Uso de conceitos sin examen: é preciso tomar cuidado!

Temos feitos uma análise crítica de termos que parecem desde o início estarem “aí”? Como ainda temos usados conceitos como “gênero” com uma postura ontológica?

Particularmente, estive pensando como o uso de alguns termos sem uma análise crítica pode ser problemática e como, em nossa vida linguística cotidiana, fazemos isso exageradamente. Pensemos no “gênero” (gender). O gênero parece ser adotado cotidianamente com uma postura ontológica, algo inato que alguém “é”, correspondendo, claramente com o sexo que esse alguém “pertence”. Assim, presumimos acriticamente que a “diferença sexual” existe desde sempre, antes de qualquer sociedade, de qualquer relação; portanto, “o sexo” é a origem de tudo. Se o sexo é anterior a qualquer “ato”, a qualquer “eu”, me parece que ele excede qualquer significado de existência e, talvez, antes do performativo “Faça-se luz!”, haja o performativo da diferença sexual: “Faça-se aquele que diga ‘Faça-se luz!’”. Em outras palavras, teríamos que fazer algumas mudanças radicais nas posições dos sujeitos fundadores, porque não haveria um “eu fundador” atrás do ato, porque o “eu” atrás do ato é sempre a “diferença sexual”.

Quando a “diferença sexual” antecede toda e qualquer sociedade, logo, como nos afirma Wittig (2006), a opressão das mulheres seria causada pela divisão natural dos sexos e, portanto, inscrita na “natureza”. Teríamos que nos perguntar: O sexo antecede qualquer sociedade? O que é o “sexo”? Natural, a-histórico? Ele existiu desde sempre, antes de nós? Porque há uma classificação em dois sexos? E há também o “gênero”; somos de um “gênero” (desde o início?) e alguns parecem acreditar, veementemente, que as mulheres vieram de Vênus e os homens de Marte, perpetuando, dia após dia, a hierarquização dos gêneros, a guerra dos sexos, as relações assimétricas e oposicionais.

“Qual o seu gênero?”, pergunta, por exemplo, o facebook. E a todo o momento reafirmamos nosso gênero, somos desse gênero e não, evidentemente, do outro. Ser de um gênero é não ser do outro, a diferença por excelência e manter uma relação assimétrica e oposicional com o outro gênero. A identidade de gênero antecede a “identidade” da pessoa e portanto “ser homem” ou “ser mulher” são situações qualificadoras do humano. O gênero, como tem ensinado Butler (2008), está em nossos atos, gesto, estilos corporais, mas também sobrepassa os corpos que (não) “importam”[1]. Mas, como também nos ensina a autora, “ser” de um gênero produz fracassos necessários, porque o gênero é performativo desde o começo.

A feminista francesa Monique Wittig crítica o uso do “gênero” na Gramática e, sobretudo, na filosofia, como conceito concebido como pertencente a natureza do Ser, um conceito a priori, sem o qual não poderia ser possível “raciocinar”.

Retomando aos usos, sin examen, do gênero, Wittig (2006) nos afirma, que o “gênero” parece não ser questionado também na Gramática e na Filosofia. Sobre a primeira, a autora nos escreve a marca do gênero é entendida em termos de função, retificando na linguagem a divisão dos seres em “sexo”, sem se questionar; e sobre a segunda, ela nos diz que o gênero “pertence à filosofia”, porque pertence ao corpo de conceitos que se assumem ontologicamente, os quais os filósofos consideram imprescindíveis para raciocinar. Wittig considera que os filósofos fazem o uso do gênero como um conceito a priori, que antecede qualquer pensamento, um conceito que se refere à natureza do Ser.

Claramente, Wittig nos faz uma crítica quanto ao uso acrítico do termo “gênero” como um termo ontológico. Diríamos que no cotidiano da nossa sociedade, o que mais percebemos é esse mesmo uso ontológico do termo em questão, uma natureza do Ser, uma classe natural, que impregna, antes de tudo, nossa posição política, de percepção das relações de gênero. Quando o “gênero” é usado com essa postura, ele pouco releva as relações de poder que se fazem em nome de sua estabilidade, colocando a “natureza” como causa e encerrando a questão como pertencente a uma “ordem das coisas”. Essa visão não permite, portanto, (re)pensar a hierarquização, assimetria e oposição do Outro no interior das relações de gênero, que tipos de jogos estratégicos há por trás de “ser” de um gênero, como opera o regulamento do gênero, a “diferença sexual” etc. Enfim, temos que nos atentar, no nosso cotidiano lingüístico, acadêmico, nas nossas argumentações filosóficas, mais aos usos de conceitos acríticos, aqueles que consideramos como a priori para o desenvolvimento mesmo do nosso pensamento, aqueles que parecem que sempre estiveram ontologicamente em algum lugar e sem os quais não poderíamos pensar.


[1] Que o gênero está “além” dos corpos é uma questão que o nosso querido Adriano Senkevics, em suas leituras da historiadora norte-americana Joan Scott, nos tem ensinado e cobrado. 

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