcott Parsons foi um dos principais sociólogos a escrever sobre os papéis sexuais. Em 1956, escreveu que o papel masculino era “instrumental”, enquanto o papel feminino era “expressivo”, definido em vista das funções sociais diferentemente atribuídas a cada sexo (CONNELL, 2009). A noção, portanto, de que os papéis são construções sociais e não refletem características biológicas estava assegurada (o que já é um passo contra o determinismo biológico!), mas a partir de uma perspectiva funcionalista que trabalhava com ideias de diferença e complementaridade, coerentes com a prescrição de um sistema social e suas demandas por integração e estabilidade, e não de desigualdade ou exclusão (CARVALHO, 2011).

Esse esquema é bem sucinto para explicar as desigualdades de gênero. Complemento que, justamente em virtude dessa simplicidade, é incapaz de dar conta de relações de gênero tão complexas como na realidade elas são. Por mais que a teoria dos “papéis sexuais” tragam atrativos teóricos como o reconhecimento das construções sociais, a articulação entre aspectos estruturais e formação da personalidade, e as possibilidades de mudanças, eles se caracterizam por trazerem compreensões limitadas para a análise sociológica, as quais sinalizam para a sua superação.

9 comentários
  1. Adriano Senkevics,

    O hermético Talcott Parsons já me deu muita dor de cabeça no curso, principalmente com a questão da ação social e de seu sistema AGIL.

    Parece que o Merton dá continuidade a esse assunto. No caso, ele faz uma crítica ao Parsons, fundamentando sua teoria sistêmica em uma perspectiva de médio alcance vinculada a questão da ambivalência do status e papel social, inclusive das mulheres.

    Abraços.

  2. Eu tinha escrito um comentário sobre o Parsons e do Merton e o blog simplesmente apagou. Uma pena😦

    • Oi Inã, desculpa!

      Vi que o comentário tinha caído na caixa de Spams do blog, automaticamente. Estou tentando republicá-lo aqui!

      Abraços!

    • Prezada Amanda,
      As referências bibliográficas estão todas na aba Bibliografia, localizada acima da imagem de capa do blog.
      Caso não encontre o que procura, escreva-nos novamente.
      Um abraço!

  3. Tais disse:

    Nossa, esse blog é maraaa!
    Está contribuindo muito para os meus estudos do TCC!
    Obrigada!!!

  4. Osvaldo Guedes disse:

    Não , um comentário, mas, uma pergunta.Quais são as principais diferenças entre

    o conceito de gênero e as primeiras teorias sobre os papéis sexuais?

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