Um breve histórico da participação das mulheres nos Jogos Olímpicos

Ultimamente, temos assistido às exibições dos Jogos Olímpicos de Londres. Essas Olimpíadas não tem ganhado a atenção da mídia só pelas competições e premiações, como também por alguns ineditismos no que diz respeito à presença de mulheres entre os atletas. Antes de prosseguir, vamos entender um pouco da história das Olimpíadas e por que, nesse contexto, é válido comemorar (e ponderar) os avanços conquistados pelas mulheres.

Os Jogos Olímpicos modernos são inspirados nos antigos jogos gregos, a partir da idealização do francês Pierre de Frédy (1863-1937), conhecido como Barão de Coubertin. Em sua primeira edição, realizada em Atenas em 1896, não havia sequer uma mulher entre os quase 300 atletas. O próprio Barão de Coubertin era avesso à participação das mulheres, afirmando que os esportes praticados por elas eram, por definição, contrários às “leis da natureza”, segundo nos ensina Anne Fausto-Sterling (2000).

A tenista inglesa Charlotte Cooper: atleta de importância na virada para o século XX, foi a primeira mulher a conquistar uma medalha olímpica.

Contrariando a vontade de seu idealizador, a segunda edição das Olimpíadas, realizada em Paris quatro anos mais tarde, já contou com a presença de mulheres; ainda que de forma bastante inexpressiva em termos quantitativos (2%), seu simbolismo foi inquestionável. O nome que entrou para a história foi o da tenista britânica Charlotte Cooper, campeã nas competições individuais e mistas com seu compatriota Reginald Doherty.

A proporção de mulheres continuou em patamares baixos até a edição de 1928, em Amsterdã, quando as mulheres somaram 10% dos atletas. A partir daí, a porcentagem tendeu a crescer (mas em ritmo lento), ultrapassando os 41% apenas em 2004, em Sydney, e chegando a 42% na última edição em Pequim, segundo nos informa uma interessante linha do tempo elaborado pelo jornal O Globo. Atualmente, a proporção de mulheres gira em torno deste mesmo patamar.

A novidade, porém, não está nesse ponto. Nos atuais Jogos Olímpicos, pela primeira vez, as mulheres vão competir em todas as modalidades nas quais os homens competem. Na realidade, elas já os superaram, tendo em vista que os homens não vão competir no nado sincronizado e na ginástica rítmica.

Sarah Attar: uma das duas atletas enviadas pela Arábia Saudita, quando da inauguração da participação feminina por esse país.

Outra novidade: todas as 204 nações participantes enviaram mulheres para Londres. Nos Estados Unidos, a quantidade de mulheres superou a de homens (269 contra 261). Outros países, que tradicionalmente alijavam as mulheres dessas competições, passaram a permiti-las: é o caso da Arábia Saudita, que enviou duas atletas (Ali Seraj Abdulrahim Shahrkhani no judô, categoria 78 quilos; e Sarah Attar, na corrida de 800 metros). Além desse país, Brunei (ao norte da Malásia) e Qatar (ao leste da Arábia Saudita) também inauguraram a sua participação feminina.

Esses avanços femininos, por outro lado, não podem ocultar o fato de que, durante muitas décadas, as mulheres sofreram humilhações no decorrer desse processo. Até 1968, as mulheres deveriam ficar nuas diante de um conjunto de examinadores para atestar que elas eram, de fato, “mulheres”. Isso tudo para verificar se não havia homens infiltrados, os quais, em tese, poderiam ganhar das mulheres com mais facilidade.

[Na verdade, o único caso documentado de um homem se passando por “mulher” ocorreu em 1936, quando Heinrich Ratjen, um membro da Juventude Nazista, competiu com as mulheres no salto em altura sob o apelido de “Dora”. Sua “masculinidade”, porém, não se traduziu em vitória, ficando o jovem nazista em quarto lugar (FAUSTO-STERLING, 2000).]

A espanhola Maria Patiño, que foi desqualificada das Olimpíadas de 1988 por não possuir ovários ou úteros, além de ter um cromossomo Y, usualmente atribuído ao sexo masculino.

A denúncia de que a exposição das mulheres aos olhos de uma banca era degradante fez com que o Comitê Olímpico Internacional passasse a adotar métodos mais modernos para “assegurar” o sexo de um indivíduo, dentre testes cromossômicos e exames de DNA. Todavia, nem mesmo esses testes foram eficientes e justos. Aqui, é válido lembrar a desqualificação da espanhola Maria Patiño, em 1988, sobre a qual foi descoberta a presença de um cromossomo Y e, em seguida, de que ela não tinha útero ou ovários.

