Identidade e diferença: uma breve introdução

Stuart Hall (1932 – ): importante teórico pós-estruturalista para quem a identidade é um dos conceitos-chave “sob rasura”.

Em seu artigo Quem precisa de identidade? (2011), o teórico cultural jamaicano Stuart Hall nos diz que a “identidade” é um dos conceitos-chave que o pós-estruturalismo colocou, mediante a desconstrução, “sob rasura”. Retomando Derrida, o autor esclarece que o sinal de “rasura” (X), indica uma escrita dupla da qual devemos pensar o conceito-chave em questão no limite, no intervalo que surge entre a inversão e a emergência. Em outras palavras, estando “sob rasura”, significa que a “identidade” em sua forma original já não é tão satisfatória para ser pensada, mas a não superação dialética do conceito e sua não substituição por outro conceito diferente, que possa substituí-lo, nos leva a continuar pensando com eles, mas, sob a perspectiva desconstrucionista, de um modo diferente, que não pode ser pensada em sua forma original.

Em sua forma original, como sabemos, a “Identidade” é concebida como aquilo que a pessoa “é”, sua essência, suas características internas, a unidade da sua experiência, assim, quando dizemos “sou brasileiro”, essa identidade se esgota em mim mesmo. No entanto, como sugere Tomaz Tadeu da Silva em A produção social da identidade e da diferença (2011) a afirmação “sou brasileiro” só é possível na medida em que existem outros seres humanos que não são brasileiros, isto é, na medida em que podemos apontar que “ele(a) é italiano(a)”, “ela(e) é russa(o)”, “ele(a) é mexicano(a)”, “ela(e) é norte-americana(o)”; enfim, que “ela(e) é aquilo que não sou!”.

Para Tomaz Tadeu da Silva (1948 – ) a “identidade” e a “diferença” são conceitos indissociáveis: a identidade tanto depende da diferença quanto a diferença depende da identidade.

É nesse sentido, que para o autor, identidade e diferença estão instrinsicamente ligadas, já que elas dependem uma da outra: Eu/nós sou/somos aquilo que ele/eles não é/são. Observem como eu/ele, nós/eles não são simples distinções pronominais, mas facultam o binarismo problemático que privilegiam o termo primário, aliás, se seguimos a nossa breve introdução sobre do pensamento dicotômico apresentado em um texto anterior, veremos que o “ele” é o outro que “eu” enquanto um expulsa na sua constituição, da mesma forma que o “eles” é o outro expulsado pelo “nós”. “Dividir o mundo social entre ‘nós’ e ‘eles’”, esclarece Silva (2011, p. 82), “significa classificar […] A identidade e a diferença estão estreitamente relacionadas às formas pelas quais a sociedade produz e utiliza classificações” e, nesse caso, a divisão e classificação, também hierarquiza.

Assim, a afirmação “[Eu] sou brasileiro”, simplifica, segundo o autor, uma série de cadeia de negações, uma vez que a afirmação substitui que “não sou argentino”, “não sou chinês”, “não sou japonês”, “não sou italiano” etc. Da mesma forma, dizer que “ele(a) é mexicano(a)” oculta uma mesma série de negações em que “ele(a) não é italiano(a)”, “ele(a) não é brasileiro(a)”, enfim que ele(a) é aquilo que eu não sou. Segundo Silva (2011), a identidade e a diferença, se traduzem, portanto, nessas declarações sobre quem pertence e quem não pertence, demarcando fronteiras, classificando e normalizando e, logo, elas não podem ser desvinculadas de amplas relações de poder.

Hall (2011) também nos afirma que a identidade é construída por meio da diferença e não fora dela, e toda identidade, “eu/nós”, só se estabelece em relação com um Outro, o exterior constitutivo, com aquilo que lhe falta, “ele/eles”. Assim, a unidade da identidade é constituída no interior dessa relação de exclusão, mas o mesmo jogo de poder se vê desestabilizado por aquilo que ele deixa de fora. Para o autor, a identidade se baseia nesse ato de exclusão, que cria uma violenta hierarquização entre os pólos resultantes.

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