Patiño era um caso de intersexo, quando a anatomia corporal se caracteriza por um estado intermediário entre o sexo masculino e o feminino – o que não anula o fato de que ela era, socialmente falando, “mulher”. Aconselhada de manter isso em silêncio, a atleta se recusou e quis lutar pelo seu direito a competir nas Olimpíadas. O caso vazou para a imprensa e a espanhola foi duramente penalizada: perdeu os títulos passados, foi impedida de novas competições, foi deixada pelo seu namorado, teve seu apoio financeiro interrompido. Em triste depoimento, afirmou: “Eu fui apagada do mapa, como se eu nunca tivesse existido. Dediquei vinte anos ao esporte” (FAUSTO-STERLING, 2000).

Fabiana, da seleção feminina do vôlei: o aumento da participação das mulheres nos Jogos Olímpicos deve ser acompanhado de uma crítica à associação dos atributos positivos dos esportes aos homens.

Assim, nos cabe questionar se, mesmo com aproximadamente 42% das mulheres distribuídas entre todas as modalidades olímpicas, conseguimos superar as discriminações de gênero que marcam as trajetórias dessas atletas. Pois é difícil vislumbrar avanços quando, recentemente, uma atleta negra brasileira, a Rafaela Silva, é chamada de “macaca” após ter cometido uma infração no judô, ou quando as atletas femininas são ofuscadas de seu talento esportivo em prol de concursos de beleza.

Para além de acrescentar mais mulheres nas Olimpíadas, é necessário desconstruir a ideologia dos esportes – e os valores a eles relacionados: virilidade, esforço, dedicação, superação, força e resistência – que associa todos os seus atributos positivos aos homens. Ao praticarem esportes, as mulheres não estão copiando a pretensa masculinidade dos tradicionais atletas masculinos: elas apenas estão mostrando que o esporte é para qualquer pessoa, não existindo uma natureza feminina ou masculina que demarque nossos lugares e papéis nos Jogos Olímpicos, assim como na sociedade em geral.

8 comentários
  1. Adriano Senkevics,

    Estou aprendendo muito com o seu blog. Esses dados sobre a participação das mulheres são bem interessantes e eles demonstram que realmente teve algum tipo de avanço, pelo menos nesse aspecto.

    Gostei bastante do texto, principalmente da parte final quanto ao aspecto da desconstrução ideológica nos esportes e aos valores a eles relacionado. Se até as telespectadoras ainda são rotuladas em alguns momentos, imagina as atletas. Eu por exemplo, tenho amigas que gostam muito de assistir futebol e acabam sofrendo algum tipo de comentário pejorativo ligado a questão da masculinidade.

    Abraços.

    • Oi Inã,

      Obrigado! O final do texto, que você disse ter gostado, é o que se aproxima mesmo de uma análise de gênero. Antes disso, eu apenas tinha mostrado dados a respeito da presença de homens e mulheres, o que configura uma análise principalmente sobre o sexo, e não o gênero. A partir do momento em que passamos a destrinchar o que é “homem” e “mulher”, estamos fazendo uma análise de gênero, pelo menos na concepção adotada, influenciada por Joan Scott (veja no texto “O termo gênero, afinal, serve para alguma coisa?”).

      Sobre as suas amigas que sofrem comentários pejorativos. Pois é, percebe que é o mesmo que acontece quando mulheres ousam mais no mercado de trabalho ou quando alguma pessoa hétero faz amigo com gay. Os mecanismos são muito parecidos. Isso é que é curioso, e ao mesmo tempo o que nos irrita mais: sua permanência.

      Abraços!

  2. Simone Cecilia Fernandes disse:

    Olá Adriano
    Eu estava procurando referências da Linda Nicholson (para além do “interpretando o gênero” ) e me deparei com o blog. Encontros. Gostei bastante dos textos, eu estudo relações de gênero nas aulas de educação física escolar aqui em Campinas, também sou professora da educação básica. Me interesso bastante pelo empoderamento das mulheres frente a uma fisicalidade necessária para a prática de alguns esportes coletivos. Mas não estou certa de que isso reflita uma masculinização nos moldes hegemônicos… mas sim uma inteligência tática/técnica para os esportes, é preciso desconstruir essa relação entre esporte e virilidade… enfim, são questões que tenho feito a mim também, como pesquisadora e professora.
    Ah, uma mulher chamada Stamata Revithi correu o percurso da maratona olímpica de 1896 um dia após a corrida oficial, mas foi proibida de entrar no estádio oficial… proibições… enfrentamentos.
    Acho o inverso mais cruel – o homem que deseja dançar sofre mais estigmatizações que a mulher que deseja jogar bola.
    abraços e obrigada,
    Simone

    • Oi Simone!

      Puxa! Que bacana! Admiro o seu esforço em quebrar com tal masculinização dos esportes. No texto, não quis dizer que a presença das mulheres leva a essa masculinidade. Na verdade, minha intenção foi defender a participação das mulheres nos esportes, com o adendo de que essa ideologia sexista seja minimizada conjuntamente.

      Não sabia da Stamata Revithi. Obrigado pela informação!

      Abraços!

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